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Geraldo Mendes dos Santos ( * )
do
Cientificismo e Fato Habitual da Alma
Tendo acompanhado pela televisão
uma das sessões da comissão parlamentar de
inquérito que investiga a CBF e os acordos com a
empresa Nike,ouvi o atleta Ronaldinho alegar que estava
muitíssimo interessado em cooperar para que o inquérito
chegasse à verdade verdadeira.
A partir dessa declaração
bombástica, comecei a refletir se existem, de fato,
algumas verdades mais verdadeiras que outras. Também
estive lendo nestes últimos dias alguns tratados
de história acerca da infalibilidade (verdade verdadeira?)
do papa e de certas doutrinas militares e religiosas,todas
tidas como máximas redentoras.
Como espiritualista e militante
no campo da ciência, comecei também a questionar
o significado de verdade no universo científico e
na minha busca, deparei-me com alguns conceitos, a maioria
vagos e mais vinculados ao léxico que aos princípios
epistêmicos. Dentre estes, um dos mais simples foi
aquele que relaciona verdade com experiência, fato
e realidade. Mais elaborado foi outro que afirma tratar-se
a verdade de uma conformidade entre o conhecimento intelectual
e o ser pensante, uma espécie de conformidade entre
o fato, a essência da intenção, a pureza
da alma.
O grande problema, para
não dizer o tremendo paradoxo destas definições,
é que o conhecimento nunca é pleno, cada ser
é único e a real intencionalidade parece sempre
alheia ou distante dos atos simplórios do quotidiano.
Isto quer dizer, então, que a verdade é sempre
relativa, em função do grau da intenção,
do conhecimento adquirido ou do perfil do ser que a detém
ou proclama? Caso seja, como aceitar isso ao pé da
letra, se, por exemplo, Shoko Asahara (apontado como responsável
pelo atentado com gás venenoso no metrô de
Tóquio, onde morreram 12 pessoas e mais de cem ficaram
feridas), seja fundador de uma seita denominada verdade
suprema? Intriga-me perceber que as ditas verdades, quase
sempre vem acompanhadas de adjetivos como verdadeiro, supremo,
etc. Será, então, que nesse mundo humano,
já tão relativista, não existe nada
verdadeiro, nem mesmo a própria verdade? O que a
filosofia, mestra das ciências, diz a respeito?
- Absolutamente nada, mas
curiosamente, para ela, a verdade é seu objetivo
primário e objeto central de reflexão. Isso
permite concluir, então, que aquele nosso grande
atleta, talvez sem o querer, tenha acertado em cheio e feito
afinal, uma fantástica declaração.
Ou, mais complicado ainda, que todos os demais depoentes
na CPI, mesmo contraditórios entre si, estejam todos
cobertos de razão, já que todos são
possuidores de suas próprias verdades. Humm... será?
Desse modo confuso e maleável,
não vejo explicações convincentes para
o real sentido da verdade. Seria esta uma espécie
de quimera, concepção utópica, revelação
da graça, reflexo da luz espiritual de cada um, um
simples estado da consciência, fiel retrato da alma?
Mas como aceitar isso impunemente,
se as nossas grandes disciplinas - a Ciência e a Teologia
- criaram um fosso abissal entre física e metafísica,
uma mais interessada na vida e a outra na morte? Arrisco
em afirmar que o fosso é artificial, que ambas as
disciplinas convergem para um ponto comum, compartilham
dos mesmos ideais, se complementam e se entrelaçam
num fraterno abraço.
A verdade deve estar mesmo na alma! Infelizmente, predomina
na sociedade e mesmo no meio científico, uma concepção
errônea da ciência que a trai a si mesma em
sua ânsia pela busca do irrefutável, ou seja,
do absolutamente certo.
Creio que todo enunciado
científico está condenado a permanecer provisório
para sempre. Por isso, ouso também dizer que o ideal
da ciência e por extensão, a atribuição
do cientista, não é a posse da verdade, nem
do conhecimento pleno, mas sua busca permanente, bem como
uma persistente e destemida indagação crítica
a respeito deste e de tantos outros temas tidos ou contidos
em imanentes verdades.
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