Samaúma
 



 

 



 



Marli Gonçalves, jornalista. Desde muito cedo precisou se defender sozinha, e sempre se meteu em encrencas. Porque dá um Cadillac último tipo para não brigar, mas uma frota deles para sair girando em hélice quando provocada, para não deixar barato. E não suporta ser pressionada; nem tocada, se autorização não tiver sido dada. Também não gosta que toquem suas coisas. Materiais, claro!

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"Covardias e outros Vandalismos"


 

 

Marli Gonçalves *
15 de abril de 2009

São Paulo, pré-história, invasões bárbaras, crimes sem rosto, de 2009.



 

Que é que você acha de quem arranha o carro de outra pessoa com chave ou prego só para sacanear? De quem quebra e chuta as latas de lixo nas ruas? E de quem detona orelhões, quebra vidraças, põe fogo em quem dorme? Que dizer de quem te ataca pelas costas? De quem manda matar?


- Está todo mundo louco, ôba! - Ôba?!?

Já foi o tempo em que podíamos festejar um pouco a loucura humana, que hoje beira perigosa insanidade. Não há mais ética nem na vingança, antes um motivador de grandes tramas, desafios, e até inteligência, perspicácia e sangue frio. Não há mais o prazer dos olhos cruzando os olhos inimigos, a grande vitória final. Vingança, que dizíamos que era um prato frio, virou foi um fast-food de péssima qualidade. Hoje uma pessoa chega e dá um tiro nas costas do outro, paga para matar a própria mãe e jogar na ribanceira, atrai ex-amigos para emboscadas; é capaz de sequestrar e ferir o filho de um desafeto para mortificá-lo em vida.

O princípio é o mesmo de quem pega um prego ou uma chave e risca o carro de outra pessoa, que achou bonito, ou porque quis mostrar poderzinho, raivinha. Aconteceu comigo essa semana. Um taxista safado fez isso, riscado bem fundo de ponta a ponta da lateral, às quatro e meia da manhã de sábado, porque queria mostrar seu "pudê", talvez descarregar suas frustrações. Um taxista ali do ponto em frente à padaria metida a boa e besta Bella Paulista (anote e cuidado, 24 horas: esquina da rua Haddock Lobo com rua Luis Coelho, na região da Avenida Paulista, São Paulo).

Bem na porta do tal lugar. Então não dá nem pra dizer que, inclusive, o choferzinho o fez sem conluio com o mesmo segurança sonso com quem, antes de parar, conversei e pedi que, se precisasse, eu simplesmente tiraria o carro que, diga-se de passagem, não atrapalhava ninguém. Às quatro e meia da manhã digamos que havia mais vagas que táxis! Antes que esqueça de explicar: eu tinha ido a uma festa com vestimenta para lá de especial, salto muito alto, e só queria comer um sanduíche em paz antes de dormir. Arrumei foi um bom prejuízo, e um tema para pensar.

Esse cara que fez isso é o mesmo que pode muito bem sair derrubando orelhões, dando tiros em vidraças, tentando atropelar velhinhos nos sinais. Imagine que você pode pegar um táxi e esse monstrengo ser o motorista. Esse é o tipo que atropela e mata ciclistas, cachorros, e possivelmente até tenha como hobby envenenar gatos. Tudo o que ele faz é traíra, não dando o direito de defesa. Assim age gente assim. Não tem coragem para encarar; encara um objeto.

Onde anda a dignidade da coragem humana? O que o coitado do meu carro tem a ver com a raiva do homem comigo? Como já disse, tenho 1m61, sou pequena. Sou brava, mas para saber isso tem de me encarar, coisa com a qual não tenho problemas, desde que frente a frente. Tudo bem, que meu irmão é grande e estava comigo. Mas, digo eu, graças a Deus não flagramos o safado descarregando sua raivinha! Só vi o estrago no dia seguinte. Eu não gostaria de ver minha reação - por muito menos já deixei minhas garras cravadas por aí como lembrança. Detesto os covardes, tenho nojo deles. E conheço e detesto minha própria ira. Mas a encaro. Rodo a baiana, as sete saias, subo nas tamancas, viro o braço.

Mas vejam o que anda acontecendo, nas ruas, nas casas, nas escolas! Brigas de morte, revólver, faca, envenenamentos de famílias. Uma menina de 14 anos, para se vingar do ex-amante, sequestrou a filhinha dele, colou seus olhos, sua boca, seu sexo, com Super Bonder! Uma filha mandou atirar e jogar num precipício a própria mãe que, tinhosa, so-bre-vi-veu! Até o casal de meninos do Sul, dois bobalhões que brincavam de ser nazistas, foram mortos em emboscada armada por outros meninos nazistas, fazendo cara de gente ruim, comandados por um jeca doido e desequilibrado abrigado a centenas de quilômetros num lar classe média, com título de universidade. Quantos casos não vemos, lemos, sabemos todos os dias? Qual o valor da vida, da dignidade? Que sentido de honra pode ser esse?

Que se explodam os outros. Assim pensa aquele pentelho que passa no sinal fechado, que buzina igual maluco no carro de trás, que dá trote de madrugada, inclusive para os bombeiros, que fura a fila, que sabota remédios. Assim, exatamente assim, pensa o político corrupto, o médico descuidado, o padre pedófilo, a babá violenta, o descalabro policial, o estuprador e o ladrãozinho de ponto-de-ônibus. Contudo, se eles caem na cadeia, dentro da Lei do Cão e do pouco que ainda resta da romântica tradição bandida, o julgamento - ali - é sumário. E até sexual, comidos que são até as entranhas. Porque se tem coisa que bandido que é bandido não gosta é de covardia. E de dedos-duros, outra espécie em franca expansão nos desatinos sociais que avistamos nesses duros tempos. Bandidos de verdade têm códigos.

Não é a primeira vez que me acontece uma coisa esquisita assim, claro. Vou contando aos poucos como é que acabei me formando nessa faculdade da vida, e garanto: não foi nem é fácil. Mas é a primeira vez que eu consigo ver que há um perigo, um fio tênue, entre o viver e o morrer. Entre o matar e o sobreviver. Que estamos de volta aos tempos mais primitivos, medievais requintados. Que estamos mesmo numa selva.

Salve-se quem puder?