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Dr.Geraldo Mendes dos Santos *
A
diversidade amazônica é extraordinariamente
fantástica e isso se reflete não somente no
mundo físico e orgânico, mas também
nos aspectos sócio-culturais. Mitos e lendas são
aqui incontáveis, mas apenas como exemplo cito a
cobra-grande, o boto-navegador, a tapirê-iguara e
o uirapuru.
Curiosamente, eles não são apenas fruto do
imaginário popular; a tão venerável
ciência, mesmo que através de simples narrativas
de viajantes, também têm contribuído
bastante para a criação de entidades míticas
e folclóricas. A estória das índias
Amazonas e mais recentemente do famigerado Mapinguari, entre
outras, servem para ilustrar isso. Até recentemente,
predominava uma teoria dando conta de que a floresta, pelo
intenso processo de fotossíntese, era provedora de
grande quantidade de oxigênio para a atmosfera. Foi
a época do tão decantado Pulmão Verde.
Hoje, a idéia dominante é de que ela já
atingiu um estado de clímax e por isso o oxigênio
produzido é por ela mesma utilizado no processo inverso,
de respiração. Uma outra teoria em voga é
a de que a Hiléia se comporta como uma "esponja",
por sua capacidade de reter carbono, sendo isso um fator
positivo na atenuação dos efeitos catastróficos
do temível efeito estufa. Como estamos muito habituados
com dados estatísticos, mesmo quando estes aparecem
em formato de "chute", devo acrescentar que alguns
trabalhos estimam em cerca de 50 bilhões de toneladas
a quantidade de carbono acumulada na floresta - alguma dúvida?
Estes
dados são simplórios, mas servem para mostrar
que a ciência e o mito têm muito em comum, a
começar pelos seus signos ou elementos de estudo,
que são os seres e a própria natureza. Não
quero, no entanto, discorrer sobre o perfil ou os postulados
científicos e mitológicos, mas de suas práticas,
ou melhor, implicações. Mais especificamente,
quero analisar a celeuma criada na mídia com o artigo
dos pesquisadores do INPA/Smithsonian, publicado na revista
Science. O cerne da questão é que estes autores,
com base no desmatamento e sua confrontação
com o planos de desenvolvimento traçado pelo governo
no programa Avança Brasil, prognosticam dois cenários
futuros para o limiar do ano 2020, nos quais as taxas de
desflorestamento estarão por volta de 28% ou 42%,
dependendo se as hipóteses sejam, respectivamente,
otimistas ou pessimistas. Não me interessa aqui questionar
os méritos técnicos do trabalho, já
que este foi feito por pesquisadores gabaritados e que certamente
seguiram à risca os critérios desejáveis.
Importa-me tecer considerações e indagar sobre
algumas questões a ele relacionados.
Assim, inicio perguntando: - Se há satélites
operando diuturnamente, com geração de milhares
de cálculos e dados e se já foram realizados
tantos simpósios, congressos e seminários
sobre as cifras do desflorestamento; se os autores do artigo
e vários outros pesquisadores já fizeram inúmeros
trabalhos sobre tal assunto; se tecnocratas e repórteres
já estão fartos de informações
sobre este tipo de problema na Amazônia e até
cidadãos comuns, com um mínimo de consciência
e atenção ao que se passa ao seu redor, podem
perceber facilmente que a região amazônica
está sendo destruída de modo progressiva e
inclemente... Por que a publicação deste trabalho
está provocando tanta paranóia? Se não
é pela novidade dos dados, nem pela genialidade do
feito, será então que toda essa repercussão
deva ser creditada à fama daquela revista norte americana
(Science) e ao efeito multiplicador da imprensa? Na década
de 70, o Dr. Kerr, então diretor do INPA, afirmava
que por volta de 2003 a floresta amazônica estaria
totalmente destruída. Felizmente essa profecia não
chegou a se confirmar. Lembro-me bem, que quando ele a proferiu,
na tradicional sala de seminários do INPA, não
havia nem mesmo microfone para registrar sua fala. É
curioso notar que agora, cerca de 25 anos depois, tenha
havido uma palestra, seguida de entrevista coletiva e onde
um batalhão de repórteres se mostrava super
interessado neste artigo que trata exatamente daquela mesma
questão e quase os mesmos tipos de dados. Quais as
causas de tamanha mudança, de toda essa inquietação?
-
Influência da mídia, agora dotada de milhares
de talentos, revitalizada com tecnologias de ponta da globalização?
