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Col Irm. Jose Francisco Rodrigues
( * )
Na
doença mental denominada transtorno obsessivo-compulsivo
(TOC), uma pessoa é aprisionada por um padrão
de pensamentos e comportamentos repetitivos que não
têm sentido, são desagradáveis, e extremamente
difíceis de evitar. A seguir apresentamos alguns
exemplos típicos de TOC:
1
- Perturbada por pensamentos repetitivos de que pode ter
se contaminado ao tocar maçanetas e outros objetos
"sujos", uma adolescente passa horas todo dia
lavando as mãos. Suas mãos estão vermelhas
e irritadas, e sobra pouco tempo para suas atividades sociais.
2
- Um homem de meia-idade é atormentado pela idéia
de que pode ferir outras pessoas por negligência.
Não consegue sair de casa sem antes passar por um
longo ritual de verificação, onde se certifica
diversas vezes de que os bicos de gás do fogão
e as torneiras estão fechados.
3
- Várias vezes ao dia uma jovem mãe é
dominada pelo terrível pensamento de que vai agredir
seu filho. Embora se esforce muito, não consegue
se livrar dessa idéia dolorosa e preocupante. Ela
se recusa até a tocar em facas de cozinha e outros
utensílios pontiagudos, por ter medo de que possa
utilizá-los como armas.
Se
o TOC se tornar grave, pode comprometer seriamente as atividades
de uma pessoa em casa, no trabalho ou na escola. Por isso
é importante conhecer mais sobre esse transtorno
e os tratamentos que são disponíveis no momento.
O
TOC É COMUM?
Por muitos anos o TOC foi considerado uma doença
rara por profissionais especializados em saúde mental,
porque apenas pequena minoria de seus pacientes queixava-se
de sintomas compatíveis com essa condição.
Porém, acredita-se que muitas pessoas atormentadas
pelo TOC, tentando esconder seus pensamentos e comportamentos
repetitivos, não procurem ajuda, o que leva os profissionais
de saúde mental a subestimar o número de pessoas
com essa doença. Entretanto, uma pesquisa recente
realizada pelo Instituto Nacional de Saúde Mental
dos Estados Unidos (NIMH - National Institute of Mental
Health) - o departamento oficial que financia pesquisas
sobre o cérebro, doenças mentais e saúde
mental, em nível nacional naquele país - propiciou
um melhor conhecimento sobre a prevalência do TOC.
A pesquisa do NIMH demonstra que esse transtorno afeta cerca
de 2% da população, o que significa que o
TOC é mais comum do que a esquizofrenia e outras
doenças mentais graves.
PRINCIPAIS
CARACTERÍSTICAS DO TOC
Obsessões
São pensamentos ou impulsos não desejados
que retornam repetidamente à mente da pessoa com
TOC. O indivíduo é perturbado continuamente
por um pensamento aflitivo como: "Minhas mãos
podem estar contaminadas - preciso lavá-las";
"devo ter deixado o bico do gás aberto";
ou "vou machucar meu filho". Esses pensamentos
são considerados intrusivos e desagradáveis
pela pessoa que os apresenta. Eles produzem ansiedade.
Compulsões
Para avaliar sua ansiedade, a maioria das pessoas com TOC
recorre a comportamentos repetitivos denominados compulsões.
As mais comuns são a de lavar as mãos e a
verificação repetitiva, como nos dois exemplos
mencionados anteriormente. Outros comportamentos compulsivos
incluem a contagem (geralmente enquanto a pessoa está
realizando outra ação compulsiva, como lavar
as mãos), e a arrumação interminável
de objetos, com o intuito de manter perfeito alinhamento
ou simetria entre eles. Esses comportamentos em geral têm
a intenção de proteger a própria pessoa
com TOC ou outras pessoas. Normalmente são claramente
estereotipados, com pequenas variações de
uma ocasião para outra, sendo freqüentemente
referidos como rituais. A realização desses
rituais traz algum alívio da ansiedade à pessoa
com TOC, mas esse alívio é apenas temporário.
