Samaúma
 

 

 

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( * ) Dr.Geraldo Mendes dos Santos, pesquisador
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia -INPA
Coordenação de Pesquisas em Biologia Aquática-CPBA
Av.André Araújo, 2936, Cx.P.478, Bairro Petrópolis Manaus- AM 69060-001
Tel.(092) 643.3235/324o/3244
ou 6442051
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LIÇÃO DE GAIA


Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( * )



AO MASSACRE GLOBALIZANTE


A globalização tem trazido muitos benefícios - os poderosos e alienados baterão sempre nessa tecla, sem maiores considerações - mas ela carrega uma capacidade deletéria e ultrajante contra a diversidade natural e cultural e tantas outras maravilhas da vida. José Lutzenberger, um dos mais convictos e veementes ecólogos que já conheci, denominou este processo de terraplanagem, apresentando na década de 80 vários argumentos em prol dessa premissa. Vale a pena conhecer suas idéias.

A globalização tem um tremendo poder de conquista e atrai multidões, como insetos em noite escura, frente a um luminoso clarão. Ela é uma onda envolvente e intempestiva e sob vários aspectos se constitui em engodo atraente, arapuca perigosa, alucinógeno da perdição. A ordem e os valores do mundo globalizado estão fundamentados na competitividade e nos níveis de produção, sendo que o resto tem pouca ou nenhuma importância. Seu legado básico é a massificação humana, sob o império da economia, considerada a mais nobre das ciências e à qual todas as demais subordinam, não pela importância intrínseca, mas pela ignomínia do mando e desmando. É a famosa lei-do-cão, ou em termos mais brandos, "manda quem pode, obedece quem tem juízo", ou ainda, "o dinheiro é o peso de tudo". Filha bastarda do capitalismo aviltante, a globalização submete tudo e todos aos mesmos caprichos, aos mesmos processos. Nela impera o jugo do forte contra o fraco, numa escravidão cínica, meio escusa, meio aberta. Seu alvo maior e princípio determinante é a demanda; seu mando é sempre vigoroso e a servidão que impõe covardemente só conhece a regra da compra/venda, não importando os valores, além dos monetários. Não é à toa que sob seus auspícios e na visão míope que destoa, os seres humanos não passam de agentes do mercado, os famosos clientes especiais ou simplesmente, senhores-consumidores.

Neste universo consumista a que fomos submetidos, independente de nossas escolhas, moda é moda e o resto não conta, sobretudo se o poder aquisitivo é baixo ou se passou dos quarenta. O fetiche da massa é a beleza física - que também gera renda!- nem que isso seja obtido pelo abuso das barras de ferro, pela plástica ou silicone. O chique é a magreza (há remédios para todos os gostos) e para quem ainda não está capacitado, sempre se recomenda o acocho no ventre e, de quebra, um sapato de salto bem alto.

O pior disso tudo é que os hábitos dos grã-finos (ou grãos finos!) e as tendências da moda são ditados de longe, normalmente nos departamentos comerciais das empresas matrizes, tudo reverberado pela mágica da mídia e do marketing. O detalhe essencial dessa façanha é que estas coisas não podem durar muito, o tempo de vida útil é cientificamente calculado e antes que estas pifem ou entrem em desuso, já existe uma montanha de projetos para novos lançamentos no mercado. É a ciranda maluca do consumismo, um seriado inacabável, onde as genuínas necessidades humanas são deixadas de lado para dar lugar e suporte ao luxo e à vaidade, estes sim, fantasias vazias, travestidas de necessidades básicas.

A globalização é gananciosa e atrevida, portanto não se contenta com o lucro auferido nas coisas supérfluas. Ela também invade as mercearias, mini, super e hiper-mercados para determinar o tipo de alimento que deve ser consumido, ora produtos agrícolas quimicamente poluídos ou, mais sorrateiramente, derivados de organismos geneticamente modificados. É a lei da selva tecnológica, onde se salva quem pode e na realidade, poucos salvam, porque a comida e demais produtos têm quase sempre a mesma composição e marca ou são ofertados pelas mesmas indústrias, as grandes donas do mercado.

A globalização é o retrato dos ricos e o fantasma dos pobres, gerando em conjunto uma imagem distorcida do contexto natural, da vivência transcendente e do mundo cósmico onde os valores e as essências são totalmente diversas. A unanimidade é burra, como bem disse o Nelson Rodrigues e também a vida abomina a monotonia, como podemos ver por todos os lados. Por que, então, submeter-se ao exagero da mesmice e deixar-se levar por esse apelo sirênico de um mundo globalizado? A beleza da natureza (tanto ambiental como humana), a homeostase dos ecossistemas e os encantos da vida estão na diversidade e isso contrasta violentamente com o capitalismo globalizante, arquétipo real de um mundo dividido entre os ricos que tudo tem e pobres que passam fome. A natureza, com sua sabedoria intrínseca, deve nos servir de exemplo na repartição do pão e de outros valores, a maioria deles incompatíveis com o senso de moeda ou dinheiro. Aliás, depois de amanhã se comemora o dia da terra, uma homenagem à Gaia, nossa mãe benfazeja. Que sua sacrossanta diversidade (mesmo que vilipendiada pelo processo globalizante) nos sirva de motivação, inspiração e alerta.

Abraço a todos.
Cordiais saudações.

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