O instigante editorial de 22 do corrente, do jornal Estado
de São Paulo afirmava que "os reis da antiguidade
mandavam matar os mensageiros que lhe trouxessem más
notícias para evitar que a cena se repetisse no futuro".
Não é bom perguntar também se os atuais
reis do mundo não estão fazendo exatamente
o contrário, ou seja, mandando plantar (ou colher?!)
notícias ruins exatamente para a cena se agravar
e então justificar seus planos maquiavélicos
- mascarados em nome da defesa da floresta, da biosfera
e do mundo - e da Amazônia se apossar? Ou, numa linguagem
bem popularesca - será que estão jogando verde
para colher maduro?
Claro
que o artigo publicado, como nenhum outro do gênero,
não detém a verdade, pois essa não
é a premissa básica da ciência e também
há miríades de variáveis interferindo
para os cenários futuros, mas por que os autores
do trabalho (e parece que nem o próprio programa
Avança Brasil), tão interessados em projetos
grandiosos, não investigaram e teceram mais considerações
sobre cenários alternativos, já que o futuro
nunca é assim tão quantificável, mesmo
para os papas do cientificismo e é sobejamente sabido
que ele se revela muito mais de maneira caleidoscópica
que estatística? Por que não se levou a discussão
além dos números do desmatamento, abordando
com mais propriedade outros aspectos igualmente importantes
e intimamente relacionados, como a qualidade de vida dos
caboclos e índios, das populações migrantes
e tantos outros seres humanos que estão e estarão
vivendo na Amazônia brasileira no contexto daqueles
cenários? Por que os recursos previstos naquele Programa
(20 a 40 bilhões de dólares) e que serviram
de fundamento para as conclusões do trabalho, não
foram contemporizados também com base nos atuais
20 milhões de pessoas que aqui estão vivendo
e sim em projetos de infra-estrutura, muitos dos quais fortemente
questionáveis e talvez nunca saiam do papel, como
hidrovias, hidrelétricas, pavimentação
de estradas e minas? Pergunto ainda:
-
Por que há tanto interesse nas pesquisas e notoriedade
em publicações sobre devastação
da floresta enquanto há uma escassez sintomática
de informações sobre o cultivo, exploração
e agregação de valores aos produtos da terra
como madeiras, frutas, a caça e a pesca? Por que
se destinam tantos recursos técnicos e financeiros
para os projetos megalômanos como as monoculturas
de soja, que destroem covarde e impunemente o cerrado do
centro-oeste (área de nascente da maioria dos rios
que drenam para a Amazônia e o Pantanal) e cuja produção
se destina aos países ricos e tão pouco se
investe em setores mais vocacionados ou tão carentes,
como saúde, educação, pesquisa, indústria
química, madeireira, e do pescado, turismo, informática
e transporte hidroviário? Não seria essa uma
medida mais sensata e almejável, ao menos como mecanismo
de se fixar decentemente mais pessoas qualificadas na região,
refrear as migrações crescentes que se verificam
do campo para as cidades, com aumentos potenciais da violência,
poluição, criminalidade e tantos outros cancros
sociais? Por que os governantes e até mesmo os cientistas
não gostam de ouvir a opinião do povo para
que os gastos públicos (por ironia, saídos
de seus próprios bolsos!) e o objeto de estudo da
própria pesquisa (também essa financiada pela
mesma fonte de recursos) sejam direcionados para aquilo
que realmente se constitui aspiração, interesse
ou necessidade do povo? Até quando vai durar o discurso
sirênico de que a Amazônia é dos brasileiros,
com este tipo de política alienígena, muito
mais atuante em defesa de mega-empresários, do capital
internacional e de banqueiros
Para
concluir, volto ao tema inicialmente proposto, lembrando
que a Amazônia brasileira, além de extraordinariamente
rica e diversa, é uma zona fronteiriça e como
tal, marcada por fortes inquietações e conflitos
de toda sorte de interesses. É fundamental, portanto,
que o governo e a sociedade estejam atentos e sintonizados.
Mais que nunca, esta região enfrenta um grave dilema
e é por isso, que ao mesmo tempo que os holofotes
da mídia se acendem para reverberar artigos publicados
na Science, é preciso também que não
falte luz para os demais fatos, cenas e cenários,
que mesmo mais triviais, estão ocorrendo e devem
ser considerados tão ou mais importantes para o conhecimento,
preservação e uso sustentável da Amazônia.
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