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Marli Gonçalves *
24 de jan de 2009
São Paulo, 455, tem bossa, sim, senhor! Aqui nasce toda bossa nova. Aqui tem de tudo, de todos, do bom e do melhor, do ruim e do pior. Feliz Aniversário, cidade maluca, cidade insana, cidade de todos!
Sempre penso que a bossa nova deveria ter nascido aqui, em São Paulo. O lugar das novas bossas e de bossas novas. São Paulo, 455. Onde nasci - o que já é legal e torna o lugar ainda mais especial.
Senão, se não São Paulo, onde mais tudo? Não conheço o mundo, só uns pedacinhos dele, mas de uma coisa tenho certeza. Aqui tem de tudo, sim: Rivieras, Le Quartier Latin, a Quinta Avenida, os Harlems, muitas Nigérias, e vários Haitis e Iraques.
São 455 anos de pessoas e coisas chegando. Imagina! Veio gente de tudo quanto é tipo, carregando tudo quanto é tipo de tranqueira e de cultura. E transando. Transando muito. Quando imagino estes translados de época, vejo todo mundo transando muito, feliz, e já chegando com as criazinhas, sejam elas descendentes, umas doenças, ou novidades dessa mescla toda torta. Naquele tempo (até parece que só naquele tempo) tudo demorava.
Igual hoje... certas coisas não mudam. Principalmente em São Paulo onde ir de um bairro a outro pode demorar muito mais do que ir daqui até o Rio de Janeiro pegar uma praia, depende do dia, depende da hora, depende da manifestação - greve - passeata - paralisação - acidente - na-marginal que estiver no prato do dia.
É o que faz de São Paulo, 455, sempre nova e sempre bossa. Os mais jovens talvez não saibam como se usa normalmente o sentido da palavra bossa. Bossa, eu tentaria descrever, é até um jeito de se virar contra tudo e todos, de forma real, mas sensual e sinuosa; leve, mas decidida. Bossa é sempre criar. É lançar antes de todos o que acabará sendo seguido, e até pelos cariocas, que nos frustraram pegando a bossa nova musical para eles. Mas faz tempo não fazem bossa. São Paulo não para.
São Paulo, na cabeça. Aqui nasci e aqui vivo há 50 anos. Filha de gente que veio chegando com as tranqueirinhas. Vi a Augusta nascer e morrer. O Centro ficar velho, virar novo e envelhecer também. E ressurgir. Vi shoppings brotarem. Vi furarem as suas entranhas para o transporte o mais rápido possível, por baixo da terra, de toda essa sua gente e suas tranqueiras - até jacaré seco e esqueleto esquecem no Metrô! Vi colocarem minhocões em você. Passarelas para desfilar. Pontes para partir e alças, de retorno.
Vi caírem suas casas e barões. Vi crescerem suas torres de vidro, como jóias, algumas assinadas. Vi árvores nascendo e até flores lindas em todas as estações do ano, resistindo ao ar, muitas vezes seco e quase sempre irrespirável, sufocante, venenoso.
Vi pássaros, muitos. Beija a flor, beija. Eu os ouvi cantando. Ou gritando, as maritacas. Ou enchendo o saco, como os pombos, ratos alados. Fora os sem asa, ratos mesmo, aqueles enormes que saem dos bueiros quase pisando em nossos pés, que já fogem das cucarachas cascudas. No verão, cupins fazem show sob luzes das ruas movimentadas. Quem não tem vagalume, que com eles se contente.
Vi vilas sendo povoadas, algumas por artistas e pessoas diferentes, bares e afins, afins de tudo isso. Vi vilas operárias, mananciais ocupados, bairros que se estendem por outros nomes, mas todos Morumbi, porque este vende mais. Vi vilas distantes povoadas de novos ricos virarem must, cheias de glamour importado, de pompas, de apartamentos de milhões. A honra do pobre que não é mais pobre e não quer largar sua região, até para que todos vejam que ele não é mais pobre. Se a moda pega, São Paulo um dia se embeleza. Pena que às vezes o bom gosto não seja o forte, nem por lá nem por aqui, por essas daslus de teto de vidro.
