|
tsmaia
Da viagem, sob intensa expectativa, já fora
desperdiçado cerca de vinte por cento do tempo, em face da
cautela que as más condições climáticas
requeria. Estávamos alcançando a metade do trajeto.
Abatera-se sobre a gente, garoa intensa e ininterrupta, fazendo
dueto afinado com o transito pesado da estrada. Tudo concorreu para
que optássemos por um desvio que reduziria quase duas centenas
de quilômetros do trajeto anterior. Assim seguimos pelas margens
de um rio majestoso, até o ponto das balsas que seriam utilizadas
para a nossa travessia, no mesmo local onde aproveitaríamos
para abastecer, lanchar saborosos peixes fritos, com farofa e para
a restaurar o ânimo, com que deveríamos seguir a viagem.
Aquela noite nos alcançou, no trecho da estrada mais precário,
pela falta de manutenção, de sinalização
e de largas faixas sem asfalto.
Nossa ansiedade se manifestava, ainda mais porque
utilizávamos um carro novo, com o qual não estávamos
acostumados e que, por causa dele, protelamos a realização
da viagem, por três dias, a fim de regularizar a transferência
para nosso nome e os documentos, afins.
Havia também uma questão afetiva.
Graças a ela visitaríamos um amigo de juventude que
estimávamos muito, do qual estávamos afastados há
mais de dez anos.
Como agravante e, para aumentar bastante o nosso
desapontamento, o novo automóvel oferecia péssimas
condições de iluminação. Por esse motivo,
já estávamos programando um contato imediato, com
os representantes dessa marca de carro.
Passei a compreender porque os vendedores daquela
autorizada foram insistentes em vender uma série de assessórios
que tornariam o carro mais seguro e mais confortável. Entre
os apetrechos não poderiam faltar os faróis de neblina
e os de milha.
Essas munições davam vazão
a injusta e absurda exploração descarada do indefeso
consumidor desta pátria.
É sabido que os nossos industriais fabricam
qualquer bem a custos escorchantes, de qualidade incerta e ainda
por cima colocam em risco a integridade do bem e a segurança
dos que o usam aparelhando-o com um conjunto de instrumentos inadequados
e ineficazes. Com isso forçam a vendas de opcionais a preços
também elevados.
Quanto a isso, não haveria porque perder
tempo. Colocaria a boca no trombone, sempre que tivesse oportunidade
e o faria a partir da cidade a que me destinava, junto aos integrantes
da rede nacional dos distribuidores daquela marca. Entraria em contato
com os órgãos de proteção ao consumidor
e também com departamentos correspondentes do Banco Central.
Acionaria Associações de classe e movimentaria advogado,
em ação na justiça.
Assim, não ficaria, sem mais nem menos. O
pau cantaria, certamente, pela mijada fora do pinico. Os gringos
iriam saber com quantos deles se faz uma canoa.
Com tantas suposições carregadas na
cabeça atingi o posto de gasolina. Enquanto abasteciam o
tanque do carro, aproveitei para ensaiar o primeiro comício
do meu desapontamento incontido.
Formou-se, imediatamente, uma platéia em
volta, ávida pela novidade. Nunca vi público tão
prestimoso ao meu redor. Via, em cada cabeça o gesto de aprovavação
ao meu discurso de indignação. Japonezadas de consentimento
pareciam anuir acompanhadas sonoros "sim sinhoro, garantido
pelo imperadô, non?..."
Fomos interrompidos, pelo solícito gerente
do posto de gasolina que desejava nos devolver as chaves do carro,
entregar-nos a nota com os valores a cobrar e fazer a prestação
dos serviços concluídos.
Com se não tivesse muito tempo porque deveria
atender outros clientes foi exclamando para que todos notassem:
ele havia providenciado a fim de que melhorasse a visão da
estrada que oferecia perigo, para que fossem lavados os faróis
do meu automóvel que estavam cobertos de lama e propôs
que fizesse o mesmo com as lentes dos meus óculos que também
estavam imundas.
|