Col Irm. Jose Francisco Rodrigues ( * )
Pesquisas
indicam que a depressão é um dos quatro distúrbios
psiquiátricos mais freqüentes no Brasil. Se
os valores em nosso país forem semelhantes aos observados
nos Estados Unidos, a população adulta afetada
deverá ser em torno de 6 milhões de pessoas.
É fácil imaginar o impacto e a importância
socioeconômica da depressão em nosso meio.
Ela afeta o bem-estar e a felicidade dos pacientes e de
seus familiares, reduz a capacidade de trabalho, e, em conseqüência,
a produtividade do indivíduo na sociedade. A isto
devem-se somar os custos com tratamento pelo paciente e
família, e pelo serviço público.
Estima-se
que 8% das pessoas adultas sofram de uma doença depressiva
em algum período da vida. O custo do sofrimento humano
não pode ser avaliado. Doenças depressivas
freqüentemente interferem com o desempenho normal e
causam sofrimento não somente àqueles que
estão doentes, mas também aos que os amam.
A depressão grave pode destruir a vida familiar,
assim como a do doente.
Provavelmente,
o fato mais triste sobre a depressão é que
muito deste sofrimento é desnecessário. A
maioria das pessoas com depressão não procura
tratamento, embora uma grande parte possa ser auxiliada,
mesmo aquelas com distúrbios mais graves. Graças
a anos de pesquisas produtivas, encontram-se disponíveis
medicamentos e terapias psicossociais que aliviam a dor
da depressão.
Infelizmente, grande parte das pessoas afetadas não
reconhece que tem uma doença que pode ser tratada.
Leia esta matéria e verifique se você é
um destes deprimidos não-diagnosticados, ou se você
conhece alguém que o seja. A informação,
aqui apresentada resumidamente, pode ajudá-lo a tomar
a iniciativa de salvar a sua própria vida ou a de
uma outra pessoa.
O QUE
É A DEPRESSÃO?
A depressão é uma doença "do corpo
como um todo", que compromete seu corpo, humor e pensamento.
Ela afeta a forma como você se alimenta e dorme, como
se sente em relação a si próprio e
como pensa sobre as coisas.
Uma
doença depressiva não é uma "fossa"
ou um "baixo astral' passageiro. Também não
é sinal de fraqueza ou uma condição
que possa ser superada pela vontade ou com esforço.
As pessoas com doença depressiva não podem
simplesmente recompor-se e melhorar por conta própria.
Sem tratamento, os sintomas podem durar semanas, meses ou
anos.
O tratamento
adequado, entretanto, pode ajudar a maioria das pessoas
que sofrem de depressão.
TIPOS
DE DEPRESSÃO
As doenças depressivas manifestam-se de diversas
maneiras, da mesma forma que outras doenças, como,
por exemplo, as do coração. Esta matéria
descreve, resumidamente, três dos tipos mais freqüentes
de doenças depressivas. Entretanto, dentro deles,
ocorrem variações quanto ao número,
gravidade e duração dos sintomas.
A depressão
maior caracteriza-se por uma combinação de
sintomas (veja a relação) que interferem na
capacidade de trabalhar, dormir, alimentar-se e desfrutar
de atividades anteriormente consideradas agradáveis
pela pessoa. Estes episódios depressivos incapacitantes
podem ocorrer uma, duas ou várias vezes durante a
vida.
Um tipo
menos grave de depressão é a distimia, que
envolve sintomas crônicos e prolongados, não
tão incapacitantes, mas que impedem a sua plena capacidade
de ação ou que você se sinta bem. Às
vezes, pessoas com distimia apresentam, também, episódios
de depressão maior.
Outro
tipo é o distúrbio bipolar, antigamente denominado
doença maníaco-depressiva. Não é
tão freqüente quanto as outras formas de doenças
depressivas. Caracteriza-se por ciclos de depressão
e euforia ou mania.
Estas
oscilações de humor, em geral, ocorrem gradualmente;
porém, às vezes, são abruptas e acentuadas.
Tanto no ciclo depressivo quanto no ciclo maníaco,
você pode apresentar alguns ou todos os sintomas correspondentes
a cada um desses ciclos, relacionados no tópico seguinte.
A mania, em geral, afeta o pensamento, o julgamento (senso
crítico) e o comportamento social, causando graves
problemas e constrangimentos. Por exemplo, uma pessoa em
fase de mania pode tomar decisões profissionais ou
financeiras insensatas. O distúrbio bipolar freqüentemente
é uma condição crônica recorrente
(ocorre repetidamente).
SINTOMAS
DE DEPRESSÃO E MANIA
Nem todas as pessoas com depressão ou mania apresentam
todos os sintomas relacionados a seguir. Algumas apresentam
poucos, outras, muitos. A gravidade dos sintomas também
varia de indivíduo para indivíduo.
