SAMAÚMA

 

 

 

 

 

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I Parte


















6 - Já havia escrito em outro lugar:
Outros tradicionais objetivos radicais - como a "eliminação da pobreza" - são, ao contrario deste [a liberdade], completamente utópicos; pois o homem, apenas com a manifestação de sua vontade, não pode eliminar a pobreza. A pobreza só pode ser eliminada através da ação de determinados fatores econômicos... que, por sua vez, só podem agir através da transformação da natureza por um longo período de tempo... Porém as injustiças são ações infligidas por um grupo de homens sobre outro, elas são precisamente ações humanas, e, conseqüentemente, elas e a eliminação delas estão sujeitas a vontade imediata dos homens... O fato de que estas decisões, logicamente, não ocorrem imediatamente não é relevante; o ponto relevante é que a própria não - execução é uma injustiça que foi decidida e imposta pelos perpetradores da injustiça... No campo da justiça, a vontade do homem é tudo; os homens podem mover montanhas, se assim decidirem. Portanto, uma paixão pela justiça imediata - em suma, uma paixão radical - não é utópica, como seria um desejo pela eliminação imediata da pobreza ou a transformação instantânea de todas as pessoas do mundo em pianistas profissionais. Pois a justiça imediata poderia ser implantada se um número suficiente de pessoas assim desejasse.
Rothbard, Egalitarianism as a Revolt Against Nature, págs. 148-49.



7 - Na conclusão de uma crítica filosófica brilhante contra a acusação de "irrealismo" e sua confusão entre o bom e o provável atualmente, Clarence Philbrook declara, "Somente um tipo de defesa séria de uma política é permitida a um economista ou a qualquer pessoa; ele deve sustentar que a política é boa. O verdadeiro 'realismo' é a mesma coisa que os homens tiveram em mente como sabedoria: decidir o imediato sob a luz do definitivo". Clarence Philbrook, "Realism in Policy Espousal," American Economic Review (dezembro 1953): 859.


8 - Citado em William H. and Jane H. Pease, eds., The Antislavey Argument (Indianapolis, Ind.: Bobbs-Merrill, 1965), pág. xxxv.






A estratégia da liberdade
II Parte

 

 

 

Murray N. Rothbard
Instituto Ludwig von Mises Brasil
Tradução de Fernando Fiori Chiocca





[Este artigo foi extraído do trigésimo capítulo do livro
The Ethics of Liberty
]

 

 

Os objetivos libertários - incluindo a abolição imediata de invasões a liberdade - são "praticáveis" no sentido de que eles poderiam ser alcançados se um número suficiente de pessoas concordasse com eles, e que, se alcançados, o sistema libertário resultante seria viável. O objetivo da liberdade imediata não é impraticável, irrealista ou "Utópico" porque - ao contrário de objetivos como a "eliminação da pobreza"- sua realização é inteiramente dependente da vontade do homem. Se, por exemplo, todo mundo de repente e imediatamente concordasse com a conveniência predominante da liberdade, então a liberdade total seria alcançada imediatamente. [6] A estimativa estratégica de como deve ser trilhado o caminho que leva a liberdade é, logicamente, uma questão completamente separada. [7]


 

 

 

 

Assim, o libertário abolicionista da escravidão, William Lloyd Garrison, não estava sendo "irrealista" quando, na década de 1830, ele levantou a bandeira do objetivo da imediata emancipação dos escravos. Seu objetivo era o objetivo libertário e moral apropriado, e não estava vinculado ao "pragmatismo", ou a probabilidade de sua realização. Na verdade, o pragmatismo estratégico de Garrison foi expressado pelo fato de que ele não esperava que o fim da escravidão acontecesse imediatamente ou em um golpe só. Como Garrison cuidadosamente distinguiu: "Defendendo com o maior rigor possível a abolição imediata, porém, diabos!, no fim das contas teremos uma abolição gradual. Nós nunca dissemos que a escravidão seria derrubada de uma só vez; mas que ela deveria ser, nós sempre afirmaremos".[8] De outra forma, conforme alertado diretamente por Garrison, "Gradualismo na teoria é perpetuidade na prática".

 

 

 

 

 

 

 

 

De fato, o gradualismo na teoria enfraquece totalmente o próprio objetivo prioritário da liberdade; ele não implica, portanto, em apenas uma estratégica, mas sim em uma oposição ao próprio fim e conseqüentemente é inadmissível que ele seja uma parte de uma estratégia voltada para a liberdade. A razão é que uma vez que o abolicionismo imediato é abandonado, então o objetivo cai para o segundo ou terceiro lugar, sendo substituído por outras considerações anti-libertárias, pois estas considerações são colocadas acima da liberdade. Deste modo, suponha que o abolicionista da escravidão tivesse dito: "Eu defendo o fim da escravidão - mas somente daqui a cinco anos". Isto implicaria que a abolição dentro de quatro ou três anos, ou a fortiori imediata, seria errada, e que, portanto é melhor que a escravidão continue por mais tempo. Porém isto significaria que considerações de justiça foram abandonadas, e que o próprio objetivo deixou de ser o mais elevado na escala de valor política do abolicionista (ou do libertário). Na realidade, isto significaria que o libertário defendeu a continuação do crime e da injustiça.

