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Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( * )
Os geneticistas
conhecem bem o poder dos genes na determinação
dos caracteres. As proezas destes elementos não se
limitam apenas àqueles casos clássicos relativos
ao tamanho da crista do galo ou à cor e textura das
vagens, mas a todas as características transmitidas
de pais para filhos.
Também
na medicina há registros interessantes de fatos semelhantes,
como por exemplo a insuficiências orgânicas,
os caracteres ligados ao sexo e as predisposições
para uma vasta gama de doenças, dentre elas o câncer.
Os
genes determinam praticamente tudo na vida dos seres vivos
e o homem não é exceção. Somos
expressões genéticas. O biólogo inglês
Richard Dawkins tem uma visão bastante engenhosa
do papel dos genes e os trata como "egoístas".
Os seres existem para satisfazer o interesse dos genes,
sempre interessados em se multiplicar. Aliás, Gene
egoísta (The selfish gene) é o nome de uma
de suas obras mais conhecidas, publicada em 1989. De acordo
com esse autor, a seleção natural não
atua sobre o indivíduo, espécies ou grupos,
mas sobre os genes. Nessa concepção, os corpos
não passam de
máquinas de sobrevivência, construídas
pelos genes, para permitir sua própria replicação.
Combinando
a hipótese de Dawkins com a teoria de Darwin, pode-se
deduzir que o princípio mais fundamental na dinâmica
da vida é a seleção natural, isto é,
a evolução seleciona os genes mais aptos que
continuam existindo e se aperfeiçoando, através
das gerações. Por outro lado, combinando-a
com a passagem bíblica que afirma "no princípio
era o verbo..." talvez pudesse dizer que aqui o verbo
está consubstanciado em código genético.
Alguém poderá retrucar, afirmando que verbo
não é gene, mas palavra. E, afinal, que contém
a palavra, senão informação? Essa é
exatamente a função de ambos.
Posso
estar pecando contra os dogmas eclesiásticos, mas
convém perguntar:
se Deus é onipotente e onipresente, não poderia
Ele estar associado à essas "criaturinhas"
espetaculares? Haveria milagre mais lindo? Dizem outros
estudiosos que o ser humano é produto do processo
cultural. Isso tem sentido, mas não é tudo.
Precisamos voltar novamente para outra idéia maravilhosa
do mesmo Dawkins que afirma ser a cultura algo transmitido
por elementos semelhantes aos genes, denominados Memes.
Segundo ele, esses elementos são replicadores mentais,
passando de pessoa para pessoa por meio da vivência
coletiva. Talvez seja por isso que a escola e a família
e, mais recentemente, os computadores e a televisão
têm tanta importância nas sociedades humanas.
De
acordo com o físico e escritor Clemente da Nóbrega,
assim que nosso ancestral passou a ser estritamente humano,
afastando-se em definitivo da genealogia dos macacos - isso
há aproximadamente 100 mil anos - os genes deixaram
de ser os únicos determinadores de nossos destinos,
passando a dividir essa tarefa com os memes.
Conclusão:
somos resultado dessa parceria estranha, verdadeira simbiose,
entre genes biológicos e memes culturais. Se até
a capacidade de abstrair e raciocinar for determinada por
esses entes espetaculares, seria oportuno indagar: - onde
e como fica o eu-indivíduo?
Talvez
tenhamos que apelar para o livre arbítrio. Seria
esse o elemento essencial para a individualidade, para sermos
o que realmente somos?
Mas nós somos infinitamente insignificantes nesse
universo fabuloso e assim, não seria muito arriscado
ou sinal de exacerbada arrogância atribuir tanto poder
a esse simples atributo?
Acredito
que os genes e os memes são funcionais e muitíssimo
importantes, mas não posso descartar o papel decisivo
da fagulha divina que habita em cada um de nós. Gene,
Meme e Luz: esta é a combinação perfeita
(algo correspondente à santíssima trindade)
para sermos o que somos.
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