| Col
Irm José Francisco Rodrigues -

Autor
Peter H. Raven e AIan 1. Leshner*
A difícil situação de centenas de milhões
de pessoas que dependem de menos de US$ 1 por dia para sobreviver
volta a ser o foco da atenção dos líderes
mundiais...
Mais uma vez, a comunidade internacional
de cientistas e engenheiros será requisitada a fazer
algo em relação aos problemas das nações
em desenvolvimento (erosão do solo, poluição
e falta de água tratada); será chamada a ajudar
a sanar o problema dos famintos, mas sem provocar danos
ao meio ambiente.
No entanto a história recente mostra
que boa ciência e boas intenções não
são suficientes:... as ambiciosas resoluções
científicas e tecnológicas que surgiram com
a Eco 92, no Rio de Janeiro, permanecem, em sua grande parte,
apenas como uma carta de intenções. Poucas
de suas propostas receberam ao menos financiamento; muitas
nem foram implementadas. Porém o conjunto dessas
resoluções ainda forma um documento importante,
sendo que o pedido de ajuda a cientistas e engenheiros que
nele consta é difícil de ignorar.
As soluções existem e muitos
cientistas estão prontos a ajudar. Porém a
participação deles será ineficaz, a
menos que as nações industrializadas e as
em desenvolvimento se comprometam a cooperar para construir
uma base de infra-estrutura onde quer que seja. E a sociedade
tanto do hemisfério Norte quanto do hemisfério
Sul deve oferecer um amplo apoio nesse sentido.
Há um poderoso argumento humanitário
a favor dessa ajuda, mas ele não é único.
O distanciamento entre países ricos e pobres está
crescendo. E essa lacuna alimenta desconfiança e
ódio entre as pessoas que, mais e mais, estão
cientes das disparidades entre seus padrões de vida
e o modo como se vive no mundo desenvolvido. Além
do mais, danos ambientais e doenças que não
respeitam as fronteiras entre os países têm
tornado claro que nenhuma nação está
imune ao impacto causado pelo que acontece em qualquer canto
do planeta.
Pelo contrário. Relatório
recente publicado na revista “Science” sugere
que a destruição da biodiversidade causa danos
irreversíveis ao futuro de todos e que a proteção
de habitats naturais nos países em desenvolvimento
gera benefícios econômicos enormes a toda a
humanidade.
A miséria e outros problemas mundiais
que estarão em debate no encontro em Johannesburgo
parecem ser insuperáveis. Em várias cidades
dos países em desenvolvimento, a população
tem respirado um ar cuja qualidade a OMS qualifica como
abaixo dos níveis aceitáveis. Condições
precárias de saneamento básico são
a norma para 2 bilhões de pessoas. Mais de 1 bilhão
de seres humanos não têm acesso a água
tratada. Metade da população mundial está
mal-nutrida, e a oportunidade de educação
é simplesmente negada a centenas de milhões
de mulheres e crianças.
A ciência tem avançado muito
na busca de respostas para esses problemas, mas a maioria
das nações em desenvolvimento ainda carece
de infra-estrutura que permita a elas aplicar localmente
os avanços científicos em longo prazo. Por
exemplo, o genoma do arroz, recentemente publicado, promete
levar a melhorias que podem aumentar a produção
dessa fonte primária de alimento para centenas de
milhões de pessoas.
Mas, se esforços não forem
feitos explicitamente no sentido de assegurar que esses
avanços estejam acessíveis e sejam transferidos
aos países em desenvolvimento e tornados viáveis
em contextos locais, o conhecimento sobre o genoma do arroz
não será aplicado de modo adequado.
Quais são, especificamente, as contribuições
que a ciência e a engenharia podem dar ao desenvolvimento
de uma sociedade mais justa?
Em um relatório de 1999, o Conselho
Nacional de Pesquisa dos Estados Unidos avaliou que as tecnologias
já existentes poderiam fazer essa transformação
em um prazo de duas gerações, sem que nenhum
outro novo avanço tecnológico significativo,
bem como mudanças sociais, fossem necessários.
Por exemplo, pode-se dar às mulheres acesso à
educação e aconselhamento para que elas tenham
condições de fazer um planejamento familiar
adequado. Avanços podem ser obtidos em relação
à qualidade do ar e da água. Programas de
conservação ambiental podem ser implementados
para reduzir a quantidade de terras que são exploradas
para uso comercial.
O relatório ressalta que a mobilização
das forças da ciência e da tecnologia requer
a colaboração dos lideres políticos
e das comunidades científicas mundiais. Mas isso
acontecerá se a população em geral
adquirir conhecimentos básicos, além de habilidade
técnica e social para colocá-los em prática.
E isso, por sua vez, só será alcançado
com vontade política, não apenas nos países
em desenvolvimento, mas também nos países
industrializados, onde hoje trabalham cerca de 90% dos cientistas.
Juntos, os países do Norte têm
um empreendimento científico e tecnológico
robusto que impulsiona seus avanços econômicos
e nas áreas de saúde. Ajuda técnica
e científica é parte necessária para
a solução dos problemas dos países
em desenvolvimento. A experiência do Brasil e de outras
nações onde a pesquisa científica e
tecnológica tem crescido por iniciativa própria
demonstra a importância do apoio a esses esforços.
Em um período de grandes dificuldades econômicas,
isso seria a contribuição mais verdadeira
e duradoura.
Nós,
cientistas, sabemos o que fazer, mas precisamos da ajuda
de brasileiros e norte-americanos, bem como da inspiração
que certamente virá da vontade política nascida
do interesse de cada cidadão desses países.
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