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Col Irm José Francisco
Rodrigues *
De João Alfredo
Medeiros Vieira
SENHOR! Eu sou o único
ser na terra a quem Tu deste uma parcela de Tua Onipotência:
o poder de condenar ou absolver meus semelhantes.
Diante de mim as pessoas se inclinam; à minha voz
acorrem, à minha palavra obedecem, ao meu mandado
se entregam, ao meu gesto se unem, ou se separam, ou se
despojam. Ao meu aceno as portas das prisões se fecham
às costas do condenado ou se lhe abrem um dia, para
a liberdade.
O meu veredicto pode transformar a pobreza em abastança,
e a riqueza em miséria. Da minha decisão depende
o destino de muitas vidas. Sábios e ignorantes, ricos
e pobres, homens e mulheres, os nascituros, as crianças,
os jovens, os loucos e os moribundos, todos estão
sujeitos, desde o nascimento até a morte à
LEI que eu represento e à JUSTIÇA, que eu
simbolizo.
Quão pesado e terrível é o fardo que
puseste nos meus ombros.
Ajuda-me, Senhor! Faze com que seu seja digno desta excelsa
missão. Que não me seduza a vaidade do cargo,
não me invada o orgulho, não me atraia a tentação
do mal, não me fascinem as honrarias, não
me exalcem as glórias vãs. Unge as minhas
mãos, cinge a minha fronte, bafeja o meu espírito,
a fim de que eu seja um sacerdote do Direito, que Tu criaste
para a Sociedade Humana. Faze da minha Toga um manto incorruptível.
E da minha pena não o estilete que fere, mas a seta
que assinala a trajetória da Lei, no caminho da Justiça.
AJUDA-ME, SENHOR, a ser justo e firme, honesto e puro, comedido
e magnânimo, sereno e humilde. Que eu seja implacável
com o erro, mas compreensivo com os que erraram. Amigo da
Verdade e guia dos que a procuram. Aplicador da Lei, mas
antes de tudo, cumpridor da mesma. Não permitas jamais
que eu lave as mãos como Pilatos, diante do inocente,
nem atire como Heródes, sobre os ombros do oprimido
a túnica do opróbrio. Que eu não tema
César e nem por temor dele pergunte ao poviléu
se ele prefere "Barrabás ou Jesus".
Que o meu veredicto não seja o anátema candente
e sim a mensagem que regenera, a voz que conforta, a luz
que clareia, a água que purifica, a semente que germina,
a flor que nasce no azedume do coração humano.
Que a minha sentença possa levar consolo ao atribulado
e alento ao perseguido. Que ela possa enxugar as lágrimas
da viúva e o pranto dos órfãos. E quando
diante da cátedra em que me assento desfilarem os
andrajosos, os miseráveis, os panas sem fé
e sem esperança nos homens, espezinhados, escorraçados,
pisoteados e cujas bocas salivam sem ter pão e cujos
rostos são lavados nas lágrimas da dor da
humilhação e do desprezo, AJUDA-ME, SENHOR,
a saciar a sua fome e sede de Justiça.
AJUDA-ME SENHOR!
Quando as minhas horas se povoarem de sombras; quando as
urzes e os cardos do caminho me ferirem os pés; quando
for grande a maldade dos homens; quando as labaredas do
ódio crepitarem e os punhos se erguerem; quando o
maquiavelismo e a solércia se insinuarem nos caminhos
do Bem e inverterem as regras da Razão, quando o
tentador ofuscar a minha mente e perturbar os meus sentidos,
AJUDA-ME, SENHOR!
Quando me atormentar a dúvida, ilumina o meu espírito,
quando eu vacilar, alenta a minha alma, quando eu esmorecer,
conforta-me, quando eu tropeçar, ampara-me.
E QUANDO UM DIA finalmente eu sucumbir e então como
réu comparecer à Tua Augusta Presença,
para o eterno Juízo, olha compassivo para mim. Dita,
Senhor, a Tua sentença.
Julga-me como um Deus.
Eu julguei como homem.
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