 


Portanto, uma estratégia para a liberdade não pode conter nenhum meio que enfraqueça ou contradiga o próprio fim-algo que o gradualismo na teoria claramente faz. Estamos dizendo então que "os fins justificam os meios"? Esta é uma acusação comum, porém totalmente falaciosa, direcionada frequentemente a qualquer grupo que defenda mudanças sociais fundamentais ou radicais. Pois o que mais se não um fim poderia possivelmente justificar quaisquer meios? O próprio conceito de "meios" implica que esta ação é meramente um instrumento para se alcançar um fim. Se alguém esta com fome, e come um sanduíche para aliviar sua fome, o ato de comer um sanduíche é meramente um meio para um fim; sua única justificativa provém de seu uso em relação a um fim pelo consumidor. Por qual outra razão se poderia comer o sanduíche ou, prolongando a argumentação, comprar o sanduíche ou seus ingredientes? Longe de ser uma doutrina sinistra, que os fins justificam os meios é uma simples verdade filosófica, implícita na própria relação entre "meios" e "fins".


Então o que os críticos de o "fim justifica os meios" querem realmente dizer quando dizem que "meios ruins" só podem levar a "fins ruins"? O que eles estão realmente dizendo é que os meios em questão irão violar outros fins que os críticos julgam ser mais importantes ou mais valiosos do que o objetivo do grupo que está sendo criticado. Assim, suponha que os comunistas defendam que o assassinato é justificável se ele levar a uma ditadura do partido de vanguarda do proletariado. Os críticos deste assassinato (ou desta defesa de assassinato) estão realmente declarando, não que os "fins não justificam os meios", mas que o assassinato viola um fim mais valioso (para dizer o mínimo), ou seja, o fim de "não cometer assassinato", ou da ausência de agressão contra pessoas. E, logicamente, do ponto de vista libertário, os críticos estariam corretos.


Por esta razão, o objetivo libertário, a vitória da liberdade, justifica os meios mais rápidos possíveis para se alcançar o objetivo, mas estes meios não podem contradizer, e com isso enfraquecer, o próprio objetivo. Já vimos que o gradualismo na teoria é um meio altamente contraditório. Outro meio contraditório seria cometer agressão (e.g., assassinato ou roubo) contra pessoas ou propriedades justas a fim de alcançar o objetivo libertário da não-agressão. Empregar este meio seria igualmente um meio auto-destrutivo e inadmissível. Pois o uso de tal agressão iria violar diretamente o próprio objetivo de não-agressão.


Se então o libertário deve pedir a abolição imediata do Estado enquanto um instrumento organizado de agressão, e se o gradualismo na teoria é contraditório ao fim prioritário (e, portanto inadmissível), que outra postura estratégica um libertário deveria adotar em um mundo em que os Estados seguem mantendo uma sólida presença? O libertário deve necessariamente se confinar a defensa da abolição imediata? Reivindicações transitórias, passos em direção a liberdade na prática, são, portanto ilegítimos? Certamente que não, já que de modo realista não haveria então nenhuma esperança de se alcançar o objetivo final. Portanto, cabe ao libertário, ansioso para atingir seu objetivo o mais rápido possível, pressionar o regime sempre mais em direção a este objetivo. Claramente, este caminho é difícil, pois o perigo de se desviar do rumo do objetivo supremo da liberdade, ou mesmo enfraquecê-lo, sempre existe. Mas trilhar este caminho, dado o estado do mundo no passado, presente e futuro próximo, é vital se algum dia quisermos que a vitória da liberdade seja alcançada.


As reivindicações transitórias, então, devem ser estruturadas de modo que elas:

1. sempre exponham o objetivo supremo da liberdade como o fim desejado do processo transitório; e
2. nunca dêem passos, ou usem meios, que explicita ou implicitamente contradigam o objetivo.


Consideremos, por exemplo, uma reivindicação transitória apresentada por vários libertários: a de que a receita do governo seja reduzida em 10% a cada ano por dez anos, os quais depois de completados o governo terá desaparecido. Esta proposta pode ter valor heurístico ou estratégico, contanto que os proponentes sempre deixem totalmente claro que estas são reivindicações mínimas, e que de fato não haveria nada de errado-na verdade, seria muito melhor-intensificar os cortes da receita para 25% por ano, ou, melhor ainda, cortar em 100% imediatamente. O perigo surge ao implicar, direta ou indiretamente, que qualquer intensificação maior do que os 10% seria errada ou indesejável.