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Marli Gonçalves *
5 de fevereiro de 2009
Grito de guerra: descontrai e faz parecer melhor a terrível vontade de esganar o mundo, ou alguém, que todos têm, todos os dias.
Não lembro mais nem por que, mas há alguns anos, com meu irmão, pegamos uma camiseta verde e nela escrevemos, meio que como uma pichação, em vermelho: Nervos! Ficou bárbara. Outro dia a procurei e não encontrei – devo ter tido um ataque de nervos em algum momento desses do passado e a destroçado. não encontrei – devo ter tido um ataque de nervos em algum momento desses do passado e a destroçado. (Ou, talvez, meu irmão a tenha pego e nunca mais me devolveu. Nervos!). O fato é que hoje eu pensei o dia inteiro nessa expressão e conclui que ela é perfeita. Resume todos os terríveis e maus sentimentos. Mostra os dentes. Não é um palavrão, a palavra pode ser dita em várias situações e ambientes. Você pode só pensar, também, fazendo cara de quem está sorrindo, quando está querendo socar alguém. E acalma! Experimente!
Nervos! A palavra é bonita, cientificamente até. Essa expressão me veio à cabeça e como surgiu, justamente para definir um estado de ânimo, aquele que te ataca justamente os nervos, que parecem querer sair pelas unhas das mãos, que te esquenta a cabeça a ponto de você "pensar em fazer uma loucura”. De quando você desejaria simplesmente destroçar a operadora de telemarketing com uma vozinha bem pentelha, e que não para de dizer que vai estar mandando, verificando, dando sabe-se lá o quê mais, lentamente, em gerúndio. Forma lingüística inventada só para postergar a resolução das coisas.
Nervos! Evita aquela facada na língua do taxista que não para de falar sobre algo que não te interessa, ou aumenta o rádio justo quando você tem que atender o celular. E esse tipo, em geral, adora música sertaneja ou aqueles programas bem chatos de locutores que vendem remédios para azia e para carecas, esse um caso que não adianta, não têm cura! E quando aquela pessoa te liga no celular insistentemente na famosa hora errada? Tipo quando você está descarregando coisas no caixa do supermercado, com um monte de gente te olhando feio bem atrás? Não, ela não perguntou se você poderia falar naquela hora. Mas, se perguntou, repare que não ouviu você dizer que falaria mais tarde e consegue acrescentar mais alguns muitos outros detalhes. E aquela ligação que você espera há vinte dias, cinco horas e quarenta e cinco minutos e que, agora que acabou de entrar no banho e...se ensaboar ( para ficar completa a história) – acontece? Você não tem o telefone da pessoa, ela não deixa recado "porque não sabe falar com a secretária eletrônica” (não agüento essa frase!) e você adoraria agora poder afogá-la!
Nervos! Cabe muito bem para uma série de aplicações, nas mais diversas áreas do comportamento humano. Quer ver? José Sarney assumiu a presidência do Senado e a primeira medida "moralizadora” foi proibir que a gráfica do Senado imprima coisas que não dizem respeito ao trabalho parlamentar! Eles falam essas coisas e não ficam mais nem vermelhos! O Michel Temer, mordomo do PMDB do A a Z, diz que vai economizar. Primeira medida anunciada: contratar mais gente para a agência de notícias deles acompanhar o trabalho dos nobres parlamentares em seus Estados! Você não estava mesmo louco para saber o que tanto eles fazem quando não estão em Brasília, grande maioria fazendo nada lá mesmo?
Nervos! A Dilma, Dilmão, que daqui a pouco vai voltar (o efeito desses ácidos passa) a ter aquela cara de professora primária que dá reguada na palma da mão dos alunos, não quer falar sobre a sucessão presidencial "nem amarrada”. Nós é que devíamos poder amarrá-la para ela nem tentar, não? E a Marta Suplicy, hein? Alguém consegue imaginar uma campanha da agradável e doce Dilmão, chefiada pela simpática Dona Marta? Poderíamos sugerir que Dona Marisa Letícia também participe ativamente, e que não esqueça de convidar expoentes da vida feminina, como Roseane Collor, Benedita da Silva, a tal da amiga Erenice, as Matildes. Para o programa de televisão? Algo como Silvia Poppovic não seria uma idéia? Ah, e um macho decidido como coordenador: o ínclito José Eduardo Cardozo, com o apoio de sempre de Maluf, Delfim, e todos os outros filhotes você sabe de qual período. Semana que vem terá um jantar na casa de Dona Marta, para coroar essa campanha. Não, não vomite. Grite: nervos!
