São Paulo, Parque Encantado, 2009. Sem CPMF, sem eira, nem beira.
Respeito é bom, e a gente gosta. Respeitem ao menos os nossos bigodes brancos, nossa história, nossas lutas. O tobogã da vida deve ter coisa melhor para se ver, para escorregar. Circos originais são bem mais divertidos e populares.
Passamos a semana inteira vendo o Circo Nacional pegar fogo, com os animaizinhos adestrados cumprindo ordens para ganhar comida e os palhaços borrifando sandices nas nossas cabeças. Assistimos a um misto de comédias com filmes de terror. Tinha mulher e homem barbado e bigodudo, pernas-de-pau, equilibristas pouco graciosas e cobras de duas idéias. Cabelos e pelos para tudo quanto é lado. Nas cabeças, nas perucas, tingidos, emaranhados, puxados. Arrancados e desgrenhados. No picadeiro, fim da picada, leão rugiu com leoa, ou ex-leoa, na Sala de Espelhos, e só quem ficou olhando bem o show, até o fim, viu que era só um tolinho, um gatinho bobo. E os mágicos sumindo com os processos e com as imagens? Teve contador de piada, só podia ser piada! E ilusionistas, muitos.
Que mímica exata vocês gostariam de fazer para eles entenderem? Poderíamos usar as mãos, os dedos.
Não faltou Frankenstein na festa, remontado, babando ódio. O carrossel girou, abaixando e subindo, com coronéis e jagunços. Bichos da seda teceram o novelo. Os carrinhos de bater eram guiados por eles próprios (enfim, melhor do que quando estão bêbados nas ruas).
No trem-fantasma, apavorados a cada curva, nós. Ou tomando bala igual aos patinhos amarelos que ficam passando ali na frente para ser derrubados. No alvo.
O país vai para a lona desse jeito. Imagine-se com uma maçã na cabeça, em frente a uma parede, e um destes seres que estão habitando nossos jornais te apontando uma flecha. Olhos tampados, cegos como estão, míopes, nos despedaçarão com a mira incerta com que atiram dia-a-dia nas suas próprias biografias, cospem fora do balde.
Irrevogável é isso: está caindo a arquibancada da platéia e estamos saindo feridos e traumatizados dessa experiência. Quem está pulando igual pipoca somos nós, pasmos com o show de sombras, sem luzes. Com sons de discursos vazios. Anões sem orçamento. Senadores sem vergonha. Deputados despudorados. Teve ainda, para completar nossas descrenças, doutores abusados e que abusam da fé e dos corpos alheios, pilantras de todos os naipes, aqui e lá na... Islândia! Que show! Que semana!
Não é à toa que tive pesadelos noite dessas. O Lula me apareceu para atrapalhar o sono – e, como tudo o que ele diz, mais uma vez não me lembro de ter qualquer sentido o que falava. Talvez que não sabia. Talvez defendesse Dilmão ou ditasse a carta que mandou ao Bigodão Bravo, que ia, mas não foi - versando sobre o Bigodão Arquivo Confidencial. Será que vocês conseguem imaginar os segredos que esse aí guarda e acena que contará caso o retirem de sua cadeira? Como eu queria ser uma mosquinha para ouvir as reais conversas entre eles, como combinam quem vai fazer o quê, quem cuida de quem. E, claro, quanto custará!
No meu pesadelo, o presidente ria. Acho que no seu também. Menosprezava os e as que saem pelas tangentes, antes do Barco do Amor virar. Ele joga o jogo com quem lhe dá a bola ou canta antes o truco. Manda espremer laranjas que o desafiam, e fica muito nervoso quando essas laranjas entornam ou engrossam o caldo. Algo me diz que o homem-foguete está sem direção, e em cima de um salto altíssimo. E olha que ele não tinha ainda nem se enfeitado com colares de folhas de coca, Deus! Índio cosmopolita - elogiou Morales!
Eles bebem e a gente é que fica tonto.
A gente ri, quando deve chorar. A gente chora quando deveria gargalhar ao assistir a Os Patetas. A tenda está armada. O que tem de gente engolindo espadas por tudo quanto é lado, engolindo fogo e cuspindo sapo, encantando cobras!
Mas acho que o show deve continuar ainda por um bom tempo. Elementos e novos atores e atrizes estão entrando em cena, abrindo as cortinas, mudando os figurinos e as cores dos times. Trocando de lado no campo. Com novas convocações, bordões, cortes de cenas e cacos de texto de improviso.
Neste Circo, fala-se tudo. Não há ensaio. Só improviso. Melhor não levar as crianças ainda, porque não há qualquer fiscalização que possa evitar acidentes nas instalações da montanha russa que instalaram lá na planície.