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Ricardo Bergamini
O
Atlas de Saneamento que o IBGE lança hoje revela, em mapas,
a difusão espacial das redes de saneamento do território
brasileiro e, pela primeira vez, interpreta os dados a partir das
bacias hidrográficas, unidades territoriais estratégicas
de gestão ambiental, conforme determina a Lei Federal dos
Recursos Hídricos (Lei 9.433 de 1997). Além de apresentar
em mapas os resultados da Pesquisa Nacional de Saneamento Básico
2000 (PNSB), que indica, por exemplo, a presença de redes
de água, esgoto, serviços de coleta de lixo e limpeza
urbana na maioria dos municípios brasileiros, o atlas analisa
sua distribuição pelas bacias hidrográficas,
mostrando que o esgoto sanitário é uma das principais
fontes de poluição dos mananciais.
Considerada um bem de domínio público, cuja gestão
deve ser descentralizada e participativa, a água é
o tema central do Atlas de Saneamento que o IBGE lança hoje,
Dia Mundial da Água, com a presença do presidente
da instituição, Eduardo Pereira Nunes, e do diretor
de Geociências, Guido Gelli. A publicação inova
ao abordar temas ligados ao saneamento a partir da visão
do território brasileiro em grandes bacias hidrográficas,
unidades territoriais de caráter estratégico no planejamento
do uso dos recursos naturais no país. O Atlas de Saneamento
apresenta os mapas organizados em seis temas: distribuição
espacial e nível de abrangência das redes de saneamento;
qualidade e eficiência das redes de saneamento; saneamento
e meio ambiente; gestão dos serviços de saneamento;
saneamento básico segundo bacia hidrográfica; e acesso
às redes de água e esgoto no espaço intraurbano
(Rio de Janeiro, Brasília, Salvador, Belém e Porto
Alegre).
Quando se observam as redes de saneamento em mapas, evidenciam-se
as desigualdades em sua difusão espacial. Enquanto a rede
de água e os serviços de coleta de lixo e limpeza
urbana se encontram na maioria dos municípios brasileiros,
a rede de esgotamento sanitário está espacialmente
concentrada na região Sudeste e nas áreas mais urbanizadas
das demais regiões do país. Sabe-se que o abastecimento
de água constitui questão fundamental e demanda solução,
em razão dos riscos que a ausência ou o fornecimento
inadequado de água representam para a saúde pública,
mas o esgotamento sanitário também representa um grande
problema.
Levando-se em conta as estimativas da produção média
de esgoto por habitante da Pesquisa Nacional de Saneamento Básico
(PNSB), é possível verificar que, na grande maioria
das bacias hidrográficas, o volume de esgoto coletado é
bastante baixo em relação ao produzido pelos municípios
ali situados. O maior número percentual de distritos-sede
que coletam esgoto encontrasse nas bacias costeiras do Sudeste (95%)
e nas bacias hidrográficas dos rios São Francisco
e da Prata (ambas com 63%), seguidas pelas bacias costeiras do Nordeste
oriental (57%) e do Sul (49%).
As demais apresentam valores iguais ou inferiores a 20%. A situação
é mais grave quando se considera que, nas grandes bacias
hidrográficas, menos de 50% do esgoto coletado recebe tratamento.
Em 2000, havia 116 municípios brasileiros sem serviço
de abastecimento de água por rede geral (2% do total de municípios),
a maior parte dos quais situada nas regiões Norte e Nordeste.
Nestas regiões, embora tenha havido redução
do número de municípios sem abastecimento desde 1989,
registrou-se em 2000 um aumento de seu peso proporcional: passaram
de 50% para 56% no Nordeste, e de 21,7% para 23,3% na região
Norte, indicando que o investimento aí realizado na expansão
da rede geral de abastecimento de água não ocorreu
na mesma proporção que nas demais regiões.
Esses municípios que não contam com rede distribuidora
de água utilizam, como alternativa, chafarizes e fontes,
poços particulares e abastecimento por caminhões-pipas,
bem como uso direto de cursos d´água.
Mineração, agrotóxicos e esgotos afetam mananciais
nas diferentes bacias hidrográficas A análise por
bacia hidrográfica permite avaliar, de forma integrada, o
impacto das ações humanas sobre o ambiente e seus
desdobramentos sobre a qualidade dos mananciais. Um dos principais
agentes poluidores dos mananciais é o esgoto sanitário,
mas algumas bacias hidrográficas apresentam poluição
na captação superficial de água relacionada
com as atividades econômicas em destaque nos respectivos territórios.
Na bacia amazônica, por exemplo, a atividade mineradora é
importante fonte poluidora, mas os mananciais também são
afetados pela precariedade da rede de esgotamento sanitário
na região, onde apenas 7% dos distritos-sede de municípios
coletam e tratam o esgoto. Já nas sub-bacias hidrográficas
dos rios Tocantins e Araguaia, no centro do país, e em boa
parte das bacias costeiras do Nordeste oriental, destacam-se os
resíduos agrotóxicos como principais fontes de poluição,
enquanto nas bacias costeiras do Sul e do Sudeste os despejos industriais
têm maior participação relativa, ainda que a
principal fonte poluidora das bacias do Sudeste seja o esgoto sanitário.
Saúde pública, lixo e drenagem urbana estão
interligados
Ressaltando a relação das questões de saneamento
com a saúde humana, o Atlas de Saneamento apresenta a distribuição
espacial de algumas doenças de veiculação hídrica
e exemplifica os diferentes tipos de relacionamento entre meio ambiente,
doenças e saneamento. Por exemplo, a hepatite A e a febre
tifóide, assim como a maioria das diarréias, são
doenças adquiridas pelo consumo de água contaminada
por dejetos, e estão relacionadas, portanto, com o esgotamento
sanitário, a distribuição e o tratamento de
água de abastecimento. Devido à forte relação
com o saneamento (qualidade da água e destino dos dejetos)
e ao expressivo número de casos, esse mapa apresenta também
o número de óbitos e sua proporção nas
faixas etárias mais suscetíveis aos casos fatais de
diarréias decorrentes da contaminação do meio
ambiente, que são os menores de cinco anos e os maiores de
oitenta anos de idade.
Há doenças relacionadas com o esgotamento sanitário,
mas também com as enchentes e o sistema de coleta e destino
do lixo, como é o caso da leptospirose, transmitida principalmente
pelo contato com a água contaminada pela urina de ratos.
O mapa, nesse caso, apresenta também o número de casos
e óbitos de leptospirose, relacionando-os ao destino do lixo
e às inundações, pois se sabe que o acúmulo
e o destino inadequado do lixo geralmente levam ao aumento da população
de ratos, enquanto a ocorrência de inundações
e enchentes intensifica o contato do homem com as águas contaminadas
pela urina dos roedores, facilitando a transmissão da doença.
Os sistemas de drenagem, que podem preservar as grandes cidades
contra as enchentes e inundações, tornaram-se itens
fundamentais na agenda de planejamento urbano. Somente 7,5% dos
municípios brasileiros utilizam reservatórios de acumulação
ou detenção, tidos como uma das principais alternativas
para a minimização dos problemas gerados pela urbanização,
que impermeabiliza o solo e impede a infiltração das
águas das chuvas, causando empoçamentos, inundações,
erosão e assoreamento. Nas regiões Centro-Oeste, Sul
e Sudeste, a proporção de municípios que utilizam
esta alternativa é superior à verificada no país.
Os cursos d´água permanentes (lagos, rios, córregos,
riachos, igarapés) são os pontos de lançamento
das águas das chuvas preferenciais, utilizados por 75,7%
dos municípios brasileiros.
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