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A Clonagem


 

Col do José Francisco Rodrigues


A palavra clone deriva etimologicamente do grego "klón", que significa broto e pressupõe, portanto, a existência de um indivíduo gerador e a ocorrência de reprodução assexuada. Esse termo tem sido aplicado tanto a células quanto a organismos, de modo que um grupo de células que procedem de uma única célula também recebe esse nome.

Toda vez que um ser é gerado a partir de células ou fragmentos de uma mesma matriz, através de um processo de reprodução assexuada que resulta na obtenção de cópias geneticamente idênticas de um mesmo ser vivo (microrganismo, vegetal ou animal), acontece uma clonagem. A clonagem pode ser natural ou induzida artificialmente.

Ela é natural em todos os seres originados a partir de reprodução assexuada, ou seja, na qual não há participação de células sexuais (gametas), como é o caso das bactérias, da maioria dos protozoários e algumas leveduras. Esse é o meio mais freqüente e natural de reprodução dos vegetais inferiores, mas até vegetais superiores podem multiplicar-se naturalmente desse modo. É o caso das gramas dos jardins ou do morangueiro, cujos nós dos ramos laterais rentes à terra formam raízes, gerando plantas independentes.

Ao fazerem mudas de plantas, os agricultores e jardineiros estão produzindo clones. A clonagem é, às vezes, o único meio de fazer a multiplicação de uma planta. É o que acontece com a bananeira e, geralmente, com a parreira e a cana-de-açúcar. Se alguém corta um pedaço do tronco de uma bananeira e o joga no canteiro, outra vai brotar espontaneamente. Ou seja, a célula especializada do tronco é capaz de gerar um ser idêntico a si a partir de seu próprio material genético. Outras espécies, como a estrela-do-mar, certos moluscos e crustáceos, também reproduzem-se assim. Para esses seres, a clonagem é rotineira.

A clonagem natural também pode ocorrer em mamíferos, como no tatu e, mais raramente, nos gêmeos univitelinos, que são parte de um clone. Nos dois casos, embora haja reprodução sexuada na formação do zigoto, os descendentes idênticos têm origem a partir de um processo assexuado de divisão celular.

Clonagem induzida
A clonagem induzida artificialmente é uma técnica da engenharia genética aplicada em vegetais e animais, ligada à pesquisa científica. Nesse caso o termo aplica-se a uma forma de reprodução assexuada produzida em laboratório, de forma artificial, baseada em um único patrimônio genético. A partir de uma célula-mãe ocorre a produção de uma ou mais células (idênticas entre si e à original) que são os clones. Os indivíduos resultantes desse processo terão as mesmas características genéticas do indivíduo "doador", também denominado original.

A clonagem induzida em vegetais baseia-se na plantação e na criação de enxertos, nos quais são implantados brotos de plantas selecionadas em caules de outros vegetais. Essa técnica é utilizada em larga escala em muitas culturas comerciais, com a finalidade de aumentar a produção, melhorar a qualidade e uniformizar a colheita.

A clonagem induzida em animais pode usar como matéria-prima células embrionárias ou células somáticas (todas as células do corpo com exceção das reprodutivas) que são introduzidas em óvulos anucleados (sem núcleo) artificialmente (este último processo é conhecido como transferência ou transplante nuclear, e foi o processo utilizado na "clonagem" da ovelha Dolly, tão propagada pela mídia) .

Os indivíduos resultantes da clonagem têm, geralmente, o mesmo genótipo, isto é, o mesmo patrimônio genético. Dizemos 'geralmente' porque, durante a reprodução assexuada, pode ocorrer alguma alteração do material genético (mutação), gerando um ser com patrimônio genético diferente do existente no original. Na ausência de mutação, portanto, os clones são geneticamente idênticos.

É importante ressaltar, porém, que identidade genética não significa identidade na aparência física ou psicológica, porque todo ser vivo é resultado da interação do genótipo com o ambiente. Infelizmente, há uma tendência generalizada a enfatizar apenas a importância do genótipo (ou, o outro extremo, enfatizar apenas a influência do ambiente...), como se todos os seres, inclusive os humanos, nada mais fossem que seu patrimônio genético (ou, no segundo caso, como se os genes não fossem tão importantes na manifestação de certas características, essa visão é comum principalmente quando se trata de características psicológicas).

Essa é uma noção errônea, e apesar de alguns estudos recentes indicarem que as características dos seres vivos, inclusive as características psicológicas humanas possam ser influenciadas pelos genes, não dispomos ainda de dados sobre essa influência. O certo é que nós podemos ter genes para todas as características, mas a manifestação desses genes é condicionada pelo ambiente, pelo que o organismo é resultado da interação genes x ambiente, e menosprezar qualquer dos dois é provavelmente um equívoco.

Histórico
Em 1952 é realizada a primeira experiência do gênero, a clonagem de girinos a partir de núcleos de células somáticas. Porém. Todos morreram antes de amadurecerem e se transformarem em rãs. Dez anos depois John Gurdon tenta o mesmo procedimento no Reino Unido e consegue obter clones a partir de células de um sapo adulto. Novamente, girinos nascem, mas morrem antes de atingir a fase adulta.
Em 1970 são feitas pesquisas com embriões de ratos e, nove anos depois, com ovelhas. No ano de 1981, Karl Illmense e Peter Hoppe, da Universidade de Genebra (Suíça), anunciaram ter obtido clones de ratos a partir de células embrionárias. Nesse processo, são usadas células fetais para produzir novos embriões, que depois serão implantados nas ratas. Os animais obtidos são geneticamente idênticos ao embrião "doador".

