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Marli Gonçalves *
São Paulo, 11 de dezembro de 2008
Se esperar consideração e reconhecimento nada melhor do que começar a se olhar no espelho; ou sentar, para esperar
A quem você presta contas na sua cabeça? Quem é o merecedor de seus esforços? Conheço quem ainda faz coisas o tempo inteiro pensando nos outros, o que os outros vão achar, pensar ou deixar de achar e pensar. Isso às vezes beira o ridículo de fazer até para que o vizinho ache isso ou aquilo. A sociedade! O seu “meio”. Artistas não podem criar para críticos, embora a recíproca, infelizmente, exista. Mulheres deveriam fazer as coisas para si e não para outros e outras. Afirmo isso por ter cansado de esperar durante toda uma vida, em muitos momentos importantes. E ter me frustrado muito com isso, até aprender há algum tempo a achar normal até quem me tache de “exótica”, sui generis, palavras lindas. Usadas na falta de outra definição para me acharem “diferente”, quase anormal e esquisita, nadando contra a corrente.
Pensei nesta questão porque tem sido muito freqüente ver e ouvir pessoas próximas vivendo tristes e decepcionadas com o que definirei como a “falta de eco” do mundo, não só aos seus atos, feitos e fatos. Porque fizeram ou também porque deixaram de fazer. Mas reclamam atenção, consideração, carinho e respeito da parte de quem lhes é mais próximo, seja família, seja no trabalho, enfim, no seu quintal. Do marido e da esposa, esperam compreensão e agradecimento; dos filhos, compreensão e agradecimento; dos amigos e amigas, compreensão e reconhecimento; dos cachorros e gatos, compreensão, agradecimento e reconhecimento e, nesse caso, também se requer obediência.
Vi pessoas comprarem carros, roupas, andarem com determinadas figuras, viajarem para determinados locais e em determinadas épocas, freqüentarem lugares onde possam parar seus carros bem na porta, para serem vistos, com aquelas roupas, com aquelas figuras. Esperam aplausos, suponho. Já ouvi pessoas jurarem que se darão bem na vida, “porque aí eles vão ter de me agüentar”. Exemplos não faltam. Status é comprar uma coisa de que você não precisa, com dinheiro que você não tem, para impressionar pessoas com as quais não deveria nem ao menos se importar.
A frustração, amigos, é inevitável. E pode jamais ter cura em alguns casos, trazendo amargor, culpa e ressentimento. É como pensar em uma jogada perfeita, mas se não puder combinar com o goleiro... Claro que podemos dedicar nossas vidas, atos, minutos e segundos para quem bem entendermos, mas antes, dedique-os a você próprio, nem que seja na frente do espelho escovando os dentes.
Acredito firmemente que é assim que nascem os líderes, os ídolos, os inventores, os grandes artistas, as grandes sacadas, os grandes gênios.. Do destemor, do ímpeto, do impulso verdadeiro e original, da fonte.
Sofri durante muito tempo porque meu pai e minha mãe, pessoas simples, nunca entenderam e souberam bem qual era minha atividade, o que significava para mim cada dia do trabalho de jornalista, uma reportagem, às vezes até o perigo em que me colocava atrás da notícia. Minha mãe morreu sem entender. Até hoje meu pai comenta coisas que ouviu nas ruas ou na tevê, sem se dar conta de que muitas vezes fui eu mesma que fiz esse assunto aparecer. Mas hoje eu não sofro mais. Ou melhor, não sofro muito. Porque, cá entre nós, tem coisa melhor do que o gosto do reconhecimento, da consideração? Mas, pelo que aprendi, observando os casos mais variados, isso não importa realmente. Pais sempre terão orgulho de filhos, mesmo que não deixem transparecer, não entendam bem que raios eles fazem, e deles gostam de falar, praticamente acontecendo o que tiver que acontecer. O ângulo em que eles nos vêem (ou que nós vemos pessoas amadas) é sempre o mais favorável.
Nas famílias simples, penso que esse deve ser hoje um problema ainda mais comum, principalmente com a proliferação absurda de faculdades que vendem diplomas e cursos como carnes nas placas de açougue, mas que facilitaram o acesso ao diploma “superior”. Talvez não tenhamos tantos cientistas porque eles precisariam, ah, coitados, primeiro explicar em casa suas atividades e desistiram.
Há possibilidade de aplicar essa atitude geral, que poderia até ser confundida inicialmente com um pouco de egoísmo, em tudo. Pense o que você vai pensar, e como vai se sentir. Não se omita da responsabilidade, nem direcione aos outros suas decisões. Tente. O Segredo não é só um livro que deve ter deixado o bolso do seu autor abarrotado de dinheiro. O Segredo trata, no fundo, da evidência, da raiz do pensamento. Daquela ordem sua - totalmente sua - ao seu cérebro. Não sabe se telefona? Não sabe se aceita? Não sabe se procura? Não sabe se separa? Se vai ou se fica? Não sabe se quer ter um filho? Não sabe se vai ou racha? Se dá ou desce?
Se parar para pensar o que os outros dirão, como saber a medida da sinceridade da resposta, quando esta vem? Não dá para saber se vai ter a ajuda prometida na hora H, enquanto essa hora não chega. E, quem sabe, já disseram, faz a hora, não espera acontecer. Mas, mesmo assim, se depois de tudo isso, ainda estiver em dúvida, dedique seus atos ao seu Deus. Fazer por Deus, pelo menos, é mais nobre.
E não é que é capaz d`Ele reconhecer seu esforço e te dar o sucesso?
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