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Marli Gonçalves *
São Paulo, março fumegante (27) de 2009
Não queiram a ditacuja, nem aplaudam o que não é certo, porque estão atingindo quem você acha que merece. Amanhã pode ser você. Repare quanta bobagem dita, quantas fogueiras, em nome do Bem. De quem?
Estou brava, incomodada até. Nas últimas 48, 72 horas ouvi e vi tantas barbaridades e desrespeitos a uma democracia verdadeira e desabonadores para um país que se diz desenvolvido, que estou boba. Boba de ver a insana e irrespirável alegria de muitos com a visão de um circo de horror que estão fechando à nossa volta. O que que é, hein? Regressão de vidas passadas. Todos nós, bárbaros, com malhos nas mãos. Pedaços de carne sangrenta voando da boca dos leões famintos?
Nem nos meus piores pesadelos essa imagem tão real chegou. Queimem a bruxa! Loira! Rica! Vive de uma loja onde eu não posso pôr o pé! Queimem!
Fecham e invadem uma empresa? Prendam, exponham todas as suas coisas. E nos mostrem, para nos satisfazermos. Acusem. Acusem. Prendam as perigosas secretárias! Joguem todos nas celas! Masmorra!
Está todo mundo louco? Ninguém mais para, pensa, raciocina? O que está acontecendo, pelo amor de Deus?
Eu num tô boa, igual dizia aquela camiseta daquele cara, lembra dele? – era um ex-metalúrgico alçado a líder que se candidatou várias vezes a ser o rei – o tal do Lula. O mesmo que nos faz passar tanta vergonha, fala tanta bobagem, como essa última de a crise ter sido criada "por essa gente branca de olhos azuis” .
Ou eu muito me engano ou isso é racismo do brabo. Quem ele está acusando, exatamente? Pensem, por favor, pensem bem. Se isto não foi uma referência clara e preconceituosa das boas, não sei de mais nada. Daqui a pouco teremos que dar salvas ao Irã, ao Hamas, à Coréia do Norte, beijar Cuba, amar a Venezuela. Porque vai ser o que nos resta.
Ulalá. Alguém aí tem um despertador bem forte, uma corneta, para acordar a oposição? Que foi? Estão tão velhos que não sabem mais o que fazer? Querem que a gente faça macumba para ver se algum deles pega o espírito desencarnado de um Ulysses Guimarães, de um Tancredo Neves, de um Roberto Campos? Um Carlos Lacerda?
Caramba! No velho tempo de aguerrimento político, mesmo que meio na clandestinidade por causa da ditacuja, aproveitávamos cada deslize desses ao máximo, por menor que fosse, para mostrar ao povo, desmascarar aqueles governantes. Os provocaríamos em nossos campos de batalha. Nós nos infiltraríamos para dar mais bebida ao homem, inclusive para que ele falasse e fizesse mais besteiras. Iríamos às ruas, bolas de gude nos bolsos, pra fazer escorregar os cavalos e os soldados. Dávamos risadas. Por segundos, éramos felizes. Tínhamos um ideal.
Qual é a diferença hoje, direita, esquerda, volver? Os militares também eram bonzinhos especialmente com algumas regiões e populações brasileiras. Também contavam lorotas em que o povo acreditava, promessas e feitos que jamais serão ou foram feitos. Arrumavam e distribuíam populismos e casas populares de papel, promessas de acabar com a miséria.
Igual que nem. Nesse aspecto, que fique claro. Porque a dita foi cuja e devastadora. E vai fazer aniversário. Envenenem o bolo da gloriosa.
Tirem a mão da frente dos olhos, das bocas, dos ouvidos. Deixem os três macaquinhos fora disso. Não queiram imolações em praças públicas, não desejem para o outro o que não querem para vocês e suas famílias. Se os caras são ladrões, que paguem por isso, mas não com penas de morte pública, não assassinados em vida, alguns injustamente, acusados e julgados por Homens de Lei com figuras e nomes esquisitos e idéias mirabolantes.
Claro que tem gente roubando e muito. De outra forma, não haveria a tal Daslu, com tanta gente comprando tanto luxo. Honestamente isso poderia acontecer em um país que tivesse dado um salto de qualidade, de desenvolvimento e produção. Mas eu não estou vendo, se isso aconteceu por aqui, me avisem. De outro lado, conto que vejo por dia, sem andar muito na rua, umas 10 a 15 Porches Cayennes de 500 mil reais, cada, no centro de São Paulo. Ferraris, umas duas por dia; Mercedes, Jaguar, uns 4, 5. E Land Rovers, Bentleys, Audis, tinindo de novas. E os apartamentos de milhões, piores que castelos de deputados jecas? Quem compra? Não tem tanto jogador nem time de futebol. Foi trabalhando duro que nem eu e você? Não foi. Brilho nos negócios ou negócios de brilho, se é que me entendem.
Chega dessa hipocrisia de imolarmos louras, para dizer que ricos vão pra a cadeia. Não vão não. E não vão não é por nada. É que as acusações são levianas, erradas, coisas feitas para dar na imprensa, para policiais e promotores parecerem heróis encarnados. A coitada - hoje ela é uma coitada – da dona da boutique, condenada a 95 anos de prisão. Assassinos confessos, frios, ganham 20, 25 anos de pena. Políticos corruptos - esses, nem pegam nada!
Que Deus mantenha os bons tribunais para que os advogados possam retomar a ordem constitucional. Impunidade? Não. Justiça. É isso que está certo. O errado é a propaganda exaustiva de ações pirotécnicas que buscam nos impor.
Por favor, pensem enquanto é tempo, Depois que a gente é queimada na fogueira, é tarde demais. Só fica o pó. A cinza. O cinza.
São Paulo, arredores da data de uma gloriosa que não pode se repetir seja de que lado for.
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