Ricardo
Bergamini
Está página foi aberta para depoimentos de todos
os participantes, diretos ou indiretos, no movimento cívico-militar
de 31 de março de 1964, com o objetivo do resgate da verdade
histórica. Participem!!!!!!!!.
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A
discussão sobre a história é apaixonante
e nos trás muitas recordações. Algumas boas,
outras nem tanto e também até cenas cômicas
ou prosaicas.
A Revolução, no meu entender foi um movimento que
cresceu de diversas maneiras. Houve alguma elucubração
nos altos escalões. É inegável. Inegável
também são as qualidades de estadista do Marechal
Castello Branco.
Houve participação ativa e trabalho de arregimentação
feito por capitães e tenentes, que arriscavam serem transferidos
para guarnições longínquas se fossem descobertos
em seu trabalho "subversivo". Sei muito bem disso, pois
fui contatado por um tenente companheiro de turma, vindo de São
Paulo, que inicialmente me sondou e notei sua atuação
e coloquei-o à vontade e então abriu o jogo e passamos
a trabalhar juntos.
Havia um grande apoio do empresariado paulista, pois sabiam muito
bem, que a socialização iminente acabaria com suas
empresas ou as tornaria estatais dirigidas por camaradas do partido,
ao estilo URSS. Havia participação de grande massa
de graduados, descontentes com a decadência da hierarquia
e com o aviltamento de seus vencimentos. Se um tenente ganhava
menos que os proeiros das barcas Rio - Niterói, aqueles
que amarram a barca quando ela chega ao cais, um sargento ganhava
menos que um trocador de bonde.
Dentro desse quadro degradante e humilhante assistimos ao comício
da Central do Brasil, há exatamente 37 anos, dia 13Mar64.
Foram designados oficiais e sargentos para representarem suas
OM no ato público. Os chefes não titubearam em cumprir
essa determinação do governo. De minha Unidade em
Niterói, a 1a/1o GACOs, Forte do Imbui, foram dois tenentes
e quatro sargentos.
Assim que se já havia descontentamento, ele cresceu mais
ainda depois daquele promíscuo comício em que o
Presidente da República e sua esposa se ombrearam com as
forças mais à esquerda e anti-brasileiras que haviam
naquele tempo.
Havia revolta e repúdio à omissão dos chefes
que a tudo consentiam e se submetiam ao famoso tripé militar
de Jango. O ministro da Guerra, o Chefe da Casa Militar, Gen Assis
Brasil e o Cmt do I Exército.
Houve interferência americana? Que eu saiba, se houve foi
tão discreta que não deu para notar. Acho que houve
na cabeça da imprensa esquerdista. O que houve mesmo foi
uma explosão espontânea, que uniu os militares e
os civis numa cruzada de salvação dos princípios
da civilização ocidental e da democracia, que estavam
seriamente ameaçados.
Dois dias antes da Revolução eclodir chegou às
Unidades uma mensagem do Chefe do EME, Gen Castello Branco pedindo
que os militares se mantivessem tranqüilos e dentro da lei,
em obediência à Constituição e aos
poderes legalmente constituídos, pois os Chefes tinham
a situação sobre controle e a legalidade seria preservada.
Puro engodo.
Estávamos revoltados e dispostos a tudo para depor a canalha
corrupto-vermelha, que como agora, se apoderara do controle da
nação e lamentamos aquela mensagem.
Aí veio a noite de 30 de março com o derradeiro
ato de Jango no ultrajante comício do Automóvel
Clube.
Entrementes já havia aquele problema da Marinha com a participação
do de triste memória, senhor Aragão, me recuso a
designar-lhe uma patente.
Após esse comício, que o Rio assistiu pela TV, antes
de me deitar disse para minha mulher que levaria uma mochila com
roupas para o quartel, pois sabia que de lá não
voltaria tão cedo.
No dia seguinte o expediente foi dos mais estranhos possíveis.
Ninguém deu instrução ou cuidou da administração.
Só o rancho funcionou normalmente. Oficiais e sargentos
conversavam e aguardavam o óbvio. Aquilo que estava para
acontecer.
Já passava das 16 horas e nada havia de novo. Aí
chegou o estafeta e disse que o ministério estava cercado
por carros de combate e o trânsito interrompido na Av. Pres
Vargas naquele trecho. O Cmt mandou sustar o toque de Ordem. Ninguém
sai, pois desencadear o Plano de Chamada era complicadíssimo,
porque a maioria dos oficiais e sargentos morava no Rio e ninguém
tinha esse objeto raro que era uma linha telefônica.
