Samaúma
 



 

 



•Marli Gonçalves, jornalista, feminista. Solteira, sem filhos, acreditem, por opção própria. Queria demais que todos entendessem como é difícil ser gente e se manter íntegro nesse mundo, e está cheia de ver quantas vezes nós, mulheres, temos que bater com o pau na mesa. Isso acaba dando até desequilíbrio hormonal. E pode acontecer também com os homens tornando-se a cada dia mais sensíveis. Eles estão começando a gostar!

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Marli Gonçalves
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"Nós, Mulheres"


 

 

Marli Gonçalves *
5 de maio de 2009


São Paulo, quase maio, das mães, das noivas, dos escravos e de tudo o mais que puder ser vendido.

 

 

 

Das coisas que gosto, ser mulher. Das que me orgulho, ter sido menina e mulher, participando das lutas e das conquistas desde que elas começaram, e no dia-a-dia até aqui. Agora sinto que temos de arrumar a casa. Esse mundo.

 

Calma, meninos! E calma, meninas! Não precisam começar a estocar pedras, impropérios e muito menos seus risos sarcásticos ou piadas bobas. Escutem, apenas escutem. Uma vez na vida. Falo, pelo menos gostaria de falar, pelas mulheres de todas as gerações, incluindo as que não têm ainda a menor noção de sua importância. E pelas muitas que nascem. E que nascem de outras, muitas apenas crianças. Mãe e filha. A criança e o bebê, uma família dentro de outra, totalmente dependente. Aumentamos esse mundo todos os dias.

Trabalhadoras. Hoje mais e mais numerosas. Não teve outro jeito – foram nos buscar – "e eu estou aqui, o que é que há?” Construímos esse mundo que está aí fora, com mais ênfase nos últimos 30 anos. Fomos nós todos que o fizemos, incluindo os danos ambientais. Também fomos responsáveis pela confusão nos trâmites morais, nos relacionamentos, as coisas que permeiam e ocupam nossos sentimentos, incapazes que somos de entender tudo, poderosas ou não. Conquistamos e fomos conquistadas nos campos de batalha que ocupamos. Solteiras, casadas, desquitadas, separadas, viúvas, homossexuais. De todas as cores, credos, classes sociais, sonhos, coragens e covardias. Muitas de nós foram obrigadas a quase se tornar hermafroditas, com vaginas e verdadeiros culhões. E os homens tiveram de se socorrer para sobreviver, e procuraram neles próprios o seu lado feminino, suas vaginas, seus temores, sua sensibilidade.

Se até hoje o tema é problema, um tabu! - imaginem como o era há 30, 34 anos, quando o primeiro Ano Internacional da Mulher (1975) foi instituído, e qualquer coisa que se falasse, principalmente no Brasil, era subversão. Muita coisa mudou, de um lado. Pouquíssima coisa mudou, de outro. Ouvi contar que há gente voltando a se preocupar com o que chamávamos linguagem feminina e temo que hoje esteja mais difícil ainda falar sobre essa diferença.

Divisionistas, rachadas, literalmente, era o que escutávamos. E até hoje muitas de nós não se entendem entre si. Temos mulheres líderes mundiais, presidentas, governadoras, prefeitas, deputadas, senadoras – um punhadinho. E?

As crianças e as mulheres nas ruas mendigando. Homens também. Mulheres e meninas assassinadas, crianças se prostituindo por balas e balões. Garotinhas sendo abusadas por suas próprias famílias. Homens-pais querendo ser o que lhes é de direito, pais. Homens sendo mortos ou se matando por esse direito. As mulheres, mães, mantendo-se duras nas negativas, nos tribunais, onde em geral levam vantagens e pensões. Pais e mães às voltas com a sexualidade dos filhos, muitas vezes precocemente desenvolvida para um lado, para outro, para os dois, cheios de inclinações desde a tenra infância.

Tenho notado ainda uma preocupante falta de controle, diferente das rebeldias que vi e vivi. Não há mais distinção. Não há mais aquilo de ser homem, e deles se esperar isso, e das meninas, aquilo. Está tudo muito confuso, misturado. Sem padrão. Toda uma sociedade sem referência – só contra ou a favor. Valem-se de uma dicotomia qualquer para justificar tudo, do estelionato político às brigas de pessoas que se desentenderiam em qualquer lugar, no bar ou no tribunal. Há momentos em que vejo crianças e jovens e me lembro de um filme de terror famoso, de 1990, onde eles tomavam conta de tudo, torturando e matando sem dó aqueles que tentaram lhes dar alguma base. Para mim era o mais puro terror, inspirado no livro "O senhor das moscas", com o qual o seu autor, William Golding, ganhou o Nobel de Literatura, em 83.

Talvez seja o momento de retomar a limpeza. A casa está revirada. Os espaços estão apertados tal qual quitinetes de quinta; e isso traz muita tensão. Homens sentem-se preteridos, impotentes; mulheres, em geral, sentem-se preteridas e humilhadas. Prostitutas ainda não são consideradas gente, mas usadas como tal. E olhe que falo da prostituição toda, a da coitada e a da bacana, que se submetem por inteiro em troca de algo mais do que trocados. Por outro lado, as mulheres e garotas, muitas de programas além dos televisivos, são badaladas, com seus enormes peitos postiços em capas e eventos. Ou em fotos ao vento. Chamam a isso de liberação feminina? As garotinhas querendo ser modelos esquálidas, glamurosas e ricas? Os meninos querendo ser poderosos, armados, jogadores internacionais de futebol, chefes de gangues? Tudo parece fácil.

Por conta de um trabalho acadêmico, na semana passada, aqui em São Paulo, houve um encontro bárbaro de algumas das mulheres que credito entre as responsáveis por termos conseguido chamar a atenção para o penoso assunto de ser mulher, antes apenas mais uma galinha penosa se tentássemos nos sobressair. Esse encontro foi mais uma oportunidade ímpar para continuar viva, chamando a atenção de todos para o que considero justo.

Eu era pouco mais do que uma adolescente quando as encontrei pela primeira vez, e elas iluminaram meu caminho. Trinta e tantos anos depois, eu ainda as reverencio e pude dizer isso pessoalmente, além de constatar que algumas nem se lembravam mais exatamente de como era a nossa realidade lá atrás. Como um jornal – o Nós Mulheres –foi feito contra a corrente inclusive dos que acreditavam que a luta política era só a da esquerda, suas ideologias e dogmas inquebrantáveis. Diziam que não deveria haver sexismo. Lembro de brigas terríveis e do fim, um pesadelo. Na época, eu culpava os homens e amores trançados ali naquelas reuniões, naqueles meios explosivos. E éramos – garanto – o mais moderno dos grupos, o mais feminista, o mais antenado com o futuro que hoje se escancara, literalmente, como presente, à nossa frente.

Não sei detalhes do que aconteceu nesses anos todos. Acho que cada uma foi para o seu lado, cuidar de sua vida. E passado todo esse tempo ainda é difícil tocar nos assuntos, do aborto ao caso da guarda e educação dos filhos. Tratar das opções de cada um nesse mundo onde tudo cabe e muda rapidamente, no entanto, está deixando cada vez mais as novas gerações confusas, muito confusas.

Lembro-me ainda de Wanderléa – Senhor Juiz, pare agora! Vamos nos entender, parar para conversar de novo. Falar mais abertamente sobre a sexualidade e suas demandas. Precisamos parar de ir empurrando com a barriga o que nos diz respeito tão diretamente. Quem sabe ainda dá tempo?