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Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( * )
Acaba
de ser realizado o workshop "Plano Diretor de Manaus
- Vila, Cidade Metrópole", patrocinado pela
Prefeitura e que teve como objetivo debater os problemas,
potencialidades, tendências e perspectivas do desenvolvimento
da cidade. As palestras e sessões de trabalho estiveram
abertas ao público, sendo que delas participaram
ativamente técnicos do governo e de empresas privadas,
empresários, profissionais de várias áreas,
estudantes e povo em geral. Ao final, resultou uma lista
muito interessante de sugestões que devem subsidiar
o planejamento e as ações administrativas
dessa metrópole nas próximas décadas.
Não
me compete tratar de dados ou resultados decorrentes do
evento, uma competência legítima da municipalidade
e do Instituto Brasileiro de Administração
Municípios (IBAM), que estão incumbidos dessa
tarefa, mas como participante do evento e cidadão
adotivo dessa amada cidade, não poderia deixar de
fazer algumas considerações. Em meio a tantos
assuntos relevantes, desloco a análise para fora
do cerne das questões levantadas, concentrando-me
no significado do evento como exercício de cidadania,
gesto de civilidade e postulado democrático.
Notei
que alguns cidadãos insurgiram contra a realização
do Plano Diretor, alegando que já existe um outro,
elaborado em 1975, com o nome de Plano de Desenvolvimento
Local Integrado (PDLI) e que ao longo desses anos não
tem sido devidamente seguido nem observado. Outros afirmaram
não ter havido uma participação representativa
das massas populares, nem mesmo da classe política.
É claro que isso tem sentido e num momento especial
como esse, em que os holofotes da mídia estão
por todos os lados, haja espaço para as várias
correntes ideológicas e todos têm direito de
se manifestar contra ou a favor, mas é preciso afirmar
que o nome que se dá a esse empreendimento, qual
a data de sua promulgação ou qual político
é seu signatário são coisas menores,
fatos irrelevantes. O que devem importar, verdadeiramente,
são o conteúdo, autenticidade e abrangência
do documento. Talvez, mais importante ainda, seja o processo
em si, refletido na participação coletiva,
na atuação digna e decente das pessoas em
parar para refletir sobre o presente e destino da cidade,
em cooperar para o bem comum. Portanto, com exceção
de um ou outro detalhe controverso, não há
dúvida de que o encontro foi sumamente importante,
um sucesso total, se não pelos louros alcançados,
pelo ato em si mesmo e sua essência exemplar.
É
impossível a elaboração de um plano
para uma cidade do porte e da complexidade de Manaus que
venha a contemplar os interesses de todos os setores ou
agentes sociais, mas é preciso que os governantes
estabeleçam macro políticas, diretrizes básicas
de procedimentos e marcos referencias para o desenvolvimento
público desejável.É igualmente necessário
que ele seja feito de maneira clara e direta, onde não
somente os melhores técnicos do estado ou do mercado
sejam convidados a atuar, mas também, e precipuamente,
que haja a participação do povo, ator principal,
cliente maior e agente básico das mudanças
sócio-econômicas e ambientais. Assim sendo,
os planos não podem ser documentos herméticos,
prontos e acabados e que devem ser seguidos cegamente pelos
políticos e empreendedores, ou usados como álibis
de ações desonestas, impróprias ou
fracassadas. Antes disso, eles devem ser guias abertos à
consulta e domínio público e possam comportar
adaptações nos momentos imprevisíveis,
frente aos revezes tão comuns à mecânica
dos ciclos humanos, aos ritmos da vida e ao dinamismo da
própria realidade.
Em
síntese, quero deixar registrada minha esperança
e entusiasmo no processo de elaboração do
plano para a cidade de Manaus. Entendo que ele tenha sido
uma boa lição de cidadania e civismo. Assim,
acredito que ele venha a ser um documento bem elaborado
e que espelhe com fidelidade os anseios reais e majoritários
da sociedade manauara. Tomara ele venha contribuir para
o crescimento mais ordenado da zona urbana e periférica,
a exploração mais racional e sustentável
das potencialidades locais, a preservação
dos igarapés e dos bosques, a diminuição
da pobreza e da alienação, a valorização
do homem em sua total capacidade. Pudera ele se constitua
num fermento desencadeador de elevado senso cívico
e nova postura ética, tanto para o político,
mas sobretudo para o eleitor, conscientizando-os de que
o bem-coletivo deve estar sempre acima dos interesses privados
e que a responsabilidade pela formação e transformação
desta cidade não é somente do governante,
mas de todos. O plano diretor constitui-se apenas em mais
uma semente nesse processo formativo e transformador e a
semente está lançada. Oxalá o terreno
seja fértil e a colheita seja boa.
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