Vou tirar o tatu da toca e mexer num assunto dolorido, as dores que cada um de nós temos, sempre, diariamente, no corpo, em algum lugar, irritantes, constantes, aqui e ali, por dentro, por fora, e que às vezes são só nossas, ou delas só falamos com íntimos.
Uma vez me disseram que determinadas drogas viciam mais do que outras porque elas teriam o poder de tirar momentaneamente as dores do corpo, que todos nós teríamos alguma, sempre algum desconforto. Mas a praga e a maldição seria descobrir isso e a sensação de ter de buscar a partir dali os momentos de prazer sem dor do primeiro dia. E essa sensação, esse estado, só poderia ser obtida novamente sempre com doses cada vez maiores. Essa sensação de alívio seria de tal forma inebriante que em uma semana a pessoa estaria totalmente dominada. O caso da heroína, das drogas de guerra, da morfina. O efeito passa; as dores voltariam ainda mais precisas, mais impertinentes, mais difíceis de ser esquecidas ali num cantinho, como às vezes tentamos – distrair a dor, ou nos distrairmos delas.
O caso é que as dores são nossos pontos verdadeiramente mais fracos, nosso calcanhar de Aquiles, o corte do cabelo de Sansão. Sejam as dores concretas, sejam as dores de alma, de coração, de sentimento. Elas têm muitos tipos: de linguagem, como a dor-de-corno; figurativas, como a dor-de-cotovelo. Localizadas e ao mesmo tempo gerais, como as dores de e na barriga, cada uma com sua culpa. As dores de cabeça, por exemplo: tem a frontal, ali na linha do nosso pensamento quando enruga; a lateral, aquela que arde e parece um tambor africano, ou um hip hop com alguém sapateando com o bico fino do sapato. E a maldita enxaqueca, quando você gostaria de calar o latido do vira-lata, amarrar a boca do bebê e poder simplesmente apagar o mundo, além daquela matraca ali do lado, a luz do dia e absolutamente todos, todos os sons – quando minutos de silêncio podem valer milhões. Psiu, fala baixo!
Deve ser muito difícil chamar-se "das Dores”. Uma coisa meio sacrifício. Capaz até de ser por causa de oferenda de família, e que se faz só com mulheres. Nunca ouvi falar em Pedro das Dores, João das Dores.
Só que as santas mulheres têm muitas dores diferentes dos homens, e também resistem muito melhor a elas; isso ficou patente até em tempos e termos de tortura. Há as dores de parto, essas que estão fazendo quase 85% das grávidas optarem por cesarianas. Há as cólicas menstruais mensais, verdadeiras facadinhas pontudas no inchado baixo ventre, ritmadas, agudas, longas. Como se alguém estivesse dando um nó apertado por dentro da gente. Para completar os seios inchados clamando "Ninguém esbarre em mim!” . E isso tudo pouco importa: nossos dias têm de ser normais, com trabalho e distribuição de sorrisos. Duvido que um homem consiga tal proeza.
Os pés das mulheres também doem mais, às vezes em prol de elegância, dos centímetros a mais, do combinar com o vestido. É difícil ver um homem sofrendo por causa de sapato apertado ou bico isto e aquilo. Para a mulher é um desafio, que superar dá um prazer quase sádico, ou mesmo masoquista. Ou vocês acham que essa onda de dar sandalinha de borracha em casamentos veio de onde? Só pode ser de alguém que passou por isso e resolveu como libertar-se. Prazer igual só o de fazer xixi na estrada. Há também as roupas apertadas, calças e elásticos que ficam esbarrando o tempo inteiro no fundilho e podem até cortar/ assar/escalpelar. Alguns tipos de soutiens e corpetes podem dar câimbras. Mas aí estaremos falando de moda. E da loucura humana.
Há várias teses a respeito de por que sentimos dores, como a que diz que dores são o preço que, humanos, pagamos porque nos levantamos, não andamos mais de quatro (no sentido animal), pela nossa bipedestração, por andarmos sobre duas pernas para avistar o horizonte, mas sem a estrutura que ajude essa luta constante contra a gravidade, contra micronésimas fraturas diárias, desgaste, fadiga do material. O peso todo mantido apenas por uma coluna de tijolinhos, separados por discos, numa engrenagem que nem sempre é úmida e macia, mas frágil e pouco flexível. Com desgaste do tempo como ele passa no relógio, e embranquecem os cabelos.
Chegamos então nas limitantes e desesperantes dores nos ossos que fazem com que muitos de nós sejamos até verdadeiros videntes meteorologistas, capazes de prever o tempo pelas dores. Há os joanetes que avisam da chuva e do frio melhor do que os galinhos portugueses. As dores nas juntas. Junta todas e joga no lixo, dá vontade, quando estas limitam nossos movimentos, tornando tudo muito mais difícil e mal humorado, mais penoso, ai, ai, ai. Eu tenho dessas, nos meus ossos, ossos que tenho de monte, mais que você, com umas pontinhas ali e ali de nascença, além de uma fragilidade precoce demais para o meu gosto. Agulhas para que te quero!
Tem dor que não fica ali, não vive muito tempo, não se cria. Aparece e quando você vê já está no hospital, em geral sendo levado por uma alma boa, e mandando extirpar aquilo, aquele mal, tipo apendicite, tipo unha encravada, pedras, pedregulhos e gravetos. Não dá nem tempo de pensar muito. Manda arrancar.
Tem as dores do frio, quando a gente se contrai tanto que até dói. As do calor das queimaduras, de se esquecer ao Sol, ou do óleo da panela. Apoquentam-nos até ser sanadas.
Ou algumas dores de dente, além da sensibilidade do dia-a-dia, do frio, do calor, da pedra no meio do arroz no prato. Tem dor que dá e logo mata, como a do coração. E a que mata aos poucos, como as dores na alma, as da traição descoberta, as dores da paixão perdida, as dores de apreensão do peito – várias delas dores sem analgésicos, e que curadas apenas por si ou por outros sofrimentos deixam sequelas, uma sobreposta à outra, cicatriz da cicatriz.
E tem aquela dorzinha danada que aparece de quando em quando e fica tentando te dizer alguma coisa. Ei! Olha eu aqui! Sou fácil de ser tratada. Estou querendo dizer isto, aquilo. Sou o sapo que você engoliu ontem e vai ficar remoendo. E, mesmo assim, você convive com ela durante meses, sempre com alguma justificativa, sempre muito particular. Ou com um enfado natural quase que poético, teatral, tendendo à autocomiseração. Será que gostamos de sentir dores? Será que precisamos delas para nos sentir vivos? Por que até as procuramos? Plásticas, tatuagens, piercings não são uma forma de dor atraente? Quem faz, diz que sim. Por isso não quer parar, quer mais. Esportes radicais não procuram machucados? Atletas não testam seus limites com as dores?
E o Canto de Ossanha, de Vinicius/ Baden, bem falou!
Pergunte pro seu Orixá
O amor só é bom se doer
Pergunte pro seu Orixá
O amor só é bom se doer...