Samaúma
 

 

 

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( * ) Dr.Geraldo Mendes dos Santos, pesquisador
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia -INPA
Coordenação de Pesquisas em Biologia Aquática-CPBA
Av.André Araújo, 2936, Cx.P.478, Bairro Petrópolis Manaus- AM 69060-001
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AMAZÔNIA: ENTRE A LUZ E O HOLOFOTE


Dr.Geraldo Mendes dos Santos *



A diversidade amazônica é extraordinariamente fantástica e isso se reflete não somente no mundo físico e orgânico, mas também nos aspectos sócio-culturais. Mitos e lendas são aqui incontáveis, mas apenas como exemplo cito a cobra-grande, o boto-navegador, a tapirê-iguara e o uirapuru.

Curiosamente, eles não são apenas fruto do imaginário popular; a tão venerável ciência, mesmo que através de simples narrativas de viajantes, também têm contribuído bastante para a criação de entidades míticas e folclóricas. A estória das índias Amazonas e mais recentemente do famigerado Mapinguari, entre outras, servem para ilustrar isso. Até recentemente, predominava uma teoria dando conta de que a floresta, pelo intenso processo de fotossíntese, era provedora de grande quantidade de oxigênio para a atmosfera. Foi a época do tão decantado Pulmão Verde.

Hoje, a idéia dominante é de que ela já atingiu um estado de clímax e por isso o oxigênio produzido é por ela mesma utilizado no processo inverso, de respiração. Uma outra teoria em voga é a de que a Hiléia se comporta como uma "esponja", por sua capacidade de reter carbono, sendo isso um fator positivo na atenuação dos efeitos catastróficos do temível efeito estufa. Como estamos muito habituados com dados estatísticos, mesmo quando estes aparecem em formato de "chute", devo acrescentar que alguns trabalhos estimam em cerca de 50 bilhões de toneladas a quantidade de carbono acumulada na floresta - alguma dúvida?

Estes dados são simplórios, mas servem para mostrar que a ciência e o mito têm muito em comum, a começar pelos seus signos ou elementos de estudo, que são os seres e a própria natureza. Não quero, no entanto, discorrer sobre o perfil ou os postulados científicos e mitológicos, mas de suas práticas, ou melhor, implicações. Mais especificamente, quero analisar a celeuma criada na mídia com o artigo dos pesquisadores do INPA/Smithsonian, publicado na revista Science. O cerne da questão é que estes autores, com base no desmatamento e sua confrontação com o planos de desenvolvimento traçado pelo governo no programa Avança Brasil, prognosticam dois cenários futuros para o limiar do ano 2020, nos quais as taxas de desflorestamento estarão por volta de 28% ou 42%, dependendo se as hipóteses sejam, respectivamente, otimistas ou pessimistas. Não me interessa aqui questionar os méritos técnicos do trabalho, já que este foi feito por pesquisadores gabaritados e que certamente seguiram à risca os critérios desejáveis. Importa-me tecer considerações e indagar sobre algumas questões a ele relacionados.

Assim, inicio perguntando: - Se há satélites operando diuturnamente, com geração de milhares de cálculos e dados e se já foram realizados tantos simpósios, congressos e seminários sobre as cifras do desflorestamento; se os autores do artigo e vários outros pesquisadores já fizeram inúmeros trabalhos sobre tal assunto; se tecnocratas e repórteres já estão fartos de informações sobre este tipo de problema na Amazônia e até cidadãos comuns, com um mínimo de consciência e atenção ao que se passa ao seu redor, podem perceber facilmente que a região amazônica está sendo destruída de modo progressiva e inclemente... Por que a publicação deste trabalho está provocando tanta paranóia? Se não é pela novidade dos dados, nem pela genialidade do feito, será então que toda essa repercussão deva ser creditada à fama daquela revista norte americana (Science) e ao efeito multiplicador da imprensa? Na década de 70, o Dr. Kerr, então diretor do INPA, afirmava que por volta de 2003 a floresta amazônica estaria totalmente destruída. Felizmente essa profecia não chegou a se confirmar. Lembro-me bem, que quando ele a proferiu, na tradicional sala de seminários do INPA, não havia nem mesmo microfone para registrar sua fala. É curioso notar que agora, cerca de 25 anos depois, tenha havido uma palestra, seguida de entrevista coletiva e onde um batalhão de repórteres se mostrava super interessado neste artigo que trata exatamente daquela mesma questão e quase os mesmos tipos de dados. Quais as causas de tamanha mudança, de toda essa inquietação? -

