Samaúma
 



 

 



* Marli Gonçalves, jornalista, já foi muito mais destemida. Hoje espera três vezes, conta três vezes, agüenta três vezes. Não mais que isso. Mas depois avança.

 

Marli Gonçalves
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Estamos com medo


 

 

Marli Gonçalves *
25 de fevereiro de 2009



 

 

Do que exatamente, em detalhes, nem sabemos. Mas o temor é geral e esse estado de alerta constante cansa, muito.

 

 

Ouvindo a barulheira da quebradeira dos bancos nos Estados Unidos, que nos fazem lembrar mordidas em cream-crackers. Ouvindo as notícias diárias de demissões em baciadas. Ouvindo o falar monótono, monocórdico, monoglota e repetitivo dos Homens do Poder, de um lado e do outro, e nada de muito bom se firmando como liderança. Acontece mesmo de a gente começar a ter palpitações, ficar inseguro, ter medo de tudo e de todos. Incertezas fazem mal. E uma puxa a outra, igual trenzinho de criança.

Sentimos medo de ficar sós, enquanto país, e não somos auto-suficientes. E medo de ficar sós, enquanto pessoas. E nós também não somos auto-suficientes. As alegrias, nesse momento de medo, não parecem nunca completas - sempre falta uma lasquinha, igual louça em casa. Se faz calor, é muito. Se faz frio, é fora de hora. Reclamamos mais de tudo, principalmente do que não podemos entender, e passamos a não entender muita coisa.

Sentimos medo de sair de casa. Podemos ser assaltados, na rua; ou nos preços que querem nos cobrar, legalizados, nos juros que nos extorquem dia-após-dia, sanguessugas.

Queremos esquecer, mas os papéis que nos entregam nas portarias, ou dentro de nossas casas, aqueles envelopes uniformizados, não deixam. Há pressão de tudo quanto é lado, de cima abaixo. Faça o desenho das flechas, apontadas para você e você, um arqueiro, tentando fazer com que sejam bumerangues. Vão, voltam. Vão, voltam.

Os medos andam de mãos dadas, fazendo círculo em volta de nós, em ciranda. Um puxa o outro. Nos fazem arrepiar quando, sinuosos, surgem em nossos pensamentos. Se for de noite, o sono já não será tão revigorante. E aquilo tudo gruda, e ainda por cima isso tudo mexe com a libido, gente, só pode mexer! Dá azia, dor de cabeça, a tal palpitação. Não amamos mais. Fazemos mais sexo em pensamento do que de verdade, enlouquecidos por tanta pressão, inclusive de sexo, de perfeição.

Temos medo do futuro, qualquer cigana sabe. Temos medo pelo futuro dos outros, dos filhos, dos pais, dos amigos. Deles depende o nosso - cada passo. Temos medo de achar uma barata, e ela se esconder, matreira. Uma barata acaba com um sossego. Imagine os medos.

E o não saber? Eu tenho medo do não saber. Isso faz com que muitos de nós liguemos uma espécie de radar particular, e os mantenhamos ligados, e Meu Deus! Isso cansa. Não saber mais se ele te ama, se quer te ver, te tocar, tanto quanto você quer. Não saber se há outro alguém neste mundo que te fará feliz. Não saber se você conseguirá encontrar o que nem sabe que procura. Não saber se você terá a resposta na ponta da língua, no momento adequado, e não depois, quando de nada mais adiantará.

Estamos com medo do ar que respiramos, da comida que comemos, das descobertas que ainda não fizeram. Temos ainda de nos preocupar com mutações genéticas, resistência de antibióticos, fenômenos meteorológicos e raios ultravioleta. Isso, sem pensar no lixo espacial, e no lixo nosso de cada dia, inclusive espiritual. Se o mundo vai acabar em água, ou em pudim, melado. E quem vai ver.

Nossas crenças íntimas se abalam com o medo. Nossa fé, talvez não. Senão, como explicar o silêncio em que conseguimos ficar, fato após fato, paulada após paulada? Fazemos de conta que não estamos ali, que não estamos sabendo, que não temos nada a ver com isso? Estaremos caminhando para tamanha individualidade, para termos de ser egoístas a tal ponto? Egoísmo de nossos próprios medos?

Quem sabe seu medo não é exatamente igual ao meu?

Só declaro uma coisa, para mim simbólica e muito importante: nasceram nesses dias rosas, bem rosas, na roseira de minha nova varandinha. Maravilhei-me em ver as rosas rosas florescerem tão lindas, depois de acompanhá-las em botão. Os botões abriram, sem medo, aproveitando o tempo, cada um de seu jeito, impulsionados pela vontade de viver. Três até agora, um mais lento que o outro, como se estivessem numa combinada coreografia, para que ninguém duvidasse que viriam. Primeiro um, depois o outro e o outro.

Há muito não me deixava invadir por um sentimento tão pueril, tão simples e ao mesmo tempo tão encorajador. E pensei que talvez essa seja a fórmula contra-todos-os-medos: deixar-nos emocionar. Se gente pode isso, pode com tudo.

Naquele momento eu não tive medo de mais nada.

São Paulo, em um rápido fevereiro, que voou em 2009.