Ir.·. Pedro Moacyr Mendes de Campos
A espada, utilizada na maçonaria desde tempos antigos e remotos, ainda permanece com sua simbologia própria e inalterável. Símbolo da defesa impiedosa, da destruição, da manutenção e recuperação da própria dignidade apesar de sua essência, com absoluta energia, o símbolo da justiça.
Símbolo, muitas vezes desperto da virilidade e como símbolo fálico, à exceção de raras personalidades históricas, guarda para si e para quem a possui, o poder de posse, da vitória, da justiça. Entretanto, na reflexão de sua própria simbologia e significado, é de se questionar quanto à sua existência e manutenção em ritos e cerimônias onde o amor, a paz e a harmonia enaltecem sobremaneira os três objetivos, quais sejam, a liberdade, a igualdade e a fraternidade. E para a sustentabilidade dessas prerrogativas, prefaciamos trabalhos com a anunciação dos propósitos de cavar masmorras ao vício, edificando templos à virtude. E, concluímos com altos brados, desejando a todos, paz, harmonia e concórdia, ou, em cadeia louvamos nossa união, ao som de uma cantata de Mozart.
Na revolução francesa, foi dado o brado, liberté, égalité ou mort, com a espada em movimentos e silvos breves e agudos, como instrumento de defesa desta prerrogativa. Desembainhar uma espada significava uma ação destrutiva, ou seja, a pena de morte declarada aos inimigos deste ideal. Embainhá-la significava o alerta, a vigilância a espera de um ataque iminente. Entretanto, na maçonaria, a liberdade, a igualdade e a fraternidade não sustentam paradigmas dogmáticos de lutas ou de revoltas, mas sim fundamentos filosóficos de comportamento social.
Seja para o neófito, seja no início de uma sessão, encontramos o guarda do templo armado com uma espada, em posição de defesa significando que o templo está protegido após a verificação armada, interior e exteriormente. Sequer embainhadas estão, mas à mão dispostas à ação, ao pronto estabelecimento da ordem e da defesa quando julgado necessário. “Ninguém que ama seu país pode auxiliar seu progresso se ousar negligenciar o menor de sus compatriotas.” (Ganhi) Louvores ao ato heróico, volúvel e acadêmico, apenas, todavia, pergunto: o poder de destruir o mal para preservação do bem e da justiça dependem do uso da força quando o perdão é próprio ao homem?
Simbólico ou não, verifica-se a manifestação do propósito inalterável da predisposição à luta armada, tendo-se a impiedosa demonstração de que, a agressão física é um pressuposto indelével de permanente estado de alerta, em oposição ao místico significado simbólico de uma filosofia existencial. Filosofia esta, desenvolvida em uma cerimônia, onde a virtude, uma arte que deve ser cultivada com a palavra, com o amor, o que justifica, jamais ser necessário metaforizar um procedimento para a perfeita aceitação e compreensão de um comportamento, onde desafio armado com potencial à defesa, parece satisfazer uma necessidade oculta. E isto nos leva a crer que estamos cultivando conceitos antagônicos, com padrões distorcidos pela própria definição, onde o simbolismo de um objeto, cujo valor intrínseco ao seu significado, nos leva a contradições evidentes.
A justiça tem como símbolo a espada, não como arma, mas como fiel de uma balança, manifestação da verdade, única e imparcial. A maçonaria tem a espada como símbolo da defesa armada. Uma contradição aos princípios de uma filosofia que tem como vetor direcionado à pesquisa da verdade. E a verdade não se conquista com a força, afinal a verdade não é patrimônio de ninguém, é uma revelação da essência da natureza humana, o amor. A verdade pertence a um dos vértices de um triângulo com o amor e Deus. Conheça um deles e os outros lhe serão revelados.
Paradoxal comportamento, onde gesto e palavra se contradizem, manifestando-se em linha de colisão permanente, pois desde quando honra e dignidade se defende com arma? E a palavra, onde fica? Os grandes heróis e conquistadores, em toda história da humanidade, mantêm sua plenitude através das armas enaltecendo o refrão, se queres a paz, arma-te. Mas sempre nos reportamos á arte de falar e nos locupletamos às honras citando Sócrates, Buda, Jesus, entre tantos outros, dos quais os legados ainda hoje nos suprem à resistência de nossas amarguras e decepções. Apenas a palavra, a não violência.
Entretanto nossos princípios nos levam a entender que, se queres a paz, ama teu próximo como a ti mesmo, porém, com a espada, arma própria à execução, à morte com requintes de crueldade. Ela está associada ao próprio juramento penalizando o perjuro cortando sua cabeça, dilacerando seu peito, arrancando suas vísceras. E assim, ela está associada à lei dos contrários, dos opostos, da divisão, seja da unidade ou da pluralidade. Admitamos, pois, sua integridade pela propriedade física de atrair a energia cósmica, transferindo-a ao seu portador que se potencializa como transmissor de suas virtudes.
