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Marli Gonçalves *
12 de março de 2009
São Paulo, meados do mês das reflexões, 2009
Tenho medo de algumas coisas, entre elas a de esquecer tudo, quem sou e o que fiz - o que vivi. Mas ultimamente tenho visto gente louca para ter um ataque de amnésia: ou, melhor ainda: se fosse possível trocariam de personalidade de uma vez por todas.
Confesso que vivi. Mais do que lembrar Neruda, as múltiplas experiências acumuladas nessa vida são o que lhe dá graça, o que traça seu lugar na história, e o que nos faz acumular algum conhecimento. É preciso ser forte para encarar o passado, viver o presente e construir o Futuro. Rever os grandes amores; se possível for, até revivê-los. Entre quatro paredes, na frente de um espelho, apontar para si próprio e admitir que errou ali, aqui, mas acertou lá e naquela outra ocasião. Que decidiu certo, quando tomou esta ou aquela estrada, ou mesmo quando empacou no meio. Admitir que amou muito mais do que foi amado, que esperou recompensas que não vieram, mas que também não haviam sido prometidas. Lembrar, mesmo que esparsamente, quais eram as condições que eram dadas. Se seguiu um ídolo de barro. Por que atravessou o rio. Por que naquele dia disse não?
Estamos nesse momento. Seguindo religiões ou não, há o que se chama de momento adequado para reflexões. Quando a gente se enfia dentro de um ovo de Páscoa, atrás do bombom ou do brinquedo em seu interior, e vai quebrando aquelas casquinhas, até o fim. E depois sacode o papel do embrulho para comer as migalhinhas. Não é fácil, e chega a machucar - principalmente no capítulo "arrependimentos”. Arrepender-se de qualquer coisa é terrível. Porque não dá para voltar o tempo. Então, dá vontade de esquecer. Aleluia! Aleluia!
Só que em determinados casos, estou vendo pessoas não só querendo esquecer o que fizeram e viveram como querendo que a gente também esqueça, nem que seja na marra. Gente querendo mudar de personalidade, de cara, de história, cuspindo onde comeu e em quem comeu. Aí é estranho. Não é só amnésia, essa palavrinha bonitinha e possível. Pesquisei e descobri que chama amnésia psicogênica – quando existe o quadro de pantomima, na qual o "doente” afirma não se lembrar de certos acontecimentos para, no fundo, não se prejudicar.
Na política atual há diversos casos desses. Um deles, exemplar, é o de Dona Dilma Rousseff, a encarnada. Daqui a pouco vamos vê-la fazendo tricô e crochê, costurando um casaquinho, e posando para fotos especialmente iluminadas para lhe dar um ar cândido. Não sei como ainda não arrancou um neto da filha, o que lhe cairia bem, avozinha, na empreitada em que parece estar mesmo acreditando, e aí reside o perigo. Ela é ótima para ser construída, mas fácil, fácil de ser demolida. Outro dia, amigos, tentando tratar uma repórter como se fosse uma bolinha de gude, teve um super ataque de amnésia. Dinheiro? Cofre do Adhemar? Ação armada? Guerrilha? Treinamento de guerra? Sequestro de Delfim Netto? Não vi, não sei... Quem sou eu? Quem é que disse? Deve estar delirando... Não sei dos dois milhões de dólares. Dinheiro, que dinheiro? Armas? Não estava lá... Escreve aí: nego peremptoriamente...
Ela se irrita fácil. Ou melhor, máscaras caem fácil. Despencam. A cola desgruda. E eu não entendo porque querer negar sua própria história.
Outro dia, ainda, foi o pequeno Cristovam Buarque, o senador. O que foi e não foi e não foi, foi. E ficou balançando de um lado para outro. Propôs um plebiscito para acabar com o Congresso. Para acabar com ele, diga-se de passagem. "Era só uma ironia” , argumentou, depois que o mundo caiu em cima dele.
Tem outros que acham que tudo é possível. Alguém me disse, e eu estou rindo até agora, que o Palocci vai ser candidato ao Governo de São Paulo com discurso ambientalista. Precisamos, e rápido, apresentar a ele algumas espécies de plantas e umas baleias, embora ele goste mesmo é de sereias. E a Marta, com aquela sua aura simpática, se fazendo de xarope e anunciando que vai coordenar a campanha da outra. Fico imaginando as duas numa sala, discutindo a relação, que doces!Eu achava tão legal quando Marta ia à tevê, defendia a liberdade sexual, anal, genital, oral! Mas ela quer esquecer. Daqui a pouco a veremos com lenço de beata, recatada, na missa do padre Marcelo Rossi, entoando o Cântico dos Cânticos, cantando alegremente. De um lado, de mãos dadas com Dilmão. De outro, as mãos sem calos de Chalita, o Gabriel.
Nessas, antes que reclamem que só falo deles (Eu posso! Já fui um deles!), até o Fernando Henrique Cardoso andou falando em prol da descriminalização da maconha. Que coisa linda, moderna!!! Mas, engraçado, lembram quando o Gabeira, e era FHC o presidente, sugeriu que o cânhamo fosse utilizado de forma industrial, o que aconteceu com as sementinhas que ele havia trazido? Coitadinhas. Ficaram presas. E não se falou mais no assunto. Pobres sementinhas! Esqueçam o que escrevi, vá lá, que todo mundo pode melhorar.
O nosso Serra! Cadê aquele homem seguro de si, torcedor fanático de futebol (sim, senhor, a bola é redonda, e aquele negócio com rede é onde ela deve entrar; as cores do seu time são verde e branco), amante da boa vida, dos prazeres da mesa e da cama (aquele negócio que tem um colchão, em geral retangular, e que fica no quarto)? Vocês também o estão ouvindo assobiar a cada bobageira que sai do secretariado? Daqui a pouco em campanha, escuta só: ele vai começar até a contar piadas.
Assim por diante, podemos enumerar desde o antiamericanismo do "cara”, que agora só falta gozar quando vê o Obama, até a Igreja falando contra preservativos, contra sexo fora do casamento, contra a miséria, pelas criancinhas, mas não pelas molestadas pelo poder emanado nas sacristias desse mundão de Deus. Gente, Obama é ainda moleque, chegou ao poder um dia desses e ainda não esqueceu quem é, e espero que nem queira esquecer. Daí ele achar que o Lula é o cara, como achávamos durante muito tempo do Lech Walesa, o esquecido. Isso tudo não tem a menor importância fora do contexto – ninguém precisa fazer tanta elucubração a respeito. Aconteceu. Virou manchete. Fatos &Fotos.
Hoje, ter amnésia é mais difícil do que já foi. Tem gente gravando conversa com caneta, gravando vídeos com botões, grampeando e vigiando até o último fio de cabelo. Posa de virgem casta e no outro dia aparece aquele vídeo forte, com a boca cheia. Nega que comeu a nega, e ela mostra o DNA, que a ciência também ajuda. Tem a história implacável, e o testemunho dos que viveram juntos outras aventuras.
Digo isso, tranquila, porque sei de gente assim, tenho de conviver diariamente com quem de dia é Maria e de noite João, ou vice-versa. Dizem que a praia dele não é aquela, da boca para fora; dizem que foram sem nunca ter ido, ou tentam dizer que tudo não passa de fofoca alheia, de despeito, intriga da oposição.
Ando de saco cheio de toda essa hipocrisia. Vamos parar? Malhemos os Judas! |