Samaúma
 

 

 

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( * ) Dr.Geraldo Mendes dos Santos, pesquisador
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia -INPA
Coordenação de Pesquisas em Biologia Aquática-CPBA
Av.André Araújo, 2936, Cx.P.478, Bairro Petrópolis Manaus- AM 69060-001
Tel.(092) 643.3235/324o/3244
ou 6442051
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GLOBALIZAÇÃO DA CIÊNCIA


Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( * )

A globalização é um fenômeno irreversível, universal e irreverente também tem prós e contras. Discussões, conferências, tratados e até livros já foram feitos a respeito do tema que engloba processos, produtos, serviços e relações. É verdade que o termo, também denominado mundialização (ou imperialismo dos países ricos, segundo os mais cépticos e críticos) já está bastante desgastado, mas é bom lembrar que sua ação continua firme forte mundo afora.

Apesar das vantagens decorrentes da aldeia global, como a maior possibilidade no fluxo de mercadorias, informações, pessoas e idéias e também da livre disponibilidade de tecnologias de ponta que trazem bastante conforto e novas perspectivas, é consenso geral de que a globalização tem provocado efeitos nefastos, dentre eles a concentração de renda e riqueza, a exclusão impiedosa de grandes parcelas sociais e o aumento acentuado da miséria. E no campo da ciência, quais as influências desse fenômeno? Ou será que este setor, dado seu ar de nobreza, permanece a ele imune e ileso? Bem, como a ciência é uma atividade inerente ao ser humano, um "meme" cultural e replicável que permeia todas as mentes, é possível afirmar que não. Ou seja, a ciência também está sujeita às suas implicações e mazelas. Mas daí vem outra questão: - Por que os reflexos da globalização sobre a ciência geralmente não tido a devida repercussão? Isso é estranho, porque a busca, reflexão e análise crítica são a essência, matéria prima e ferramenta do cientista e é paradoxal que este, como intelectual analítico, não tenha percebido com a devida atenção ou manifestado a tempo sobre este aspecto que tão de perto lhe diz respeito.

Não vou discutir aqui as causas ou razões dessa situação, mas para não tocar o tema adiante, deixando de lado um aspecto tão relevante, levanto a hipótese de que isso talvez se deva ao fato de que a ciência seja produto de uma classe privilegiada, denominada por alguns de meritocrática e portanto, colocada num patamar deslocado da realidade trivial, distante daquilo que se passa no mundo comum. Além disso, por sua natureza altamente positiva de procurar entender o mundo de maneira racional, ela tem sido detentora dum fetiche inexplicável, misto de profano e sagrado, bestial veneração. Talvez este tipo de conjectura seja por demais provocativa e também não muito aplicável a um sem número de cientistas, muitos deles altamente sensíveis, pessoas cordiais e humildes, mas parece não haver dúvidas que no mundo capitalista, onde tudo é subjugado aos interesses econômicos, a ciência também é alvo (ou vítima?!) do processo vil da globalização.

Não somente a ciência, como instituição do saber, está subordinada à influência econômica. Também a prática científica tem mudado bastante. Ao contrário do que acontecia até cerca de trinta anos atrás, quando o cientista era bancado unicamente pelo erário, tinha tempo à vontade e liberdade total para escolha de seus temas, hoje ele é induzido ou mesmo forçado a participar de um esquema de complexas atividades, envolvendo concorrência com seus pares por promoções, editais de projeto e programas, gerenciamento de pessoal e recursos. Num contexto de tal natureza, há alguma diferença de atuação ou estilo entre o pesquisador, gestor, administrador ou qualquer outro profissional de gabarito? Trata-se aqui de uma qualidade polivalente do cientista ou de sua transfiguração em outros tipos de agentes? Em alguns casos, o cientista é exaltado como salvador da pátria, em outros, é execrado como estudioso de sexo angelical ou de temas de pouca relevância. Onde está o limite da diferença e da tolerância? Por que alguns estudos, altamente originais e enriquecedores em termos de informação, ficam restritos à comunidade científica, enquanto outros, às vezes da mesma natureza ou até mais simplórios, fazem tanto sucesso, tem tanto impacto na mídia?

Tem-se a impressão que hoje os ramos da ciência com maior peso ou valência não são aqueles geradores do conhecimento básico, mas os feitos para atender demandas. Assim sendo, é natural que a preferência para o maior aporte de capital vá recair naquelas que sejam mais promissoras para os mercados emergentes, se constituam em atestado para tecnologias mercadológicas ou que dêem dividendos políticos, de marketing e propaganda.

Diante do massacre globalizante, parece que até mesmo os tradicionais critérios de valores e ordenamento da atividade científica foram subvertidos. Prioritariamente, não mais se busca dinheiro para financiar
projetos de pesquisa; projeta-se em função do dinheiro disponível ou às vezes simplesmente prometido e o clamor geral é a busca de novos recursos... verdadeira ciranda!

Talvez para justificar, dar racionalidade ou mesmo legitimar esse processo incongruente, criou-se no imaginário coletivo (mesmo quando se trata de intelectuais da mais alta patente acadêmica) a noção de que ciência deva também fazer parte desse jogo, ou melhor, do modelo globalizante e portanto estar sujeita ao seu caráter pragmático, altamente competitivo e nada diletante.

Claro que não se advoga o exercício da pesquisa como algo hermético e inconseqüente, desvinculado da realidade do mundo ou das necessidades sociais, mas daí torná-la numa atividade de negociação financeira,
verdadeiro exercício de oferta-e-procura, há uma enorme distância.

Os governantes e as autoridades científicas deveriam estar atentos a esses perigosos percalços e deixar definitivamente ao Estado a responsabilidade da majoritária participação no financiamento à investigação científica. Isso parece fundamental não somente para o conhecimento da natureza e das potencialidades do país, mas também para a formação responsável dos jovens, a conquista da cidadania e a defesa da pátria.

Apesar do grau de conhecimento que detém em sua área específica, o cientista é um cidadão comum, elemento coletivo e ativo agente da sociedade e por isso jamais deve colocar sua carreira a serviço deste tipo de mercantilismo nem sujeitar-se aos caprichos de certas agências de fomento que dizem estar fazendo doação à ciência, quando na verdade estão tentando aliciar pessoas e amortizar dívidas. No mesmo ideário, na busca de investimentos financeiros e na formação de parcerias, o cientista deve ser mais criterioso, responsável e prudente, não se deixando levar pelos subterfúgios das recompensas transitórias, nem pelas vanglórias pessoais, engodos óbvios e facetas perniciosas do capitalismo selvagem, do processo globalizante.

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