A essencialidade e a existencialidade da instituição se contradizendo em seus próprios conceitos. Se extraído esse comportamento de nossa história, a necessidade ao confronto era necessário à preservação de princípios ou segredos, inerentes ao sucesso material de uma atividade, quando lojas de pedreiros reuniam-se para discutir o andamento das suas construções de templos. Hoje, bem o sabemos, procuramos construir também templos, mas templos de comportamento social. Comportamento estruturado na moral e na preservação da dignidade. Preservamos o conceito de que a instituição nada mais é que um ideário de comportamento estruturado na ética e na moral. Não obstante, permanecemos inflexíveis quanto à associação de virilidade com o porte e manuseio de uma arma.
Conservemos a espada, sim, não como arma e seu simbolismo pretendido à defesa ou ataque. Conservemos seu simbolismo próprio à preservação da retidão, da lealdade, e, com o poder da palavra, da honra e da dignidade.
É também por demais estranho ser alheio ao entendimento quando um maçom, em sociedade, em permanente transformação evolutiva de conhecimento, globalizando conceitos e comportamentos, permanece irredutível quanto aos conceitos que persistem em situar-se no altar dos arquétipos emancipadores, onde fé e crença dissociam-se em sua plenitude . Resiste a qualquer inovação, ou renovação ou mesmo ao renascimento de comportamentos precisos, não apenas toleráveis, mas amplamente divulgados quanto a sua plena necessidade de permanência construtiva em parceria com a própria evolução.
Os ritos, mesmo que estabelecidas exceções, necessárias e evidentes, persistem, pela força dos próprios ritualistas, quanto à permanência de símbolos como a espada, apesar da evidente constatação de seu uso supérfluo, arrogante, prepotente e agressivo, pois muito bem sabem que a evangelização dos conceitos básicos, são apenas toleráveis à circunstâncias.
Existem ritos, que mesmo após transformações diversas houveram sofrido, utilizam a espada para verificar se o templo está protegido, mesmo que simbolicamente. Mas há também ritos, que o próprio corpo de obreiros, antes da sessão, após a solicitação para entrar no templo, são recebidos por um irmão, um guardião, não com a espada em riste, mas em posição de defesa, em direção aos próprios irmãos. Mas o que significa tudo isso? Que simbologia é essa que transforma a palavra, símbolo áureo da dignidade e da honra, em ameaça de defesa e luta armada?
Mais agravante, a cessão da luz ao neófito. Os irmãos que o recebem lhe dão a luz ameaçando-o com espadas a ele dirigidas. Por que não com as mãos estendidas em sinal de chamamento ao caminho da luz, da verdade, da harmonia, da concórdia e da virtude? Mas não, é com a espada a ele dirigida, símbolo da defesa de um ideal, de uma casta, de uma sociedade, de uma instituição que o seja, mas sempre com o instinto de guerra, de luta armada, subjugando o suposto pretendente inimigo.
Julgo ser algo a considerar, haja vista o paradoxal sentido desta simbologia, ou mesmo de um cerimonial onde as leis morais rezam e direcionam o comportamento ideal. E isto não acontece com uma arma, com uma espada, faz-se, isso sim, exclusivamente com a palavra, pois caso contrário, trata-se de uma suposta prerrogativa do direito de subjugar-se o ser pelo ter.
Talvez uma idéia a ser amadurecida, um novo modelo necessário à simbologia autêntica e suficientemente abrangente quanto às nossas necessidades de defesas, afinal sentimo-nos, por acaso, aliviados quando protegidos por um guarda portador de uma espada? Evidente que não. Temos necessidade de um pacto com todos. Um pacto de fortalecimento de nossos ideais estruturados em um princípio único: a filosofia do amor e da verdade como paradigmas do comportamento ideal.
Ora, tenhamos um mínimo de sinceridade: a maçonaria não tem como função ou finalidade determinante de sua existência, o que proclamamos de caridade. A beneficência maçônica, por mais justa e perfeita que possa parecer, até pode traduzir nossa sensibilidade social. Entretanto sabemos que não se trata, fundamentalmente de usufruir os ensinamentos de Francisco de Assis, na forma de caridade social, pois o mesmo Francisco, na sua totalidade como homem justo e perfeito, essencialmente completo, tratava das causas das necessidades sociais apenas com a palavra.
Façamos, pois da espada, não uma arma, mesmo que de forma simbólica, mas sim, transformemos em algoritmo próprio ao despertar de uma nova ordem. E sem eufemismos à ritualística, consideremos a espada, não portadora, mas esculturada ou depositada em nicho próprio, como símbolo da inteligência e da conduta, tal qual arquétipo do saber, pois sua utilização de forma correta ou não, demonstra a preocupação através de erros e acertos de nossa exclusiva responsabilidade.
Por essa razão creio que a transformação da espada objeto, em espada palavra, seria a definitiva aglutinação dos conceitos gerais de liberdade, de fraternidade, de igualdade. Seríamos os cavaleiros da verdade, armados não com espada, mas com o verbo. Seríamos os construtores do grande templo, o templo da sabedoria, pois sabemos todos, que o princípio que nos rege, fundamenta-se no testemunho da sabedoria quando nos conscientizamos, de que o nosso objetivo está na prática do amor ao próximo, isto é, ama teu próximo como a ti mesmo.
"No princípio era a Palavra e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus. No princípio ela estava com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dela e sem ela nada se fez do que foi feito. Nela estava a vida, e a vida era a luz dos seres humanos. A luz brilha nas trevas, mas as trevas não a compreenderam." Jo 1,1-5 |