Em 1986 Steen Willadsen, na Inglaterra, clonou cordeiros a partir de células embrionárias de uma ovelha. Outros reproduzem a experiência dele usando gado, porcos, cabras, coelhos e macacos de reso.

A 13 de outubro de 1993, na reunião da Sociedade Americana para Pesquisa da Fertilidade, realizada em Montreal (Canadá), os pesquisadores norte-americanos Jerry Hall e Robert Stillman anunciaram que, durante um trabalho de fertilização assistida, haviam separado os blastômeros de um zigoto segmentado que, fatalmente, iria degenerar, pois era tripóide, isto é, tinha três conjuntos cromossômicos em vez de dois encontrados normalmente. A partir de cada um dos blastômeros, mostraram que era possível obter um embrião. Portanto, se o zigoto segmentado tivesse sido normal, os vários embriões resultantes teriam a possibilidade de ser implantados no útero de uma mulher, podendo gerar gêmeos univitelinos. Foram divididos 17 embriões, nos estágios de duas a oito células, resultando em 48 novos embriões. Todos os embriões gerados foram destruídos ao final do experimento, com um estágio máximo de desenvolvimento de 32 células.

Foi no final de 1993, portanto, que a expressão 'clonagem humana' começou a ser divulgada com maior intensidade. Na realidade, Hall e Stillman tentaram aplicar à espécie humana o que já vinha sendo feito há muito tempo em animais. Por sinal, não foi divulgado, como merecido, que a segmentação de embriões para clonagem de gado bovino já é praticada no Brasil, com sucesso, há pelo menos dez anos.

Em 1994 Neal First da Universidade de Wisconsin conseguiu clonar bezerros a partir de embriões crescidos a pelo menos 120 células, e dois anos depois o Roslin Institute na Escócia produz cinco ovelhas clonadas a partir de embriões que cresciam em cultura no laboratório, é a primeira vez que ovelhas clonadas são obtidas através de células embrionárias avançadas.

Em fevereiro de 1997, um grupo de cientistas escoceses do Roslin Institute, liderado pelo inglês Ian Wilmut, anuncia a realização da primeira cópia genética (clonagem) de um mamífero adulto a partir de uma célula somática: a ovelha da raça Finn Dorset, batizada de Dolly. Na experiência, os pesquisadores retiraram células da mama de uma ovelha e guardaram-nas numa solução química. Um óvulo não fecundado é extraído de uma segunda ovelha, da mesma raça, e com uma agulha retira-se o núcleo do óvulo. Junta-se uma célula mamária da primeira ovelha com o óvulo sem núcleo da segunda. Uma corrente elétrica provoca a fusão das duas células, que começam imediatamente a se dividir, formando um embrião. Essa nova célula foi seis dias depois implantada no útero de uma terceira ovelha, onde Dolly foi gerada.

Em teoria, ela é geneticamente idêntica à ovelha que doou a célula mamária, pois foi esse o material genético que ela recebeu do núcleo da célula da mama. A novidade é que Dolly foi clonada a partir do material genético de uma célula não-reprodutiva de um animal adulto e não de um embrião.

No mês de julho do mesmo ano pesquisadores combinaram pela primeira vez a técnica da clonagem a partir de células de embrião com a da mutação genética, produzindo a ovelha Polly. É o primeiro clone animal com um gene humano. Polly possui quatro irmãs transgênicas obtidas através do mesmo processo. A operação foi um sucesso em três das cinco ovelhas, efetivamente portadoras de um gene humano.

Em julho de 1998 pesquisadores japoneses anunciaram o sucesso obtido na produção de dois clones bezerros usando o mesmo método usado na clonagem de Dolly, e garantiram que o processo empregado por eles para clonar gado bovino representa a aplicação mais eficiente dessa tecnologia até esta data.

Um estudo publicado na edição de dezembro de 1998 da revista Science descreve uma técnica capaz de produzir rebanhos em pouco tempo, com uma taxa de acerto de 80%. Numa primeira tentativa bem-sucedida da aplicação do método japonês, foram produzidas oito vacas a partir de dez embriões implantados em mães de aluguel. Outros sete centros de pesquisa no Japão já vinham utilizando o método e, desde julho de 1998, vinham tendo êxito na clonagem de fetos.

Também em 1998 cientistas da Universidade de Honolulu no Havaí (EUA) divulgaram o desenvolvimento de três gerações de ratos clonados em seus laboratórios. Devido a rapidez do ciclo de reprodução desses animais o experimento é bem dinâmico, e foi possível fazer-se clones de clones obtendo-se animais saudáveis e reprodutíveis. A técnica usada, chamada de "técnica de Honolulu", é diferente da que foi empregada para a clonagem de Dolly, criada por eletrofusão de células adultas. Uma das vantagens da nova técnica é a porcentagem de sucesso, da ordem de 3%, bem maior que no caso de Dolly (0,44%).

Os pesquisadores afirmaram que a tecnologia pode ser empregada para a clonagem de outros animais, tais como porcos e ovelhas. Essa técnica consistiu em inserir núcleos de células somáticas adultas em células de ovos das quais foram retirados os próprios núcleos. Para isso foi usada uma pipeta especial para micro-injetar o núcleo da célula de um doador, nos cinco minutos depois de retirado, em um ovócito desprovido de núcleo. O tipo de célula doadora do núcleo escolhida para a clonagem também foi diferente da que foi retirada para clonar Dolly.

No caso dos ratos o núcleo veio de células denominadas "cumulus", que envolvem os ovos situados no interior dos ovários das ratas. Repetindo o processo, o grupo produziu segundas e terceiras gerações geneticamente idênticas aos irmãos, pais, avôs e bisavôs.