Samaúma
 

 

 

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( * ) Dr.Geraldo Mendes dos Santos, pesquisador
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia -INPA
Coordenação de Pesquisas em Biologia Aquática-CPBA
Av.André Araújo, 2936, Cx.P.478, Bairro Petrópolis Manaus- AM 69060-001
Tel.(092) 643.3235/324o/3244
ou 6442051
e-mail:gsantos@inpa.gov.br

HOLISMO CÍVICO


Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( * )



Não sei como os sociólogos, antropólogos, psicólogos e outros estudiosos do comportamento analisam a questão, mas é notória a influência do calendário na vida das pessoas.

Aliás, talvez seja esta, justamente, a razão histórica da existência da contagem do tempo e dos anelos forjados em torno das datas comemorativas. Afinal, por que festejamos aniversários, bodas de ouro e prata e tanto nos rendemos à passagem do milênio?

Por que os quinze anos são tão celebrados; a idade do lobo, tão contestada e a chegada dos setenta causa tanto espanto?

De mesmo modo, porque, normalmente, as noites das sextas-feiras são agitadas; as segundas, tão pachorrentas e as pessoas se tornam mais calma nas noites de domingo?

E no Natal, por que o clima é tão amistoso; as pessoas, tão generosas e as mesas, tão fartas? Outra data emblemática é a passagem de ano. Além de festiva, ela é duplamente marcante, celebra o ano velho que finda e o novo que irrompe.

Desconheço a natureza e as terminologias técnicas para este fenômeno Talvez ele seja pura manifestação do inconsciente coletivo ou estado psíquico, ocasionado pelos hábitos e costumes. Talvez, efeito da indução provocada pelo senso de troca, comércio e marketing. Ou então, muito provavelmente, de um caso particular de integração sistêmica dos humanos, a que se poderia denominar de holismo cívico. O fato, no entanto, é que ele acarreta uma influência muito poderosa e interessante sobre os seres humanos.

Como elemento social, indissoluvelmente ligado à cultura do povo, também estou celebrando com esta crônica, a passagem de ano. Nela, quero invocar as lições do passado, as esperanças do futuro e sobretudo, a responsabilidade do presente.

A passagem de ano é um convite à reflexão e dentre os vários assuntos ou idéias que poderia evocar, destaco três:

A) - Mudança. A mudança ocorre o tempo todo em nossas vidas e na vida do mundo. Ela é uma necessidade intrínseca do universo e precisamos nos adaptar a ela, mesmo que à custa de sacrifícios. Ela é o caminho da evolução e é por meio dela que se descortinam novos caminhos e oportunidades, mesmo quando travestidos de crises. Ser fortes, confiantes e perseverantes; isso é o que mais deve importar neste momento.

B) Solidariedade. Apesar de sermos únicos, estamos todos inter-relacionados. É fácil perceber isso, basta olhar para qualquer
coisa ou fato que temos ou fazemos. Além do mundo ser uma aldeia
globalizada, nossas comunidades são estruturadas como teias. Tudo está ligado a tudo, todos a todos. A terra, aliás, o universo, é um sistema integrado. Somos unidades de um todo, ou melhor, uma unidade cósmica. Existe uma idéia, cientificamente fundamentada e narrada em forma poética, que gosto sobremaneira: somos feitos de pó de estrelas. Além disso, cada vez mais me convenço de que a vida tem luz própria, mas todos os seres são produtos da fagulha divina. Ser cuidadoso e solidário com o próximo (sobretudo o mais carente) e com o ambiente (sobretudo aquele em que vivemos ou transitamos) é uma responsabilidade histórica, inadiável e intransferível. Estejamos atentos a isso.

C) Conhecimento. Apesar de estarmos acostumados à noção trivial de três tempos, nossas vidas é um processo atemporal e contínuo e por isso, devemos estar interessados em aprender sempre. Aprender não é apenas incorporar novas informações, mas procurar lembrar o que se sabe, conhecer a realidade sob vários ângulos, amar o conhecimento. O conhecimento é fundamental para a cidadania, a profissão, o discernimento. Ele é também a base para a sabedoria.

O ano chega ao fim, num eterno recomeço do tempo. É momento de refletir e agir. Conhecidos ou não um do outro, estamos irmanados, pois somos construtores de um mundo que se modifica a cada instante. Somos trabalhadores da grande messe. Não importa se o espaço físico e social a cada um de nós reservado seja entendido como missão divina ou realidade concreta do trabalho evolutivo.

Somos irmãos, companheiros de luta. A todos, portanto, meu abraço fraterno. Que 2002 seja para todos nós um ano próspero e feliz.

Cordiais saudações.

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