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Geraldo Mendes dos Santos (*)
O trabalho é
a manifestação mais vigorosa da natureza.
Na vida humana, ele se processa em todas as fases, de maneira
incessante: no nascimento, são as acrobáticas
tentativas do parto, o desabrochar para um novo mundo; na
infância e juventude, são as descobertas constantes,
a busca incessante do novo; na maturidade, são as
árduas tarefas quotidianas, em prol da formação
profissional e da afirmação da pessoa; na
velhice, são as atividades domésticas, com
livros, filhos, enteados e netos e não raro, unicamente
o cuidado com a bengala, um dos poucos pertences nos porões
das tradicionais casas-do-idoso. Até na hora da morte
há trabalho, esse talvez o mais complicado de todos:
o retorno às origens, o caminho de casa para a vala
.
O trabalho é algo
tão fundamental e indissoluvelmente vinculado à
vida que até o ato da criação divina
está baseado no verbo "facere", fazer,
a primordial sentença bíblica do "Fiat
lux!", quando a luz foi feita. O trabalho é
a energia redentora do ideal natural, força consubstanciadora
dos atos e precursora dos fatos. É o cadinho das
realizações, o estopim das ações
e fluxo das transformações.
Assim sendo, a elevação
do Primeiro de Maio como dia internacional do Trabalho é
realmente uma iniciativa justa e merece ser comemorada,
mas também é necessário fazer uma apologia
seletiva aos diversos tipos de trabalho humano, diferenciando
claramente os limites entre aqueles que conduzem à
realização integral da pessoa, ao bem-comum
e o progresso da humanidade e os que não passam de
exercício malévolo de egoísmo exacerbado
e usurpação do patrimônio público.
É aqui, exatamente, que entra a noção
de Ética. Escrevo com letra maiúscula justamente
para realçar seu valor genuíno e seus princípios
quase auto-normativos, pois que a essência dessa virtude
não se encontra em comissões, tribunais, tratados,
códigos ou folhetins, mas no fundo do peito, no altar
da consciência.
Ligeiramente diferente do
trabalho, que não é uma prerrogativa do Homo
sapiens ou mesmo do "homo demens", mas um atributo
de todos os seres que dividem a mesmas necessidades básicas
de perpetuar os genes e matar a fome, a ética é
uma exclusividade humana. Tendo um caráter particular,
seu nível ou qualidade é variável entre
as criaturas, indo dos que a possuem como estrutura monumental,
a outros que simplesmente a detém como simbólica
miniatura.
A instituição
de um dia dedicado ao trabalho tem sentido, quer seja numa
visão universalista, humanitária ou até
mesmo escravagista, mas o mundo inteiro, sobretudo os países
que têm como líderes na política, pessoas
especializadas em escândalos, roubalheira e intrigas,
está a exigir ou a merecer um dia consagrado ao "trabalho
com ética". Que isso seja instituído
em nosso calendário cívico a partir de hoje
e que valha para todos os dias! |