A Alberto Nunes Filho, Oscar Peixoto de Barros, Silvino Porto Coelho, Otávio Ferreira e Dorival Alves.
Fonte: Poemas Escolhidos
Catulo da Paixão Cearense
Livraria Para Todos
Rio de Janeiro
Este marruêro moço vai contar o seu caso a outro marruêro velho, centenário. celibatário e tocador de viola, como êle.
Esta a razão por que o autor substituiu o vocativo Sá Dona - por Marrueiro.
Marruêro, eu sou marruêro!
Nacendo, cumo tingui,
fui ruim, cumo piranha,
mais pió que sucuri.
Pixúna daquelas bandas,
veve a gente a campiá!
Deus fêz o hõme, marruêro,
pra vivê sempe a lutá.
Meu pai foi bixo timíve
e eu fui timive tombêm!
- O pinto já sai do ovo ,
cum a pinta que o galo tem.
Se meu pai foi marruêro,
havera de eu tá na tóca,
a rapá no caitetú
a massa da mandioca?!
Bebedô de manduréba,
pissuindo carne e carôço,
eu nunca vi cabra macho
que me fizesse sobrôço!
Nunca drumi uma noite
imbaxo de tejupá! ...
Naci prá vivê nas gróta,
prá vivê nos môcosá...
prá drumi longe dos rancho
pro riba duns gravatá...
vendo a lua pulas fôia
dum fermoso iriribá
***
Nos gaio da umarizêra,
o cantá do sanhassú;
na bôca triste da noite,
o gimido da inhabú
e as tuada da cabôca,
lavando n'água. do rio,
e os canto, pru via dela,
nos samba nos disafio.
nada disso, não, marruêro
me dava sastifação,
cumo o mugido bravio
dos valente barbatão.
Nada fazia marruêro
o coração me Pulá,
cumo uví pulas varjóta
os berro dos marruá!
Na paz de Deus eu vivia
nos brêdo dos matagá,
tocando a minha viola
só prá meu gado iscutá.
Lá, prás banda onde eu naci,
já se falava do amô:
todas as bôca dizia
que era farso e matadô!
Mas porêm, foi trazantonte,
na festa do Zé Benito
que apanhei uma chifrada
que me deu êsse mardito!
Nas marvadage do Amô
não hai cabra que não caia,
quando o diabo tira a roupa,
tira o chifre e tira o rabo,
prá se visti cuma saia!
Se adisfoiando no samba,
cantando uma alouvação,
eu vi a frô dos cabórje
das morena do sertão!
Trazia dentro dos óio
istrépe e mé, cumo a abêia!
Oiou-me cumo uma onça! ...
E, ao despois, cumo uma ovêia!
Aquêles óio xingôso,
eu cunfesso a vasmincê,
ruia a gente prú dento
que nem dois caxinguelê!
Sem mardade, um bêjo dado
naquela boca orvaiada,
havéra de tê, marruêro,
o chêro das madrugada!
A fala dela, marruêro,
era o gemê do regato,
que vai bêjando as fôiáge,
que cai da bõca dos mato!
As duas rôla morena,
pru baxo do cabeção,
trimia cuma a água fresca,
quando o vento bêja as água
das lagôa do sertão!...
Pruquê os dois peito alembrava
dois maduro cajá manga
e a bôca, toda vremeia,
paricia uma pitanga.
Chêrava as mão da cabôca,
cumo os verde maturí! ...
Era taliquá, marruêro,
dois ninho de jurutí!
Os pezinho da curumba,
quando dansava o baião,
paricia dois pombinho,
a mariscá pulo chão!
Eu me alembro! ...
A sáia dela, cô das pena da irêrê,
tinha a sôdade dos mato,
quando vai anoitecê!!!
Aqueles braço de fogo,
(Deus não me castigue, não!!!)
Queimava, cumo as fuguêra
das noite de São João! . .
Marruêro! ... Os cabelo dela
tinha o calô naturá,
da pomba virge dos mato,
Quando cumeça a aninhá! ...
Apois, os cabelo dela
tão preto Prô chão caía,
que tôda a frô que butava
nos cabelo, a frô murchava,
pensando que anoiticia!!!
O suó que ela suava no samba,
chêrava tanto que inté
a gente sintia um chêro de ingreja nova,
um chêro de dia santo!
