Samaúma
 


 



Voltar para página principal.

 

 

 

 

 

 

 

Notas:

 

 

 

 

O império do crime

 

 

 

 
Heitor De Paola
http://www.heitordepaola.com/publicacoes_materia.asp?id_artigo=385
21 de fevereiro de 2009
Editorias - Cultura, Estados Unidos

 

 

Podemos traçar um paralelo entre esta triste e desastrosa história e os tempos atuais em nosso País, onde o terrorismo e a guerrilha grassam no campo, se concede asilo a terroristas, protegem-se traficantes e condenam-se bandidos a penas “alternativas”, propõe-se a liberação das drogas, do aborto e da eutanásia, a moralidade se esvai entre funks e festas nababescas regadas a Ecstasy, onde deputados possuem castelos medievais – corregedor, fiscal dos demais! - e nada acontece?

 

 



Em 1933 Fritz Lang termina o segundo filme da série Dr. Mabuse, O Testamento do Dr. Mabuse que continuava o primeiro, ainda mudo, Dr. Mabuse, o Jogador. O personagem baseado numa novela de Norbert Jacques era um psiquiatra e hipnotizador que usava seus poderes para manter sob seu domínio outros jogadores e fazê-los jogar a seu favor. No fim deste primeiro filme Mabuse enlouquece e é internado do asilo do Herr Professor Baum, um estudioso da mente criminosa. Depois de anos em absoluto silêncio catatônico, começa a escrever furiosamente. Simultaneamente a cidade é invadida por quadrilhas de bandidos e uma sucessão de crimes.

Quando um detetive de polícia, Hofmeister, descobre que o chefe da quadrilha era Mabuse, as luzes se apagam, ouvem-se tiros e quando Hofmeister é encontrado estava hipnotizado e cada vez que se sente observado começa a cantar como um idiota e é internado no mesmo asilo.

Quando finalmente o inspetor Karl Lohmann começa a investigar o asilo, Mabuse morre e a trama vem à luz depois de inúmeras peripécias: o poder hipnótico de Mabuse se estendia após a morte e o Herr Professor Baum havia sido totalmente dominado e assumira o lugar do ‘paciente’.

Numa cena antológica o espectro de Mabuse surge para Baum e depois ‘entra’ nele e se confundem e Baum passa a por em execução o testamento: comunica-se secretamente com os principais líderes da organização criminosa que tinha sido formada para preparar uma série de crimes simultâneos (assalto a bancos, destruição de colheitas, falsificações, envenenamento da água e ataque a uma indústria química) com a finalidade de criar um ‘império do crime ilimitado’.

Acredita-se que Lang tenha realizado o filme como um símbolo da corrupção e decadência da República de Weimar e da ameaça nazista: as palavras de Mabuse eram muito semelhantes às de Hitler e seus sequazes. Ter escrito internado num asilo pode ser um paralelo com a prisão de Hitler em 1925 quando ditou o Mein Kampf. Da mesma forma que os nazistas para as suas SA, Mabuse/Baum recrutava e protegia toda sorte de bandidos, criminosos, seqüestradores e terroristas (naquela época o tráfico de drogas ainda era irrelevante). 

* * *

A democratização da Alemanha em 1919, com a queda do Império absolutista e autocrático de séculos, foi recebida com euforia e grande otimismo, mas logo, logo as coisas se deterioraram: o regime democrático foi utilizado para desencadear a deterioração dos costumes que rapidamente transformou a República de Weimar num asilo onde imperava a psicose, tanto individual quanto institucional. As crenças religiosas entraram em declínio com incremento das práticas ocultistas e a conseqüente amoralidade imperando soberana. As classes abastadas perderam totalmente os controles.

Desejos, atitudes e comportamentos aberrantes, há muito reprimidos, vieram à tona e não havia nenhum limite para a satisfação hedonista. Por sua vez, o povo, já sofrido pela derrota, pelas perdas e mutilações de familiares e pelo pagamento extorsivo das indenizações de guerra, perdeu o referencial das classes que deveriam dar o exemplo de austeridade necessária para a reconstrução do país.

Paralelamente, a corrupção tornou-se a norma no mundo dos negócios e da política. Os políticos se candidatavam muito mais para obter lucros pessoais e poder de influência do que para servir à Nação. Com o poder de decisão nas mãos e a perda dos sentimentos morais, da retidão e da honra, faziam leis em proveito próprio e o povo que se esfalfasse de trabalhar para pagar extorsivos impostos enquanto os ricos se divertiam e pagavam aos políticos para obter vantagens.

Este estado caótico só precisava de um impulso para aprofundar o caos e instalar um império criminoso. E aí estavam os nazistas e os comunistas para se encarregarem de instalá-lo. Em 1932 a Alemanha não tinha nenhuma opção democrática entre as quadrilhas nazista e comunista. Os primeiros souberam explorar o medo das classes mais altas para se financiarem. Sabemos hoje que esta oposição não passava de uma farsa para encobrir uma profunda aliança para destruir a Europa, a democracia e a liberdade individual, mas os dois lados tinham razões de sobra para alimentarem a farsa, enganando até mesmo seus próprios militantes.

(Poucos dias antes da estréia do filme os nazistas tomaram o poder Goebbels exigiu a retirada do último carretel, onde Baum enlouquece e é internado no seu próprio asilo, e convidou Lang para chefiar a poderosa indústria cinematográfica alemã. Em boa hora – ele sabia o que denunciara – Lang foge na calada daquela mesma noite).

* * *

Podemos traçar um paralelo entre esta triste e desastrosa história e os tempos atuais em nosso País, onde o terrorismo e a guerrilha grassam no campo, se concede asilo a terroristas, protegem-se traficantes e condenam-se bandidos a penas “alternativas”, propõe-se a liberação das drogas, do aborto e da eutanásia, a moralidade se esvai entre funks e festas nababescas regadas a Ecstasy, onde deputados possuem castelos medievais – corregedor, fiscal dos demais! - e nada acontece?

Onde os meios de comunicação ignoram limites morais? Onde a Corte Suprema determina que todos devem permanecer soltos até o julgamento do último recurso, mesmo condenados em instâncias inferiores por crimes hediondos? E o povo permanece hipnotizado por uma figura carismática que comanda o maior império do crime de nosso continente, o Foro de São Paulo? Onde se pagam “indenizações por crimes de guerra”, não mais a potências estrangeiras, mas a cidadãos do próprio País? E a carga tributária atinge níveis insuportáveis para sustentar a “nova classe” que se locupleta?

Publicado no Jornal Inconfidência