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Marli Gonçalves *
29 de Setembro de 2009
*São Paulo, frio, chuva, vento, obras, poeira, enchentes, trânsito, buracos, rios poluídos, catracas e caçambas, mocréias e lacraias, ratos e baratas, leis proibindo isso e aquilo também, 2009.
Qualquer coisa que eu reclame, ou na verdade ouse tentar reclamar, logo ouço de alguma pessoa que deve ser o stress. Diagnosticado: você precisa descansar. Segue-se então uma longa ladainha sobre os problemas desta pessoa, já que os meus acabaram de ser resolvidos.
Estou começando a achar, quase ter certeza, que não me é dada a possibilidade de ter problemas como os comuns mortais. Fico me fritando dentro de minhas calcinhas, mas preciso manter o bom humor, a jovialidade e a alegria que me caracterizam, porque senão a coisa piora. E muito. Mas também não tenho muito tempo nem para pensar em refutar, dizer que não é bem assim. Porque aí tenho que já correr para ouvir e acudir quem imediatamente começa a me contar coisas sempre muito mais graves, sérias, tristes e desgraçadas que as minhas, histórias de arquear as costas. Dramas de molhar lençóis.
Os meus problemas, segundo os que me aconselham, são simples de resolver. Pronto! Afinal, não tenho filhos, marido, não tenho com o que me preocupar. E sempre dizem isso com aquela cara de certo enfado, de "Ah, coitada!” e de quem acha que eu não tenho do que reclamar desta vida, que reclamo de barriga cheia. Basta que eu tire férias, descanse. Aproveitam ainda para logo em seguida me indicar e descrever lugares e cenários paradisíacos que eu devia conhecer, e que não sei o que estou perdendo, em geral com 5 estrelas. Como que não conheço ainda? Que falha! Que ignorância, que falta de sensibilidade, que vida monótona, que falta de curiosidade! O que essazinha tanto faz que não tem tempo para nada, que não sobra dinheiro? – leio nos pensamentos mais complexos de quem não me conhece, digamos, muito exatamente.
Vocês querem que eu fique calma? Como? Querem que eu vá viajar - linda e maravilhosa? "Você precisa aproveitar a vida” – também decretam. Com que dinheiro? Quem vai pagar minhas contas, as já existentes e as que estariam nascendo ali antes de por o pé na estrada, igual a trepadeiras robustas e cheias de juros? Para eu botar o nariz para fora, além das malas, precisaria - só para começar - deixar organizadas as casas todas, a minha, a do meu pai, dos agregados e de seus empecilhos, mandar a vida pro débito automático da conta sempre no buraco, no subsolo. Sempre. Contas bancárias nas profundezas.
Posso até fazer aquela gracinha de perguntar: "Que bom, já me comprou a passagem, a estadia, a alimentação? Pode cuidar das minhas coisas? Meu pai tem 91 anos, mas não dá trabalho. Só precisa que alguém fique por perto”.
Mas é capaz de acharem que estou sendo sarcástica e arrumando desculpas para não descansar, não viajar, não viver a vida. De novo, lendo pensamentos: "Essa aí reclama porque quer. Imagine se ela não pode sair e se não tem com quem deixar as coisas? Pensa que é insubstituível...”
Difícil vai ser entenderem que estou muito às voltas com empregadas que sempre descansam nos feriados e domingos, com o seguro-saúde que envenena, com os envelopes de contas que entram, são entregues e caem de todos os lugares como neve e enchente, com as prestações e contas que precisava fazer, mas não agora. E aquelas que já fiz e não consigo matar. Gente que deve e não paga. Gente para quem devo e que cobra. Dentes, ossos, nervos, coração, pulmão - tudo sente o tranco. Cabeça, corpo e membros. Não era para ser assim. Mas é. Fora de programação.
Gente, ouvido não é penico, nem dá para dar descarga. Sei disso. Por isso, em geral calo e digo tudo bem, amém. Mas sempre me ocorre a dúvida de como o povo faz, como se vira e como paga tantas viagens, carros, casas, recreios e recreações. Feriado aqui não é feriado. Vira fuga desesperada para qualquer lugar, seja com pedágio, avião, carroça ou aerotrem. Falam-me das ofertas de passagens aéreas. Claro, lindas, se você tiver tempo de procurar, comprar e a previsão do que vai fazer e que horas vai fazer, algumas centenas de dias antes. E previsão não é coisa que combine com vida de jornalista, que é como ganho meu suado pão de cada dia. Isso não é para mim, para quem as coisas não caem e nunca caíram do céu. E, se caírem, poderão me machucar, de novo. Pode ser um piano, algum maluco ou um deputado perdido, certas pessoas.
Para viajar correndo, gastar e ficar mais cansada do que já estava, não tem graça. Para ir para qualquer lugar chinfrim, me poupem. Para ficar devendo favor, me esqueçam. Para pedir por favor, só sei fazer pelos outros. E não vou dizer que São Paulo fica uma ótima cidade quando vazia, porque não é verdade. Fica um porre.
E ficar também exige. Digamos que investimentos são necessários para se por o pé na rua. Cinema + pizza; show + jantar; parque + sorvete, + carro, + estacionamento, + gasolina, + gorjeta, + café. Contando que a roupinha já está no armário, já que nem elas têm tido uma programação social muito intensa. Ainda bem que não uso a dita moda de estação! Dito a moda e a estação.
Ando cansada de hipocrisias e das meias palavras, algumas que já sou obrigada a manter apenas por amor à profissão ou por educação. Acabo me isolando para não ofender ninguém. Mas que mania é essa de achar que, porque tenho bom humor, não tenho problemas? Por que minhas dores seriam diferentes das outras? Se você chegar e perguntar e eu responder, veja bem, não seja displicente: é porque preciso de sua atenção, do seu carinho, de pelo menos dois minutos do seu olhar. Fala que eu te escuto. Tudo bem. Mas me dê uma chance nesse talk show. Não faça como o Jô Soares, que desbarranca qualquer um. Aliás, fico esperando o dia que ele pegue alguém mal humorado e que lhe aplique um bom sermão, daqueles que não irá ao ar, mas que ficaremos sabendo. Que apareça a gravação no YouTube.
Vocês querem que eu fique calma, como? Já vivi para ver tudo isso, que pensava que poderia ser diferente e mais leve. Como diz um amigo, ver que a porta do banheiro nunca é transparente, para você ter pelo menos um lugar para se isolar. Já vivi para saber que a gente só é bom enquanto é bom; o dia que não puder ser bom, vira péssimo, pior que piolho. E ser bom significa poder dar, dar, dar, fazer, ouvir, atender, concordar, ajudar, manter.
Não dá para ficar calma. Essa semana acaba mais um mês. Com mais três, vira 2010 e aí, e aí, e aí. Viram o troca-troca? Parecia jogo de cadeiras, falta uma! Um bando de neossocialistas, Talitas, comunistas, mas não teve fila para entrar no PT, pense bem. È de chamar a atenção. Faz tempo que o PT só tem o de sempre, aquela gente e jeito Cardozo Berzoínico Top-Top de ser. E o chapelão do bigodão de Honduras que agora virou nosso afilhado? E até o bom José falando em armamentos nucleares?
Esse povo está tomando alguma coisa. Acho que xarope dos bons. Só pode ser. Eu estou tomando analgésicos e um bom antidepressivo, além de vitaminas. Vou começar a pensar em tomar Plasil, para não enjoar com o movimento da barcaça. E Viagra, ou qualquer Hormonex para embalar o escorregador. |