As anca, as cadêra dela,
surrupiando no côco
tôda a se tamborilá,
a móde que paricia
o xaquaiá de uma onda
que vem jupiando, redonda,
na praia se derramá!
Japiaçóca dos bréjo
no arrastado do rojão
cantava com tanta mágua
Cum tanto amô e paxão
que ispaiava, no terrêro,
O orôma do coração!!!
O coração das viola
aparava, de mansinho
se os dois fióte de rôla
quando ela táva sambando
Pulava fora do ninho!..
Entonce, aqueles dois óio,
sereno, cumo o luá
vinha prá.riba da gente,
taliquá dois marruá.
Intrava dento da gente,
cumo duas zelação! ...
Mas porêm, a gente via,
no fundo daqueles óio,
a hora da Ave-Maria,
gemendo nas corda fria
das viola do sertão!!!
***
Pro móde daqueles óio,
dois marvado mucuím,
um violêro afulemado,
partiu prá riba de mim!
Temperei minha viola,
intrei logo a puntiá,
e ambos os dois se peguêmo,
num disafio, ao luá!
Premiti a Santo Antônio,
se eu vencêsse o cantadô,
de infeitá o seu fiinho,
cum um ramaiête de frô!!!
Só despois que nestas corda
fiz pinto cessá xerêm,
vi que o bichão se chamava:
- Manué Joaquim do Muquém!
Manuè Joaquim
era um cabra naturá de Piancó!...
Quando gimia no pinho,
chorava, cumo um jaó!
Eu, marruêro, arrespundia
nestas corda de quandú,
e os acalanto se abria,
cumo as frõ do imbiruçú!
Foi despois do disafio,
quando eu saí vencedô,
que os canto e os gemê dos pinho
num turumbamba acabou!!
Inquanto nós dois cantava
sem ninguém tê dado fé,
tinha fugido a cabôca
cum o Pedro Cachítoré!!!
Tinha fugido a curumba
cum aquele bóde ronhêro,
um tocadô de pandêro
e runfadô de zabumba!
Tinha fugido, marruêro,
aquela frô dos meus ai,
cumo uma istrêla que foge,
sem se sabê prá onde vai!!!
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Na luz do Só, que acordava,
lá, no coró do Nacente,
a móde que Deus, contente
cum a natureza sonhava!
O canto alegre dos galo
nos capoerão amiudava! ...
Nos taquará das lagôa
as saracura cantava!. . .
Alegre, passava um bando
das verde maracanã!...
Férmosa, cumo a cabôca,
vinha rompendo a minhã!
O vento manso da serra
vinha acordando os caminho.
Vinha das mata chêrosa
um chêro de passarinho! ...
Lá, no fundão duma gróta,
adonde os córgo gimia,
gargaiava as siriêma
cum o fresco nacê do dia!
Uma araponga, atrépada
num braço de mato, im frô,
gritava, cumo si fõsse,
Os grito da minha dô!!!
E a sabiá, lá nos gaio
da tabibúia serena,
trinava, cumo si fôsse
uma viola de pena!
Um passarinho inxirido,
mardosamente iscundido
nas fôia de um tamburí,
sastifeito, mangofando,
de mim se ria, gritando
lá de longe: "bem te vi"!
* * *
Chegando na incruziada,
despois do dia romper,
sipurtei o meu segredo
mum véio tronco de ipê!
Dênde essa hora,
inté hoje, eu conto as hora, a Pená! ...
Eu vórto a se marruêro! ...
vou vivê cum os marruá!
Eu tinha o corpo fechado
prá tudo o que é marvadez!
Só de surúcúcútinga,
eu fui murdido treis vez!...
Tândo cum o corpo fechado,
prás feitiçage do Amô,
pensei que eu tava curado!
Dos marruá mais bravio,
que nos grotão derribei,
munta chifrada penosa,
munta marrada eu levei!!
Prá riba de mim,
Deus pôde mandá o que Êle quisé!
O mundo é grande, marruêro!...
Grande é o amô!... Grande é a fé!
Grande é o pudê de Maria,
ispôsa de São José!...
O Diabo, o Anjo mardito,
foi grande!... Cumo inda é!!
Mas porêm, nada é mais grande,
mais grande que Deus inté,
que uma chifrada, marruêro,
dos óio duma mulé!!! |