Samaúma
 



 



 

 

Marli Gonçalves, jornalista. Sempre adorou as fábulas, as histórias de crianças, os desenhos animados e as histórias em quadrinhos. Talvez porque elas, iguais aos livros, nos façam viajar no tempo, no espaço, e em nossa própria imaginação.

São Paulo, 2009. Foi dada a partida!

Marli Gonçalves
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Colheita de sentimentos.


 

 

Marli Gonçalves *
03 de março de 2009




Me conta o que sente? Já sei que você tem medo, fantasmas, escondidinhos, vontade de sumir, fantasias, calcinhas coloridas, começa a se vestir pelas cuecas. O que mais?
Quero o orgulho de colher o lado que o mundo gira, para girar com ele. Quero colher os sentimentos, para plantá-los em outros campos. Escrever sobre o Dia da Mulher seria chover no molhado, no úmido. Já tem muita gente fazendo isso, muitos inclusive sem entender nada, nem de mulher, nem de dia, nem de noite. Delas tenho muito para falar, porque elas, as mulheres, sou eu, mas eu só me entrego aos poucos.

 

Muita gente diz gostar de meus textos, de meus artigos ou crônicas, sei lá, nem eu mesma sei bem o que são. Porque eu conseguiria, segundo vários e totalmente diferentes leitores, a cada um deles, traduzir exatamente o que eles sentiam. Ou o que faziam naquele momento. Ou os tirei de algum marasmo, de alguma dúvida, de algum limbo onde estavam largados, rabugentos consigo mesmos.

Tenho estado muito alerta a isso. Mas gostaria de poder entender melhor. Preciso entender melhor. E pensei se poderia contar com a ajuda de vocês, meus leitores, então. Abri uma conta de e-mail: colheitadesentimentos@gmail.com. Não precisa se identificar, se não quiser. Manda por aquele e-mail que eu sei que você tem - o "frio", que usa nas ruas paralelas, nos descaminhos de bate-papos virtuais, tipo taradinha43@ ou bonitoegostoso@ ou carenteprontoparaamar@.

O que gostaria ou pensaria para que eu descrevesse exatamente agora? O que é que você anda fazendo? Porque está sofrendo? Porque está sozinho? Porque está acompanhado? O que tem lhe trazido angústia? E alegrias? Pelo que entendo da vida, nossos sentimentos são assim, partilhados. Não estamos sozinhos neste mundo, Você não é o único que gosta de molhar biscoito e pão no café-com-leite, que não gosta de penetração, ou que acha que as drogas deveriam ser liberadas, ou ainda que o Lula vai tentar o terceiro mandato. Não é o único que acha que não é reconhecido. Não é o único que está sem dinheiro, ou que tem dinheiro, mas neca de pitibiribas de felicidade. É aquele famoso bordão: Bem-vindo ao Clube!

Pensei que seria legal se a gente tentasse. Resuma. Mande-me uma síntese do que sente - uma frase, uma vontade, uma mania, engraçada ou esquisita, que admite. Verbaliza!Será muito difícil? Fácil não é, isso eu sei.

Prometo que se achar muito brava a coisa, recorrerei a um especialista. Porque, pensa bem, é enorme a responsabilidade dessa proposta quase indecente (só não é porque não tem dinheiro, nem pensar). Mas tem vantagens, pense: você não paga a terapia - e falar, por pra fora, às vezes é uma terapia e tanto. Interage comigo (hummm, gostou? Sempre achei essa coisa de interatividade muito erótica). Se mostra um pouco mais, se abre. Se eu conheço as pessoas, você é uma delas e vai já a partir de agora parar para pensar o que poderia dizer - essa sua "intimidade” - e isso também vai te fazer bem. Mesmo que não me mande nada. Tudo bem!

Mas, por favor, sejam sinceros. A idéia é séria. Nasceu de mais uma forte inquietação interior minha. Sim, senhores! Nesses últimos meses ganhei, de verdade, dezenas de amigos que ainda não conheço pessoalmente, mas tenho certeza de que sei mais deles em algumas coisas do que as suas próprias famílias, e tenho ouvido confidências de tal ordem e generosidade, e de gente muito interessante, reconhecidos, bem colocados profissionalmente - que não é pouca coisa, não! Muitos me imaginam. Também sou super curiosa para saber como me imaginam. Adoraria saber mais sobre isso também.

É como se eu tivesse aberto uma portinha, e escancarado um castelo, mas castelo mesmo, dos bons, não esse aí que ficou famoso nos últimos tempos do deputado exagerado.

Tenho de agradecer. Meus textos têm corrido o mundo. É maravilhoso. Vêm sendo publicados em sites importantes, blogs de grande visibilidade ou pessoais, e, ainda, reenviado para correntes e correntes de e-mails, de amigos, de famílias, e de todo o Brasil, Norte a Sul, com direito a vários "leitores internacionais", na Austrália, França, EUA, Buenos Aires, México, etc.. Tem horas que nem sei o que dizer de tanta alegria, tantas mensagens bárbaras, e observações especiais. Tudo se inicia segundos depois que ponho os textos no ar. (Acho que eu precisava contar isso, para quem ainda não entendeu porque vem recebendo do meu mailing, e como tudo começou, na eleição,quando invoquei com a Marta Suplicy e saí defendendo, no fundo, a minha própria bandeira. Nada mais do que isso. Mas foi também quando descobri que a minha bandeira era a bandeira de muita gente, e eu pensava que estava sozinha).

E outra coisa: como mudam os grupos - uma hora que falo de comportamento, quando trato de política, ou de coisas femininas, ou de coisas que só solteiros, sem filhos, passam. Cada vez é uma onda para surfar, onda alta!

Eu não estou ganhando nada para isso, ao contrário, até gasto, pelo menos por enquanto, e espero que logo isso mude. Então, vocês têm percebido: escrevo quando quero e sobre o que quero, e quanto quero. Às vezes até sai mais comprido do que deveria, quando resolvo esgotar um assuntinho. Você pode ler se quiser. Comentar, se quiser. Deletar, copiar, passar, pensar, reclamar, usar para dar um toque em alguém.

Vem uma idéia, vejo algo, fico indignada com as babaquices que temos de suportar, com a frouxidão do mundo, ou com a tentativa constante de tanta gente querendo "nos comer" por tudo quanto é lado, sem nos dar direito ao refinamento do prazer. Uso muito do que vejo, do meu radar que é ligado 24 horas por dia, da profissão de jornalista, de repórter, que exerço há mais de 30 anos, mesmo quando trabalho como assessora de imprensa, como relações públicas, como gerenciadora de crises, para clientes no tiroteio da mídia. Uso o que sei como mulher, filha, amiga, irmã, paulistana, solteira, 50 anos, moradora em São Paulo, no miolo da loucura. E tentando manter o bom humor.

Então, colho sentimentos. Como, se pudesse, colheria flores. Ou morangos que passaria imediatamente no chantilly. Planto as palavras, como planto pimentas também, que adoro. Estou tentando semear novos campos. Para as pimentas, para as flores e para as palavras.