Reconhecimento
As pessoas com TOC geralmente têm considerável
consciência do seu problema. Na maioria das vezes,
elas sabem que seus pensamentos obsessivos são sem
sentido ou exagerados, e que seus comportamentos compulsivos
não são realmente necessários. Entretanto,
tal conhecimento não é suficiente para libertá-las
de sua doença.
Controle
A maioria das pessoas com TOC esforça-se para se
livrar dos indesejáveis pensamentos obsessivos e
para evitar comportamentos compulsivos. Muitos são
capazes de controlar seus sintomas obsessivo-compulsivos
quando estão no trabalho ou na escola. Porém,
com o passar do tempo, a resistência pode enfraquecer
e, quando isso acontece, o TOC pode se tornar tão
grave que os longos rituais passam a dominar a vida da pessoa,
impossibilitando-a de continuar suas atividades fora de
casa.
Vergonha
e Segredo
As pessoas com TOC geralmente tentam esconder seu problema
ao invés de procurar ajuda. Freqüentemente conseguem
esconder muito bem seus sintomas obsessivo-compulsivos dos
amigos e colegas de trabalho. Uma infeliz conseqüência
disso é que as pessoas com TOC só recebem
ajuda profissional muitos anos após o início
de sua doença. Nessa ocasião, os hábitos
obsessivo-compulsivos podem estar profundamente arraigados
e muito difíceis de mudar.
Interferência
Só se considera que uma pessoa tenha TOC quando seus
comportamentos obsessivos e compulsivos atinjam gravidade
suficiente para interferir em sua vida cotidiana. Pessoas
com TOC não devem ser confundidas com um grupo muito
maior de indivíduos que, às vezes, são
chamados de "compulsivos", por se ater a um elevado
padrão de desempenho em seu trabalho e até
mesmo em atividades de lazer. Esse tipo de "compulsão"
freqüentemente serve a propósitos valiosos,
contribuindo para a auto-estima do indivíduo e seu
sucesso no trabalho. Nesse sentido, difere das obsessões
e rituais que trazem limitação e sofrimento
para a vida da pessoa com TOC.
Sintomas
Prolongados
O TOC tende a persistir por muitos anos, até mesmo,
décadas. Os sintomas podem se tornar menos graves
de tempos em tempos, podendo haver longos intervalos com
sintomas discretos. Em geral, o TOC é uma doença
crônica.
QUEM
DESENVOLVE O TOC?
O TOC aflige pessoas de todos os grupos étnicos.
Tanto homens como mulheres são afetados. Os sintomas
se iniciam caracteristicamente durante a adolescência
ou no início da idade adulta.
TRATAMENTO
DO TOC
Progresso pela Pesquisa
A pesquisa clínica e em animais, financiada pelo
NIMH e por outras organizações científicas,
está revelando tratamentos que podem ajudar a pessoa
com TOC.
A seguir são descritos dois desses tratamentos:
1)
Tratamento com Medicamentos: O medicamento denominado clomipramina
pode aliviar os sintomas de TOC em muitas pessoas. A climipramina
pertence a um grupo de medicamentos denominados antidepressivos
tricíclicos, amplamente utilizados para o tratamento
da depressão. Porém, muitos estudos demonstraram
que a clomipramina pode ser benéfica também
em pacientes com TOC, quer apresentem ou não depressão
concomitante. Dois outros medicamentos - fluvoxamina e fluoxetina
- também podem ser eficazes no tratamento do TOC.
Esses medicamentos, como a clomipramina, aumentam a capacidade
de o cérebro utilizar a serotonina, um composto químico
que ocorre naturalmente no cérebro. Cientistas do
NIMH e outros, que recebem financiamento do Instituto, estão
entre os pesquisadores que investigam medicamentos para
o tratamento do TOC.