Influência da mídia, agora dotada de milhares de talentos, revitalizada com tecnologias de ponta da globalização? O instigante editorial de 22 do corrente, do jornal Estado de São Paulo afirmava que "os reis da antiguidade mandavam matar os mensageiros que lhe trouxessem más notícias para evitar que a cena se repetisse no futuro". Não é bom perguntar também se os atuais reis do mundo não estão fazendo exatamente o contrário, ou seja, mandando plantar (ou colher?!) notícias ruins exatamente para a cena se agravar e então justificar seus planos maquiavélicos - mascarados em nome da defesa da floresta, da biosfera e do mundo - e da Amazônia se apossar? Ou, numa linguagem bem popularesca - será que estão jogando verde para colher maduro?

Claro que o artigo publicado, como nenhum outro do gênero, não detém a verdade, pois essa não é a premissa básica da ciência e também há miríades de variáveis interferindo para os cenários futuros, mas por que os autores do trabalho (e parece que nem o próprio programa Avança Brasil), tão interessados em projetos grandiosos, não investigaram e teceram mais considerações sobre cenários alternativos, já que o futuro nunca é assim tão quantificável, mesmo para os papas do cientificismo e é sobejamente sabido que ele se revela muito mais de maneira caleidoscópica que estatística? Por que não se levou a discussão além dos números do desmatamento, abordando com mais propriedade outros aspectos igualmente importantes e intimamente relacionados, como a qualidade de vida dos caboclos e índios, das populações migrantes e tantos outros seres humanos que estão e estarão vivendo na Amazônia brasileira no contexto daqueles cenários? Por que os recursos previstos naquele Programa (20 a 40 bilhões de dólares) e que serviram de fundamento para as conclusões do trabalho, não foram contemporizados também com base nos atuais 20 milhões de pessoas que aqui estão vivendo e sim em projetos de infra-estrutura, muitos dos quais fortemente questionáveis e talvez nunca saiam do papel, como hidrovias, hidrelétricas, pavimentação de estradas e minas? Pergunto ainda:

- Por que há tanto interesse nas pesquisas e notoriedade em publicações sobre devastação da floresta enquanto há uma escassez sintomática de informações sobre o cultivo, exploração e agregação de valores aos produtos da terra como madeiras, frutas, a caça e a pesca? Por que se destinam tantos recursos técnicos e financeiros para os projetos megalômanos como as monoculturas de soja, que destroem covarde e impunemente o cerrado do centro-oeste (área de nascente da maioria dos rios que drenam para a Amazônia e o Pantanal) e cuja produção se destina aos países ricos e tão pouco se investe em setores mais vocacionados ou tão carentes, como saúde, educação, pesquisa, indústria química, madeireira, e do pescado, turismo, informática e transporte hidroviário? Não seria essa uma medida mais sensata e almejável, ao menos como mecanismo de se fixar decentemente mais pessoas qualificadas na região, refrear as migrações crescentes que se verificam do campo para as cidades, com aumentos potenciais da violência, poluição, criminalidade e tantos outros cancros sociais? Por que os governantes e até mesmo os cientistas não gostam de ouvir a opinião do povo para que os gastos públicos (por ironia, saídos de seus próprios bolsos!) e o objeto de estudo da própria pesquisa (também essa financiada pela mesma fonte de recursos) sejam direcionados para aquilo que realmente se constitui aspiração, interesse ou necessidade do povo? Até quando vai durar o discurso sirênico de que a Amazônia é dos brasileiros, com este tipo de política alienígena, muito mais atuante em defesa de mega-empresários, do capital internacional e de banqueiros

Para concluir, volto ao tema inicialmente proposto, lembrando que a Amazônia brasileira, além de extraordinariamente rica e diversa, é uma zona fronteiriça e como tal, marcada por fortes inquietações e conflitos de toda sorte de interesses. É fundamental, portanto, que o governo e a sociedade estejam atentos e sintonizados. Mais que nunca, esta região enfrenta um grave dilema e é por isso, que ao mesmo tempo que os holofotes da mídia se acendem para reverberar artigos publicados na Science, é preciso também que não falte luz para os demais fatos, cenas e cenários, que mesmo mais triviais, estão ocorrendo e devem ser considerados tão ou mais importantes para o conhecimento, preservação e uso sustentável da Amazônia.