Creio que lá pelas 17:30 entra um tenente agitadíssimo
no cassino dos oficiais onde estávamos aguardando, dizendo
que havia dado no rádio que Magalhães Pinto, Gen
Guedes e Gen Mourão haviam declarado Minas desligada da
União e estavam estabelecendo um governo autônomo.
Ficamos perplexos. Não era aquilo que esperávamos,
mas não sabíamos que atitude tomar. O Cmt permanecia
em seu gabinete e nós, sob a liderança do Cap Vitor
Augusto da Silva (1951) resolvemos aderir à atitude mineira,
pois percebêramos que aquilo era uma maneira de mobilizar
toda nação. Mas o que poderíamos fazer? Uma
bateria de Artilharia de Costa não é o tipo de tropa
apta para fazer uma Revolução!
Pela rede rádio UHF da ACOs/1 soubemos que o Forte de Copacabana
do Cel Arídio Brasil, o Dunga, havia dado o famoso basta
e aderido publicamente à revolta de Minas Gerais. Foi a
primeira Unidade carioca que se posicionou oficialmente como revoltada.
O Cmt da Artilharia de Costa, cujo quartel era ao lado do Forte
abandonou com seu Estado-Maior seu quartel e foi para o Ministério.
Foi nesse QG abandonado que o então Cel Montanha, instrutor
da ECEME e um grupo de oficiais alunos deu um golpe de mão
e ocupou-o. Ficou para muitos a errônea impressão
que haviam tomado o Forte. mas esse há horas já
aderira.
Lá pelas seis da tarde o Cmt faz uma reunião e diz
que recebera ordem para impedir que qualquer belonave saísse
da barra. A missão era atirar em quem tentasse sair. Constava
na ordem que ele recebeu que parte da Marinha Brasileira havia
aderido ao movimento.
Como Cmt da Câmara de tiro aleguei a impossibilidade de
atirar, pois havia um problema no dispositivo de iluminação
noturna no telêmetro e não poderia estabelecer a
rota correta do alvo.
Perguntou-me se dava para executar o Tiro de Emergência,
mas o Cmt da Linha de Fogo se antecipou e disse que a munição
estava no paiol e teria que esperar que fossem busca-la e o Oficial
de Transportes alegou que a viatura da munição estava
indisponível. Diante de tantos óbices, decidiu aderir
à Revolução, pois não era bobo, nem
burro e percebeu de que lado estávamos. se deu bem. Depois
de tudo serenado deram-lhe uma bela função, o que
não era o objetivo da canalha sublevada, que só
queria botar os comunas na cadeia e bem depressa.
À noite houve a adesão da AMAN comandada pelo Gen
Médice que acolheu a tropa do II Exército comandada
pelo Gen Kruel. Foi grande a nossa vibração e passamos
a noite em claro acompanhando o desenrolar das adesões
à Revolução.
No dia seguinte houve a heróica defesa do Palácio
Guanabara feita por Carlos Lacerda e o Cap. Pitaluga e o fracasso
do Cel Virmond do 8o GACOs M do Leblon que pretendeu atacar com
sua tropa o Forte de Copacabana e foi barrado por uma formidável
trincheira de carros particulares que cercaram os acessos ao forte
e aderiram à Revolução. Estas emocionantes
cenas foram transmitidas ao vivo pela TV Rio que também
aderira ao movimento tendo entre seus diretores o meu jovem amigo
de mocidade e de muitas festas na Zona Sul, Valter Clarck Bueno,
que depois como diretor global e devidamente patrulhado reviu
sua postura de março de 64.
Houve muita coisa no rescaldo do "incêndio", mas
acabaria transformando esse texto em um livro. Só para
concluir vou aduzir o seguinte: contam que um grupo de oficiais
entrou no gabinete de Miguel Arraes que estava reunido com o Gen
Justino e o mais antigo deu-lhe voz de prisão. Aí
Justino perguntou, "e eu?", ao que foi-lhe dito, o senhor
é nosso Cmt e ele partiu para a glória. Como dizia
o italiano da novela, "no se e vero, mas e bene trovato"
(alô Chiareli, corrija o meu portuliano).
E o Marechal Castello Branco? Bem, um amigo meu que já
desembarcou, disse-me sobre isto certa vez o seguinte: "os
revolucionários, tão logo a Revolução
se consolida são descartados, pois são perigosos.
O poder deve permanecer com os frios e racionais, os apaixonados
são homens perigosos e instáveis".
Saudações Revolucionárias,
13 de março de 2001