Vi suas montanhas. Sei dos seus feios rios, represas e enchentes. Sei que é um labirinto de dezenas de milhares de quilômetros. E que se eu andar, andar, andar, ainda assim estarei dentro de seus limites.
Aqui nesta cidade já comi o mundo (sem duplo sentido, por favor!). Italianos, árabes, argentinos, franceses, americanos, ingleses, japoneses, chineses, gregos, tailandeses - os restaurantes.
Negros, rosados, amarelos, vermelhos, esverdeados, marrons, pálidos, castanhos, louros, ruivos, índios, civilizados e selvagens, gente boa, estranhos de toda a sorte, tamanho, altura, figuras! Mulheres de verdade e mulheres viradas de homens. Homens mulheres, mulheres homens, quase irreconhecíveis em suas origens e seus cromossomos X e Y. Todos pra lá e pra cá nas ruas. Ciganos ciganos. Baianos baianos, cearenses sushimen, japonês ritmista.
Fé, andar com fé eu vou. Da Igreja A, B, C, D, E, F e Z ou mistas, quentes, como as do balacobaco. De Alá a Buda, passando por Xangô e Cristo. São Paulo tem reza para todos, até para os que não têm reza - se reúnem para falar sobre o materialismo dialético. Pão e vinho. Para todos. Hare Krihsna, hare, hare!
São Paulo tem moda, cria moda; é moda. Uma passarela, onde até os mendigos são fashion. Em São Paulo se acorda com os sons fortes dos roncos das Ferraris e Harleys, com a buzina das Mercedes e com o estouro dos escapamentos dos fusquinhas, kombis e variantes. Ou se distrai vendo aqueles brinquedinhos, helicópteros, parando para deixar aquelas crianças já crescidas e poderosas no topo dos edifícios. E o que mais se vê? Homens, como burros, ao lado e à frente e atrás, puxam ou empurram carroças, animais sem ONGs. E os cachorros malucos, fast-boys, a cera predileta dos asfaltos.
24 horas. Insone. Cidade do barulho. Cidade dos sons. São Paulo Bossa Nova tem jazz, rock, funk, rap, clássico, gospel, sertanejo, com MPB em cada esquina, junto do samba que, se foi aqui se enterrou, tem sete vidas de gato. Antenas espetam as nuvens; emitem sinais, interferem nas vidas e nos rádios. E muitas sirenes, de todos os tipos, sempre, sempre por perto, terríveis, mórbidas, apressadas, anunciando desgraças. São Paulo tem cheiro. De perfume francês das madames e de esgoto. De comida e pastel das livres feiras. São Paulo tem poucas latas de lixo e muito lixo no chão. Caçambas! Fora!
São Paulo, 455, tem crianças esmolando nas ruas, comendo ali esse lixo ou sendo comidas, seviciadas, como mais do que lixo, pelo lixo dos homens, tóxico. Tem loucos em surto, pervertidos de toda ordem, algumas de extrema direita. Cães de todas as raças. Gênios e estúpidos. Sangue na veia, self service, drive thru, delivery, room service, penthouse, pet-shops, nightclubs, sales, prices-off, outlets, drive-ins, call-centers - quarteirões inteiros em várias línguas que não são a nossa. Muitas padarias, muitas pizzarias, motéis nas redondezas. Muito dinheiro, muita miséria. Justiça, injustiça.
São Paulo, Capital, tem mesmo de tudo. E, agora, até um prefeito da turma. E uma vice-prefeita que sabe das coisas. Cidade moderna é assim.
São Paulo, parabéns! Queria ter talento para compor, queria saber cantar. Já está passando a hora de você ganhar uma boa música, uma bossa, falando de suas outras esquinas, porque és o avesso do avesso do avesso do avesso. É São Paulo em branco e preto. Queria te dar uma canção. Te dou minha homenagem. Te fiz uma bossa.
São Paulo, 455, a caminho dos quinhentinhos. |