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Irm José Francisco Rodrigues -

De Gilberto Dimenstein
Apresentada na última sexta-feira
pela polícia como uma das autoras do assassinato
de seus pais, ocorrido no mês passado, em São
Paulo, Suzane Richthofen, de 19 anos, tem muito a ensinar
sobre a atual geração de jovens de classe
média.
A violência de uma filha contra os
pais, a ponto de levar ao homicídio, é obviamente
um caso isolado, raríssimo. Mas é um ato que
se presta a símbolo de uma tendência visível
entre jovens: a de não saber lidar com os limites
e com a frustração. É uma situação
de escravização ao desejo, alimentada por
uma sociedade que estimula a satisfação imediata
das vontades. Essa é a radicalidade do consumismo.
Viver é satisfazer imediatamente os desejos.
Suzane Richthofen disse que, ajudada pelo
namorado, matou por amor. O pai, um engenheiro, e a mãe,
uma psiquiatra, não gostavam do namorado e estariam
inviabilizando a relação. Como não
conseguiu a autorização para manter o relacionamento
e não queria fugir de casa - até porque não
sabia como iria assegurar o padrão de vida -, optou
pelo assassinato.
"Ela se comportou como uma menina que,
por causa de um brinquedo, faz escândalo na porta
da loja, indiferente ao desespero e à dor dos pais",
analisa o psiquiatra Içami Tiba, especialista em
juventude. "Vemos hoje, com muita frequência,
jovens que não conseguem sair da infância,
que são autocentrados. Agem com a irresponsabilidade
de uma criança, mas com a força do adulto."
Há tempos, educadores e psicólogos
têm alertado sobre a crescente dificuldade de impor
limites em sala de aula, sobre a arrogância dos alunos
que descamba para o desrespeito, sobre o consumo excessivo
de drogas, principalmente álcool, e sobre uma atitude
de descaso, do tipo "tanto faz".
Virou tema rotineiro nos seminários
de educação o prejuízo causado nas
crianças e adolescentes por uma sociedade que reverencia
o consumo e, ao mesmo tempo, por pais que não enfrentam
a frustração dos filhos. Esse tipo de pai
ou de mãe ganhou o apelido de "adultescente",
a mistura do adulto com o adolescente.
"Estamos presenciando uma geração
de pais que não consegue impor limites e, pior, faz
de tudo para que os filhos nunca se frustrem. As crianças
ficam ainda mais vulneráveis à dor",
comenta Rosely Sayão, educadora e psicóloga,
convencida de que Suzane é o caso extremado e doentio
da intolerância de administrar limites e frustração.
Tempos atrás, Suzane possivelmente
teria transformado a inconformidade em fuga de casa. Iria
morar sozinha, assumindo uma postura adulta. Estaria sujeita
às mais diversas privações materiais,
mas experimentaria uma aventura enriquecedora. Teria sempre
a deliciosa lembrança de um delírio apaixonado.
"O curioso é que ela age como uma adolescente
indefesa quando demonstra necessitar da aprovação
dos pais, mas age como uma adulta ao planejar um assassinato",
analisa.
Conhecido por criticar a "adultescência",
o psiquiatra Içami Tiba costuma receber em seu consultório
casais aflitos com a agitação e a indisciplina
dos filhos, quase donos da casa, mandando e desmandando.
"Um dia eu perguntei a uma mãe qual era a idade
do filho que tanto a tiranizava. Ela me disse que ele tinha
três anos. E eu lhe disse, então, que seria
melhor que deixasse o filho sossegado e fosse, ela própria,
procurar tratamento."
A busca da satisfação imediata
estimula a impulsividade e a hiperatividade. Basta ver a
relação dos adolescentes com os meios de comunicação,
conforme detectou recentemente uma pesquisa da MTV sobre
o que chamou de "geração zap". "Zap"
vem de ficar "zapeando". Com o controle remoto,
trocam-se, sem parar, os canais da televisão.
Submetem-se ao mesmo tempo a todos os estímulos.
Não conseguem assistir a um mesmo programa por muito
tempo - o rádio está ligado, a internet acionada,
folheia-se uma revista ou fala-se ao telefone. A dificuldade
de ler livros está associada, de um lado, à
escola, que não sabe encantar pelas palavras, mas,
de outro, à dificuldade de parar quieto e focado
num só tema.
Vivemos numa sociedade que reverencia a
velocidade - o reinado do tempo real - o efêmero tecnológico,
o corpo (as modelos são chamadas a dar opiniões
sobre qualquer coisa), o desempenho, o sucesso individual,
a moda. O valor das pessoas está muito mais no ter
e, principalmente, no aparentar do que no ser.
Nada disso foi criado agora. São
atitudes que acompanham a humanidade: o filho apaixonado
que mata o pai aparece desde a Grécia antiga (daí
surgiu o tal "decifra-me ou devoro-te"). Mas,
certamente, o culto do desempenho, da aparência e
do consumo está mais extremado numa sociedade que
parece ter extirpado as utopias, - trocando-as pelo narcisismo
coletivo - justamente isso provoca o extremo de uma jovem
arquitetar, "por amor", a morte dos pais.
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