cabe Samaúma
 




Voltar para página principal.


 

Obesidade Infantil - Um Problema com Solução

 

Col Irm José Francisco Rodrigues -
FONTE O.M.S.

 



Nada pior para um adolescente do que ser um rosto bonito. A afirmação pode parecer estranha a um magro, mas se um obeso for o leitor desta frase, com certeza ela terá bem mais sentido. "Sempre fui o rostinho bonito lá de casa. Todos falavam para minha mãe, ''porque o Rafael não faz regime? Ele tem um rosto tão bonito", conta o estudante Rafael Menezes, de 17 anos.


Bem-humorado, Menezes costuma dividir sua vida em três partes. "Na primeira, era um bebê lindo, todo cheio de dobrinhas e com muita saúde; depois me tornei a criança com rosto bonito e que servia de brincadeiras na escola; agora, sou um adolescente disposto, que olha no espelho e diz `tá bonito!`", relata o estudante, que já chegou a pesar 154kg, mas que, depois de ter se submetido a uma cirurgia de redução de estômago, está com 74kg, "bem distribuído em 1,79m".

Menezes nasceu em uma família cujos pais têm pré-disposição a engordar. "Nenhum deles é gordo. Talvez precisem emagrecer alguns quilinhos, mas nada além disso", afirmou o estudante, que pertence a uma geração com maior propensão à obesidade mórbida do que a de seus pais, por exemplo.

Esta é a opinião do presidente da Associação Internacional para o Estudo da Obesidade (Iaso), o pesquisador canadense Claude Bouchard, que afirma categoricamente que colocar a culpa do excesso de peso nos genes é muito simples. De acordo com Bouchard, a pré-disposição pode levar à obesidade somente aliada a uma má alimentação e ao sedentarismo.

Seguindo o mesmo raciocínio, médicos e pesquisadores australianos formaram um grupo para tentar restringir as propagandas na televisão que estimulam agressivamente o consumo das chamadas "junk food". "Elas contribuem para a crescente epidemia de obesidade (...). Deveria haver incentivo, pelo menos nos horários em que o principal público é o infantil, para o consumo de alimentos saudáveis", considera Verity Newnham, coordenadora da Divisão Nacional da Aliança da Juventude, um programa das Divisões Australianas de Clínica Geral.

Atravessando fronteiras

A preocupação com a obesidade infantil atravessa fronteiras e atinge tanto países desenvolvidos como aqueles em desenvolvimento. Entre os motivos, porque pessoas acima do peso correm mais risco de apresentar diabete, bem como problemas como pressão alta, pulmonar, circulação, entre outros.

No Brasil, por exemplo, pesquisa recente realizada pela Sociedade Americana de Nutrição Clínica mostrou que o número de crianças obesas triplicou, nos últimos 20 anos, principalmente devido à prosperidade social, que faz com que o menor coma mais e se exercite menos. Esta tendência também foi sentida em países como a China, onde aumentou em um quinto as crianças obesas e nos Estados Unidos, que o número dobrou.

Neste mesmo estudo, os pesquisadores relacionam o fato de mais casas no País terem um televisor, se comparado há 20 anos, com o acréscimo de adolescentes acima do peso. "É difícil você explicar para um jovem que ele deve comer mais saladas do que sanduíches. A televisão e até mesmo os pais acostumaram estas crianças a ingerirem fast food. (....) É sempre um salgadinho, uma pizza, um doce. O melhor alimento passa a ser aquele que fica pronto mais rápido, e não pode ser assim", afirmou a endocrinologista Josefina Matielli.

Isolamento

Certa vez, o cantor e compositor Ed Motta disse que havia lido muito - mais do que os seus colegas, durante a adolescência - porque preferia ficar em casa a sair, pois era gordo demais. De acordo com Josefina, a criança e o adolescente obesos tendem a se afastar do grupo. "A criança principalmente porque é feita de chacota pelos amigos na escola ou na rua e os adolescentes, porque têm vergonha. Estão em uma fase de conquistas, de namorar, e se sentem rejeitados", explica a endocrinologista.

Nesta situação, a comida que serviria para alimentar o físico, termina por preencher um "vazio emocional". Seria como uma anestesia ao sofrimento e humilhações vividos por quem está acima do peso. "Quando voltam para casa, o único prazer que sobra efetivamente é comer", destaca Josefina, O fator emocional é uma das principais causas da obesidade mórbida, que atinge um milhão de pessoas somente no Brasil.

"Quando estava gordo, não gostava de ficar com os meninos na rua, dizia que preferia ver televisão e jogar videogame. Tinha vergonha de sair, porque todos ficavam me olhando, me analisando. (....) Outra coisa que me irritava era quando saía de carro. Se estivesse lotado, eu era obrigado a ir na frente. Fora quando passava por uma lombada e, se o carro batesse embaixo, tinha sempre de ouvir que estava na hora de fazer um regiminho", lembra Menezes.

Cirurgia da Obesidade

Uma das oportunidades para os adolescentes obesos mórbidos é a cirurgia de redução de estômago. Havia uma preocupação por parte de alguns médicos da área que, um jovem de 13, 14 anos ao passar por uma operação como esta poderia ter o seu desenvolvimento normal afetado.

No entanto, pesquisa inédita realizada pelo Instituto Garrido, comandado pelo professor Arthur Garrido Junior, mostra que a cirurgia não impede o crescimento dos jovens. O estudo foi feito com 36 pacientes, com idades entre 13 a 17 anos, e comprovou também que os jovens operados, que ainda estavam no período de crescimento, perderam mais peso que os demais - chegando a diminuir em até 43,7% do Índice de Massa Corporal (IMC) - devido ao aumento de altura. Já os adolescentes que haviam encerrado o período de crescimento tiveram perda máxima de 35% do IMC.

Dos 36 adolescentes analisados, 22 eram do sexo feminino e 14 do masculino, tendo idade média de 15 anos, peso pré-operatório médio de 136kg e altura de 1,69m. "Em média, após três ou quatro anos da cirurgia, os meninos cresceram seis centímetros e as meninas, três", afirmou Garrido. "A cirurgia em adolescentes obesos mórbidos tem o seu lugar assegurado, não interrompendo o crescimento, enquanto os ossos estiverem ''abertos''", acrescentou.

No entanto, vale ressaltar, que esta intervenção exige uma equipe multidisciplinar com nutricionista, psicólogo, instrutor de esportes, endocrinologista e até mesmo um psiquiatra. "Temos de ter a certeza que este jovem não entrará no mundo das drogas, por exemplo. Há casos de pessoas que jogam todas as frustrações e ansiedades na comida e, quando realizam cirurgia de redução de estômago, procuram outra forma para aliviar as tensões", explica Josefina.

O acompanhamento dos pais também se faz necessário durante todo o processo. "É preciso que os pais do jovem que passará pela operação saiba dos riscos que o filho corre e que ele deverá ter acompanhamento médico a longo prazo. Os pais precisam também estar informados que haverá uma mudança de hábito, na qual a família é parte essencial", afirmou a endocrinologista, ressaltando que "tudo passa por uma reeducação alimentar. Não há milagres".

A Organização Mundial de Saúde (OMS), nos últimos anos, vem destacando a obesidade infantil e pedindo, principalmente aos países em desenvolvimento que apresentaram crescimento econômico significativo, para lutar contra o que a organização chamou de "epidemia da inatividade". Segundo dados da OMS, o número de adultos com diabete deve dobrar nos próximos 25 anos, em grande parte, devido à obesidade infantil.