2) Terapia Comportamental: A psicoterapia tradicional, cujo
objetivo é o de ajudar o paciente a reconhecer e
elaborar seus próprios problemas, geralmente não
é eficaz no tratamento dos sintomas obsessivo-compulsivos.
Entretanto,
uma abordagem terapêutica comportamental, denominada
"exposição e prevenção
da resposta", demonstrou ser eficaz em muitas pessoas
com TOC. Nessa abordagem, o paciente é deliberadamente
exposto ao objeto ou à idéia temidos, tanto
diretamente como pela imaginação, sendo então
desencorajado ou impedido de utilizar a resposta compulsiva
usual. Por exemplo, uma pessoa que lave as mãos compulsivamente
pode ser estimulada a tocar um objeto supostamente contaminado
e depois faz-se com que não lave as mãos durante
horas. Quando o tratamento surte efeito, o paciente gradualmente
sente menos ansiedade em decorrência de seus pensamentos
obsessivos e consegue permanecer sem atitudes compulsivas
por períodos mais prolongados. Na pesquisa financiada
pelo NIMH, investigadores da Temple University, de Filadélfia,
Estados Unidos, avaliaram sua própria versão
desse método e descobriram que três quartos
dos pacientes incluídos no estudo apresentaram melhora.
CAUSAS
DO TOC
O fato de que alguns pacientes com TOC respondem bem a medicamentos
específicos sugere que o transtorno tenha uma base
neurobiológica.
Por essa razão, não se atribui mais o TOC
a comportamentos aprendidos na infância - por exemplo,
ênfase excessiva em limpeza ou a crença de
que certos pensamentos sejam perigosos ou inaceitáveis.
Ao contrário, a pesquisa das causas atualmente se
concentra na interação entre fatores neurobiológicos
e influências ambientais. Acredita-se que pessoas
que desenvolvem TOC tenham uma predisposição
biológica a reagir de forma acentuada ao "stress".
Tal reação se manifesta sob a forma de pensamentos
intrusivos e desagradáveis, que geram mais ansiedade
e "stress", criando, por fim, um círculo
vicioso do qual a pessoa não consegue sair sem ajuda.
Com
o propósito de identificar fatores biológicos
específicos que possam ser importantes para o início
ou a persistência do TOC, pesquisadores financiados
pelo NIMH têm utilizado uma técnica denominada
tomografia por emissão de pósitrons (PET -
"positron emission tomography") para estudar o
cérebro de pacientes com TOC.
Vários
grupos de pesquisadores obtiveram informações,
com o uso do PET, que sugerem que pacientes com TOC apresentam
um padrão de atividade cerebral diferente do de outras
pessoas sem doença mental ou com alguma outra doença
mental. Estudos com imagens cerebrais de pacientes com TOC
demonstram atividade neuroquímica anormal em áreas
do cérebro com participação reconhecida
em certos distúrbios neurológicos sugerindo
que tais áreas podem ser cruciais no desenvolvimento
do TOC. Sintomas de TOC, embora não a síndrome
completa, são observados em associação
com outros distúrbios neurológicos. Entre
eles incluem-se a "Síndrome de Tourette",
uma condição que se desenvolve em determinadas
famílias, caracterizada por movimentos (tiques motores)
e vocalizações (tiques vocais) abruptos, involuntários
e repetitivos. Estudos genéticos de TOC e de outras
condições relacionadas poderão algum
dia possibilitar, aos especialistas, definir com precisão
a base molecular desses transtornos.
A
investigação em andamento sobre as causas,
aliada à pesquisa sobre o tratamento, promete proporcionar
ainda mais esperança para as pessoas com TOC e suas
famílias. O Congresso Americano designou a década
de 90 como a Década do Cérebro, para transformar
em prioridade nacional em termos de pesquisa a melhora da
prevenção, diagnósticos, tratamento
e reabilitação dos transtornos mentais e neurológicos.
National Institute of Mental Health - USA
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