Depressão:
Tristeza persistente, ansiedade ou sensação
de vazio;
Sentimentos de desesperança, pessimismo
Sentimentos de culpa, inutilidade, desamparo
Perda do interesse ou prazer em passatempos e atividades
que anteriormente causavam prazer, incluindo a atividade
sexual
Insônia, despertar matinal precoce ou sonolência
excessiva
Perda do apetite e/ou peso, ou excesso de apetite e ganho
de peso
Diminuição da energia; fadiga, sensação
de desânimo
Idéias de morte ou suicídio; tentativas de
suicídio
Inquietação, irritabilidade
Dificuldade para concentrar-se, recordar e tomar decisões
Sintomas físicos e persistentes que não respondem
a tratamento; por exemplo: dor de cabeça, distúrbios
digestivos e dor crônica
Mania:
· ·Euforia inadequada
· ·Irritabilidade inadequada
· ·Insônia grave
· ·Idéias de grandeza
· ·Aumento do discurso (tagarelice)
· ·Pensamentos desconexos ou muito rápidos
· ·Aumento do interesse sexual
· ·Aumento acentuado da energia
· ·Redução do senso crítico
· ·Comportamento social inadequado
CAUSAS
DE DEPRESSÃO
Certos tipos de depressão ocorrem repetidamente em
algumas famílias, indicando que a vulnerabilidade
biológica pode ser herdada. Parece ser o caso do
distúrbio bipolar. Estudos de famílias, nas
quais membros de cada geração desenvolvem
este distúrbio, mostraram que aqueles com a doença
possuem constituição genética um tanto
diferente dos que não adoecem. Entretanto, o reverso
não é verdadeiro: nem todos com constituição
genética que determina a vulnerabilidade ao distúrbio
bipolar apresentam a doença.
Em algumas
famílias, a depressão maior também
parece ocorrer de geração em geração.
Entretanto, pode igualmente manifestar-se em indivíduos
que não possuem história familiar de depressão.
Herdada ou não, a depressão maior está
freqüentemente associada à redução
ou ao excesso de certas substâncias neuroquímicas.
A constituição
psicológica também desempenha papel na vulnerabilidade
à depressão. Pessoas com baixa auto-estima,
que se vêem sistematicamente a si mesmas e ao mundo
com pessimismo, ou que se deixam facilmente abater pelo
estresse, são predispostas à depressão.
Uma
perda importante, uma doença crônica, conflitos
de relacionamento, dificuldades financeiras ou qualquer
alteração indesejada na vida também
podem desencadear um episódio depressivo. Com freqüência,
a combinação de fatores genéticos,
psicológicos e ambientais está presente no
desenvolvimento da doença depressiva.
AVALIAÇÃO
DIAGNÓSTICA E TRATAMENTO
O primeiro passo para se iniciar um tratamento apropriado
são os exames físico e psicológico
com os quais se pode determinar se você tem uma doença
depressiva e de que tipo.
Certos
medicamentos e algumas doenças podem causar sintomas
de depressão, e o exame médico pode verificar
estas possibilidades através da entrevista e dos
exames físico e laboratorial.
Uma
boa avaliação diagnóstica também
deve incluir a história completa dos seus sintomas,
como, por exemplo, quando começaram, há quanto
tempo duram, qual a intensidade deles e se já ocorreram
antes, e, neste caso, se você fez tratamento e de
que tipo. Seu médico deve perguntar sobre o uso de
álcool e drogas, e se você pensa em morte ou
suicídio. Além disso, a avaliação
deve incluir perguntas sobre a ocorrência da doença
depressiva em seus familiares, e eventuais tratamentos que
eles possam ter recebido para depressão e qual sua
eficácia.
Por
último, a avaliação diagnóstica
deverá incluir um exame de seu estado mental para
determinar se o seu padrão de pensamento ou discurso
(conversa) e a memória estão afetados, como
freqüentemente ocorre no caso de depressão ou
distúrbio bipolar.
O tratamento
de escolha dependerá do resultado da avaliação.
Existe uma variedade de medicamentos antidepressivos e de
psicoterapia que podem ser empregados para tratar distúrbios
depressivos.
Algumas
pessoas se dão bem com psicoterapia e outros com
antidepressivos. Há os que reagem melhor com a combinação
dos dois tratamentos: medicamento para obter alívio
relativamente rápido dos sintomas e psicoterapia
para aprender maneiras mais eficazes de lidar com os problemas
diários.
Dependendo
do diagnóstico e da gravidade de seus sintomas, você
poderá receber medicamentos e/ou ser tratado com
uma das formas de psicoterapia reconhecidamente eficazes
no tratamento da depressão.
Às
vezes a eletroconvulsoterapia (ECT) é útil,
particularmente em indivíduos cuja depressão
é grave ou representa risco de vida, ou naqueles
que não podem tomar medicamentos antidepressivos.
A eletroconvulsoterapia, com freqüência, é
eficaz nos casos em que a medicação não
proporciona alívio suficiente dos sintomas. Nos últimos
anos, a ECT progrediu muito; é aplicada em hospitais,
com o paciente sob efeito de anestesia para que não
sinta dor. |