Ricardo
Bergamini
A primeira constatação a respeito dos indicadores
sobre Sindicalismo, Trabalho e Emprego no Brasil – agora
disponíveis no CD-ROM das Estatísticas do Século
XX – é que ainda há muitos cruzamentos de
dados e estudos específicos por fazer, que possibilitariam
observações históricas interessantes sobre
o acesso dos trabalhadores à proteção da
CLT e sobre a evolução do aparato sindical, por
exemplo.
As estatísticas sobre Sindicalismo, Trabalho e Emprego
começaram a aparecer nos anuários do IBGE a partir
de 1936, após as reformas legislativas ocorridas com a
Revolução de 1930. Elas continham, inicialmente,
dados sobre a emissão de Carteiras de Trabalho, sindicatos
reconhecidos pelo governo, negociações e convenções
trabalhistas registradas, além de colônias agrícolas
subordinadas ao Governo Federal.
Sindicatos
Um dos aspectos mais interessantes das estatísticas sobre
o sindicalismo emerge da comparação entre os dados
da PNAD e os das pesquisas sindicais efetuadas ao longo do século
passado. Este também é um estudo que está
por ser feito. Curiosamente, as estatísticas compiladas
no AEB ao longo do século passado – e disponíveis
no CD-ROM – quase não são abordadas na literatura
acadêmica.
Criada em 1939, a estrutura sindical brasileira só seria
modificada significativamente com a Constituição
de 1988. Em 1955, o AEB passou a divulgar dados do Inquérito
Sindical, pesquisa realizada pelo Conselho Nacional de Estatísticas
a partir de 1953 e que seria publicada sistematicamente até
1974.
As estatísticas demonstram, por exemplo, que durante os
regimes autoritários, os sindicatos podem ter subestimado
seu número de associados, ganhando, com isso, certa margem
de manobra em sua contabilidade, sempre fiscalizada pelo governo
federal. De fato, enquanto a PNAD de 1973 estimava em quase 37
milhões a população ocupada do País,
o inquérito sindical reportava a existência de 3,2
milhões de trabalhadores sindicalizados, o que implica
numa taxa de sindicalização de 9% – considerada
baixa demais. Já no período democrático posterior
a 1988, pode ter ocorrido o inverso: na época, os sindicatos
recenseados pelo IBGE informaram uma taxa de sindicalização
superior a 35%, enquanto a PNAD, no mesmo período, detectou
que, no máximo, 25% dos trabalhadores estavam filiados
a sindicatos e associações de classe.
Emprego
Embora estatísticas sobre o mercado de trabalho –
população ocupada dividida em profissões
– já existissem no AEB de 1936, dados sobre o desemprego
e salários não apareceriam antes da década
de 1960. Na Europa, desde fins do século XIX o desemprego
era encarado como um fenômeno econômico, social e
coletivo – independente das qualidades ou defeitos do indivíduo.
Os desempregados já eram definidos em oposição
aos ocupados e, juntas, essas duas categorias formavam a chamada
População Economicamente Ativa - PEA.
No Brasil, a despeito de as ciências sociais terem incorporado
tais conceitos desde 1950, os anuários estatísticos
só sistematizariam as informações sobre emprego
em 1966 – em decorrência da Lei 4923, de 1965. Com
isso, a partir do segundo trimestre de 1967, a primeira PNAD realizada
pelo IBGE iria buscar diretamente nos domicílios os dados
antes fornecidos pelo Ministério do Trabalho.
A PNAD, neste período, era parecida com a antiga PME –
detectando, inclusive, uma taxa de desocupação de
4,2% no trimestre janeiro-março de 1968, entre a população
de 14 anos ou mais, nas quatro regiões pesquisadas –
e foi realizada trimestralmente até 1970. No Censo deste
ano, aliás, a PEA passou a abranger a população
de dez anos ou mais, ocupada ou procurando trabalho. Dados dos
censos anteriores, inclusive, foram reclassificados para permitir
comparações.
A partir de 1977, a PEA ganharia capítulo específico
nos anuários estatísticos, e seria apresentada com
49 grupos ocupacionais e oito categorias, além de dividida
por sexo. No anuário de 1979 viriam as classificações
por sexo e idade e a proporção de trabalhadores
com carteira de trabalho assinada. Esta última teria sido
uma inclusão algo tardia, uma vez que a discussão
acadêmica sobre a informalidade no mercado de trabalho tivera
seu auge em 1970, e que a OIT já patrocinasse pesquisas
sobre o trabalho informal nos países do terceiro mundo.
No anuário de 1985 seriam incluídos os resultados
da PME que, desde 1980, investigava mensalmente o desemprego nas
seis maiores regiões metropolitanas do País.
Informalidade
As estatísticas sobre emprego no Brasil sofreram um processo
de sofisticação crescente a partir da segunda metade
do século passado. A elas vieram juntar-se as pesquisas
sobre a indústria – anuais, como o censo industrial
e a Pesquisa Industrial Anual (PIA), ou mensais, como a Pesquisa
Industrial Mensal (PIM), iniciada em 1976.
Através das pesquisas industriais do século passado
foi possível, por exemplo, detectar uma mudança
crucial no comportamento das empresas brasileiras. Até
a década de 80, os postos de trabalho destruídos
pelas crises eram recriados nos períodos de crescimento
econômico. A partir dos anos 90, grande parte dos postos
de trabalho eliminada só ressurgiria na informalidade,
isto é, ocupados por trabalhadores sem carteira assinada.
Com dados sobre trabalhadores por conta própria desde 1940
– quando eram 35% da PEA –, e sobre trabalhadores
com carteira desde a PNAD de 1976, os anuários estatísticos
– reproduzidos no CD-ROM das Estatísticas do Século
XX – constitui-se numa valiosa fonte para o estudo da informalidade
e a produtividade do trabalhador brasileiro. No entanto, esta
infinidade de Estatísticas do século XX informações
ainda não foi integralmente digerida pela comunidade acadêmica,
que quase não as utilizou em suas análises.
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