Ricardo
Bergamini
A burocracia é a organização encarregada
de fazer funcionar o mecanismo da administração
do Estado. Ao tempo em que o Estado tinha caráter primitivo
ou elementar, o aparelho burocrático funcionava sem maiores
delongas ou complicações. Mas à medida que
a máquina do Estado foi crescendo, a burocracia foi deixando
de ter uma função simplesmente adjetiva para tomar
corpo e constituir, ela própria, um órgão
semi-autônomo, capaz de delongar, distorcer, quando não
modificar e até revogar as ordens vindas de cima.
A burocracia passou assim a adquirir um momento de inércia
(na linguagem da mecânica racional), que a tornou mais complexa,
e menos ágil. E a burocracia só faz crescer em proporção
maior que o Estado a que serve, multiplicando-se e transformando-se
em órgão de gerência.
Esta capacidade de hipertrofia da burocracia tem sido denominada
"Lei de Parkinson", pelo nome do autor que tão
bem descreveu sua natureza, seu mecanismo e seu poder de multiplicação.
Pode surgir aí para os expoentes da burocracia a questão
de saber se seu dever consiste em servir o Governo em quaisquer
circunstâncias a qualquer regime, o que, para o servidor,
é a solução mais conveniente, mais cômoda,
e mais proveitosa, ou se ele é, antes de tudo e perante
sua consciência, o servidor da Nação, membro
de uma organização que ao colaborar com um regime,
que ela reputa funesto, está ajudando tal regime a se enraizar.
É um sério problema de consciência para um
homem honrado e patriota, que se encontra em posição
importante e que só tem por guia a paixão de seu
dever, qual o de saber até que ponto ele deve servir um
Governo objeto de repulsa da Nação.
Se for verdade que abandonando o posto, ele deixa o campo livre
aos destruidores, em vez de procurar limitar o mal, também
é verdade que se submetendo a suas ordens, mais do que
desejaria, ele acabará por se degradar sem nada ter impedido.
E infelizmente essa última hipótese – a de
dobrar a serviz – aqui como alhures – a mais geralmente
seguida. Há que pensar na carreira, há que pensar
na família, nos honorários, nos proventos, etc,
etc. Para os que assim se curvam, o sentido da palavra servir,
fica muito próximo do de servil!
Mas também há – hélas – aqueles
imbuídos de patriotismo, dispostos a assumir na vida civil
os riscos que os soldados assumem nas pelejas da guerra.
Muito depende da atitude que assumem as principais instituições
do país: Forças Armadas, administração,
magistratura, universidades, instituições onde existe
um "esprit de corps", capaz de resistir às infiltrações.
Para um homem de honra, sejam quais forem os deveres que tem para
com o seu país, ele os tem ainda maiores para com sua dignidade
humana e sua honradez. Ele não pode aceitar obrigações
em que sua alma se avilte. E conquanto assim procedendo possa
parecer que ele está pensando em si, ele está na
realidade cumprindo um dever primordial para com a comunidade
de que faz parte. Pois que se é verdade que uma nação
precisa de funcionários diligentes, ela precisa mais ainda
de homens que mantenham, acima de tudo, a nobreza que alimentará
a honra e o porvir dessa nação.
Aqueles que a servem, servindo o Estado, não lhe são
mais preciosos do que os que a defendem fora dela. Já que
uma grande Nação se escuda, antes de tudo, no caráter
de seus filhos.
O Brasil teve, sob esse aspecto, um exemplo que o enalteceu em
sua história - o desse Grande Soldado-Civil que foi o General
Castello Branco. Quando, como chefe do Estado-Maior, ele se sentia
no dever de alertar os corpos de tropa para as nuvens de tempestades
que se vinham formando no horizonte brasileiro, não havia
em qualquer de suas manifestações a mais leve insinuação
de formação de um governo militar e muito menos
de sua candidatura.
Seu pensamento se fixava na salvação da Pátria
em caso de conflito. Levado ao poder por propostas de três
influentes governadores civis, nada solicitou. Aceitou a missão
para a qual o haviam convocado.
Sofreu, como se sabe, as cruéis agruras oriundas das ambições
dos que rondavam sua sucessão e procuravam assegurar-se
dessa conquista.
Sofreu da impopularidade oriunda – forçosamente –
de um governo que é obrigado a reduzir empreendimentos
e cortar despesas.
Mas onde mostrou seu grande valor de brasileiro e sua alma de
escol foi quando recusou, peremptoriamente, a extensão
de seu mandato (mesmo quando poderosos argumentos militassem por
essa solução), recorrendo à célebre
máxima que "de insubstituíveis estão
cheios os cemitérios" Mas na realidade com o pensamento
na gloriosa tradição do Brasil, sobretudo de suas
Forças Armadas, de que elas velam pela paz e a prosperidade
do País, mas não ambicionam o poder político.
Essa tradição – que destacava o Brasil dos
demais países da América Latina – Castello
Branco queria mantê-la, a qualquer preço, para a
honra de sua Pátria.