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Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( * )
AO MASSACRE GLOBALIZANTE
A
globalização tem trazido muitos benefícios
- os poderosos e alienados baterão sempre nessa tecla,
sem maiores considerações - mas ela carrega
uma capacidade deletéria e ultrajante contra a diversidade
natural e cultural e tantas outras maravilhas da vida. José
Lutzenberger, um dos mais convictos e veementes ecólogos
que já conheci, denominou este processo de terraplanagem,
apresentando na década de 80 vários argumentos
em prol dessa premissa. Vale a pena conhecer suas idéias.
A
globalização tem um tremendo poder de conquista
e atrai multidões, como insetos em noite escura,
frente a um luminoso clarão. Ela é uma onda
envolvente e intempestiva e sob vários aspectos se
constitui em engodo atraente, arapuca perigosa, alucinógeno
da perdição. A ordem e os valores do mundo
globalizado estão fundamentados na competitividade
e nos níveis de produção, sendo que
o resto tem pouca ou nenhuma importância. Seu legado
básico é a massificação humana,
sob o império da economia, considerada a mais nobre
das ciências e à qual todas as demais subordinam,
não pela importância intrínseca, mas
pela ignomínia do mando e desmando. É a famosa
lei-do-cão, ou em termos mais brandos, "manda
quem pode, obedece quem tem juízo", ou ainda,
"o dinheiro é o peso de tudo". Filha bastarda
do capitalismo aviltante, a globalização submete
tudo e todos aos mesmos caprichos, aos mesmos processos.
Nela impera o jugo do forte contra o fraco, numa escravidão
cínica, meio escusa, meio aberta. Seu alvo maior
e princípio determinante é a demanda; seu
mando é sempre vigoroso e a servidão que impõe
covardemente só conhece a regra da compra/venda,
não importando os valores, além dos monetários.
Não é à toa que sob seus auspícios
e na visão míope que destoa, os seres humanos
não passam de agentes do mercado, os famosos clientes
especiais ou simplesmente, senhores-consumidores.
Neste
universo consumista a que fomos submetidos, independente
de nossas escolhas, moda é moda e o resto não
conta, sobretudo se o poder aquisitivo é baixo ou
se passou dos quarenta. O fetiche da massa é a beleza
física - que também gera renda!- nem que isso
seja obtido pelo abuso das barras de ferro, pela plástica
ou silicone. O chique é a magreza (há remédios
para todos os gostos) e para quem ainda não está
capacitado, sempre se recomenda o acocho no ventre e, de
quebra, um sapato de salto bem alto.
O
pior disso tudo é que os hábitos dos grã-finos
(ou grãos finos!) e as tendências da moda são
ditados de longe, normalmente nos departamentos comerciais
das empresas matrizes, tudo reverberado pela mágica
da mídia e do marketing. O detalhe essencial dessa
façanha é que estas coisas não podem
durar muito, o tempo de vida útil é cientificamente
calculado e antes que estas pifem ou entrem em desuso, já
existe uma montanha de projetos para novos lançamentos
no mercado. É a ciranda maluca do consumismo, um
seriado inacabável, onde as genuínas necessidades
humanas são deixadas de lado para dar lugar e suporte
ao luxo e à vaidade, estes sim, fantasias vazias,
travestidas de necessidades básicas.
A
globalização é gananciosa e atrevida,
portanto não se contenta com o lucro auferido nas
coisas supérfluas. Ela também invade as mercearias,
mini, super e hiper-mercados para determinar o tipo de alimento
que deve ser consumido, ora produtos agrícolas quimicamente
poluídos ou, mais sorrateiramente, derivados de organismos
geneticamente modificados. É a lei da selva tecnológica,
onde se salva quem pode e na realidade, poucos salvam, porque
a comida e demais produtos têm quase sempre a mesma
composição e marca ou são ofertados
pelas mesmas indústrias, as grandes donas do mercado.
A
globalização é o retrato dos ricos
e o fantasma dos pobres, gerando em conjunto uma imagem
distorcida do contexto natural, da vivência transcendente
e do mundo cósmico onde os valores e as essências
são totalmente diversas. A unanimidade é burra,
como bem disse o Nelson Rodrigues e também a vida
abomina a monotonia, como podemos ver por todos os lados.
Por que, então, submeter-se ao exagero da mesmice
e deixar-se levar por esse apelo sirênico de um mundo
globalizado? A beleza da natureza (tanto ambiental como
humana), a homeostase dos ecossistemas e os encantos da
vida estão na diversidade e isso contrasta violentamente
com o capitalismo globalizante, arquétipo real de
um mundo dividido entre os ricos que tudo tem e pobres que
passam fome. A natureza, com sua sabedoria intrínseca,
deve nos servir de exemplo na repartição do
pão e de outros valores, a maioria deles incompatíveis
com o senso de moeda ou dinheiro. Aliás, depois de
amanhã se comemora o dia da terra, uma homenagem
à Gaia, nossa mãe benfazeja. Que sua sacrossanta
diversidade (mesmo que vilipendiada pelo processo globalizante)
nos sirva de motivação, inspiração
e alerta.
Abraço
a todos.
Cordiais saudações.
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