São Paulo, anunciando que ela vem por aí, 2009.
Palavras positivas que combinam entre si e com a estação que chega. Gosto das primaveras. Pelos meus cálculos fui feita numa delas, logo no início.
Suspirei. Como é bom, como é raro suspirar! É a maior, senão a única, emissão esquisita de nosso corpo que é legal, emocionante, tem um bom significado abstrato (há outras emissões abstratas, porém com visibilidade, digamos assim, bem concretas). Eu também nunca tinha pensado nisso até agora. O suspiro é sublime, assim como a palavra que o nomeia. Mesmo que triste, vem da alma. Igual arrepio.
Aí, genial, veio galopando a lembrança da Primavera, que já mostra o rabinho lá de longe. Aí tudo ficou muito doce, melado. Foi quando percebi que é tal e tamanho o safado estado de coisas que nos sentimos culpados por qualquer relaxamento, plus de alegria. As coisas martelam nas nossas cabeças o tempo inteiro. Cansativo.
Rápido! Pega carona! Vamos fugir daqui. Feche os olhos e pense na Primavera, nas primas Veras, nas primaveras floridas em arcos, nos raios e na rotação do Sol, nas flores do mundo se abrindo, animais acasalando, frutos surgindo, você acasalando.
Tudo bem se viajou mesmo sem fechar o olho. Era essa a idéia.
Melhor continuar ouvindo o cochicho dos passarinhos passando a conversa nas passarinhas. Prestar atenção em como flores e frutos têm ângulos sexy. Vão nascendo e se abrindo todas, se mostrando para o bico dos lépidos e elegantes beija-flores. O mar passa vagarosamente (o que?); a língua! (onde?) Na areia! Andorinhas lépidas, irrequietas, juntem-se! Voem! Façam a primavera.
Agora entra em cena o suspiro. Um suspiro de amor ouvido do parceiro após o clímax. O suspiro espontâneo do bebê, entre gargalhadas. Ah, e se você tem cachorro sabe: suspiro de cachorro é irresistível. Tudo que respira, vive. Tudo que suspira é sublime.
E agora, vai deixar de ficar feliz, vai achar piegas? Por quê? Lembrou daquela gente, dos pelos e cabelos, bigodes e barbas, tudo fora do molho? Lembrou como estamos sendo ludibriados dia-após-dia, bombardeados? E infelizmente sem perfume, como aquele vidro que estava no viaduto que mobilizou a polícia paulista dia desses. A gente anda com medo até de despacho, mesmo que sem galinha preta. Somos metralhados com propagandas, até arrisco dizer, e preveni-los que elas, as propagandas, são capazes de nos levar a fazer coisas do arco, mecânicas. Não estranhe se qualquer hora começar a levantar, se empertigar todo e bater continência cada vez que ouvir falar a palavra Petrobras. Não, o Hino Nacional, não, não canta agora não! Só quando entregarem os PACs, os POCs, com sal e sem sal, no pré-sal.
Precisamos correr longe disso tudo para poder analisar com calma e distância. Só assim poderemos traçar um rumo, uma saída razoável, legal e, ao mesmo tempo, popular, porque precisaremos de todos, de Norte a Sul, e do outro lado.
Escuta, por favor: não podemos ficar atirando para dois lados, como se só dois contendores houvesse! Isso nos limita. Vamos fazer a Primavera dos anos 2000 e lá vai pedrada dez, por favor. Com o debate baixo, as opções encolhem e recolhem.
Se quisermos, contamos primaveras, não anos. A estação mais simpática de todas. Sua simbologia é a da vida, energia, mutação, mudança, melhoria, renovação. Por isso gosto da idéia de ter sido feita nela, na Primavera, para nascer toda enrugadinha, como bem define meu irmão, nove meses depois.
Agora é época de verde, de ficar mais verde. É a Marina morena que está em cima dessa prancha em ondas altas. Que ela venha menos dogmática e mais prática, se quiser voar. Não, ela tem de melhorar. Já pensaram a República da Vila Madalena, se o PV da Marina virar? Depois da República das Alagoas, da República de Ibiúna, da republiqueta de Saint-Bernard, isso sim mostraria os altos e baixos da política. Ladeira!
Façamos logo de setembro nossa Primavera. E a que a gente ainda possa suspirar muito.