Nervos! Se continuarem a falar desse caso Cesare Battisti mais uns dias, quem vai aguentar? Gente, não quero ser chata, mas o homem estava preso e com essa história correndo há mais de dois anos! O paspaquera do ministro que abre a boca e só fala besteira, até quando raras vezes tem razão, está para cair há mais de ano! Enquanto isso, literalmente na calada da noite, não sei se você soube, foi extraditado para a Coréia outro homem, Chong Jin Jeon, que não matou ninguém, nem uma mosca, coreano que vivia aqui desde muito jovem, casado, três filhas, acusado por crimes de colarinho branco que no Brasil nem crimes são. O governo se faz de bobo por conta de um acordo mal feitinho, de promessa da promissora Coréia de trazer uma fábrica tão grande quanto uma ilusão de deserto e ele, o coreano, foi levado para ficar preso, inclusive correndo risco de vida, porque o mundo lá se divide em Hyundai e Hyundai; e não se vive onde se é inimigo do rei.
Nervos! E as prolongaaaadas férias de janeiro das "autoridades”, em meio a uma crise que vem destroçando tudo e todos? E as guerrinhas politiqueiras entre São Paulo e Minas, que parecem coisa de meninos de calça curta? E os juros dos bancos, que nos comem sem dar prazer, e de todos os lados? E as contas subindo? E o Lula se achando?
Nervos! Como lidar com a deseducação reinante? Como lidar com quem se acha o dono do mundo, inquestionável? E aquele amigo que resolveu lhe virar a cara só porque você expôs um pensamento importante, profissional, e de forma honesta? E de onde apareceu a nova mania da "não-resposta”? O cara te ocupa, te pede algo que você não tem a menor obrigação, você se mata, atende, faz, e ele não é capaz de entrar em contato nem para reclamar do preço? Muito menos agradecer.
Nervos! Reparou? O sim e o não foram abolidos, trocados por um horrível "com certeza”. Nervos! Ninguém mais fala "obrigado”. Ninguém te deixa passar, ao contrário, ainda te dá uma cotovelada e te xinga – pouco importa se você está equilibrando alguma coisa nas mãos ou debaixo de chuva. E a buzininha do carro de trás quando o farol ficou verde só agora? E o motoqueiro te ultrapassando pela direita? E todo mundo achando – porque só pode ser isso – que você é otário, burro, bobo, só porque costuma ser bonzinho e educado? Porque as pessoas têm o maldito hábito de subestimar a nossa inteligência e bondade? Mentem com cara lavada. Mentem com mãozinhas juntas e olhar de frango pronto a ser depenado. O que você faz, produz, não vale nada. E! Por que você não trabalha de graça para mim? Devia ser uma honra – alguns pensam e chegam até a expressar.
Nervos! Ah, você sabe que ali naquela esquina, pertinho da delegacia, funciona um cassino clandestino. Mas ninguém vê! Você que é muito observador! Estranho: olha como aquele restaurante caro pode ficar com os carros estacionados de qualquer jeito! Não precisa chamar a polícia. Todo dia ela para a viatura lá para buscar o "jantar”. Capaz de um dia reparar que alguma coisa ali está errada!
Nervos! Ah, taxa de transferência de telefone para outro endereço, quase 90 reais! Mas só até o poste, hein? Só que se você molhar a mão dos funcionários, deles mesmos, por uns setentinha eles te instalam a linha lá dentro, para você usar... Até porque não dá para ir até o poste cada vez que seu telefone tocar ou quando quiser telefonar. Outra coisa que ando reparando é que, incrível, no prédio onde ainda estou morando por mais alguns dias, tem câmeras instaladas em todos os lugares. Incrível como quando você precisa de ajuda para carregar ou descarregar alguma coisa, todo mundo some - pufff - desaparece! E justamente na hora que você pergunta se eles sabem de algo, não é que tinham saído para tomar um cafezinho ou ir ao banheiro justamente naquele exato momento?
O quê? Pensou que essas coisas só aconteciam com você? Nervos!
São Paulo, fevereiro passando, eu mudando, o mundo caindo.
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