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Irm Marcos
Coimbra
Não acreditamos mais em eleições livres e democráticas
no Brasil, pelo menos na conjuntura atual. O quarteto "poder
econômico- institutos de pesquisa- veículos de comunicação-
eleição eletrônica" não nos permite
acreditar. Não é necessário haver eleição,
nem apuração para conhecer os resultados, em termos
gerais. O que está em jogo na realidade é a disputa
para os cargos não majoritários. No ano em curso,
quem serão os novos vereadores, no lugar dos que não
irão candidatar-se, por alguma razão.
Os municípios estão em ebulição com
a eclosão da campanha eleitoral para prefeito e vereadores.
Está em plena vigência a possibilidade de recandidatura
dos atuais detentores do poder municipal, sabiamente alcunhada de
reeleição, pelo povo, pois é muito difícil
um prefeito no exercício do cargo, sem necessidade de pedir
licença ou desincompatibilizar-se, com pleno domínio
da máquina administrativa, perder a eleição.
Recursos financeiros, escassos para os outros candidatos, são
abundantes para os que estão no poder. As empreiteiras e
fornecedoras dos órgãos municipais são pródigas
em concessão de doações aos atuais prefeitos,
interessadas em ganhar licitações e concorrências
milionárias, hoje e na expectativa do amanhã. São
ainda milhares de cargos em confiança, ao dispor de S. Exa..
Os comissionados sabem que perderão seus cargos, caso não
apoiem a sua postulação a permanecer no cargo. E a
legislação eleitoral é tão rígida
que obriga qualquer servidor público a afastar-se do cargo,
noventa dias antes do pleito, para evitar a possibilidade de utilização
do cargo para influenciar eleitores. Agora, com a aprovação
da emenda constitucional que permite a recandidatura, o presidente
da República, os governadores e os prefeitos podem permanecer
em seus cargos. E o limite que separa a atuação lícita
do prefeito, por exemplo, e sua ação como candidato
é tênue. E a justiça eleitoral fica em dúvida,
pois ela aplica a lei formulada pelo Congresso que é, propositadamente,
omissa. Na dúvida, quase tudo é permitido.
E a atuação da mídia também é
altamente preconceituosa. Há ligações incestuosas
entre proprietários de veículos de comunicação,
bem como de editores, jornalistas e vários candidatos, em
especial aqueles que estão no poder, com o privilégio
de destinar verbas vultosas de propaganda e publicidade, da ordem
de centenas de milhões de reais para quem desejar. Desta
forma, basta acompanhar o noticiário diário das revistas,
jornais e TV, para verificar quem apoia quem. Há candidatos
que ocupam meia página, com direito a foto, todos os dias,
com destaque para os atuais prefeitos. Outros aparecem de vez em
quando. Os demais são candidatos secretos. Só aparecem
quando é obrigatório ou para serem atacados.
Assim, fecha-se um círculo vicioso. Os candidatos detentores
de maiores recursos aparecem mais nos meios de comunicação
e na propaganda eleitoral. Os "outdoors" são democraticamente
sorteados, porém quem não tem recursos próprios
ou dos empresários, não consegue pagar seu aluguel,
sendo obrigado a abrir mão deles para os abastados, que acabam
ficando com todos. A seguir, os institutos de pesquisa, realizando
seu mister, apuram o óbvio, isto é percentuais maiores
para os "riquinhos" e menores para os demais, as vezes
nem citados, ou mencionados com percentuais ínfimos. Como
a maioria das pesquisas é paga justamente pelos que possuem
recursos em abundância, as diferenças são acentuadas.
O povo, geralmente, não aprecia votar em candidato que não
tem condições de vencer, votando nos que estão
na frente nas pesquisas, fechando-se o círculo vicioso, não
virtuoso.
O horário gratuito eleitoral também não é
igualitário. O tempo destinado aos candidatos a prefeito
é calculado em função da bancada federal de
cada partido, não no dia da promulgação do
resultado, mas sim numa data aleatoriamente escolhida pelos políticos,
de acordo com sua conveniência. E as alianças eleitorais,
por milhões de razões, nem sempre as mais éticas,
proporcionam a alguns candidatos mais de sete minutos. A outros,
pouco mais de 30 segundos, por dia de apresentação.
Os debates são desprezados pelos candidatos que estão
na dianteira, com medo de mostrar sua fragilidade e cair nas pesquisas.
São as regras do jogo impostas pelos oligarcas no poder.
No Rio de Janeiro, já está decidido, antes da realização
das convenções, que os candidatos reais são
o atual prefeito Cesar Maia, que deverá ser reeleito, com
a máquina da prefeitura nas mãos, os candidatos das
máquinas estadual e federal, respectivamente, Srs. Luiz Paulo
Conde e Jorge Bittar e o candidato da Igreja Universal, senador
Marcelo Crivella. A coadjuvante será a deputada federal Jandira
Feghali, por pertencer a um partido comunista tradicional, o PC
do B. Os outros candidatos não contam. Inclusive já
aconteceram reuniões com as principais emissoras de TV para
acertar as regras dos debates e mais uma vez a legislação
não vai ser cumprida. Os debates só serão realizados,
em um mesmo dia, para os candidatos "preferenciais". O
resto vai para outro dia. E chamam a isto de democracia!
Em cada município, não é difícil prever
o que vai acontecer. É a perpetuação no poder,
que se passa ao longo de gerações, de pai para filho.
E chamam a isto de democracia! Como sair disto e conseguir obter
uma verdadeira democracia? Surpresas acontecem, mas constituem exceções.
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