|
Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( * )
A globalização
é um fenômeno irreversível, universal
e irreverente também tem prós e contras. Discussões,
conferências, tratados e até livros já
foram feitos a respeito do tema que engloba processos, produtos,
serviços e relações. É verdade
que o termo, também denominado mundialização
(ou imperialismo dos países ricos, segundo os mais
cépticos e críticos) já está
bastante desgastado, mas é bom lembrar que sua ação
continua firme forte mundo afora.
Apesar das vantagens decorrentes
da aldeia global, como a maior possibilidade no fluxo de
mercadorias, informações, pessoas e idéias
e também da livre disponibilidade de tecnologias
de ponta que trazem bastante conforto e novas perspectivas,
é consenso geral de que a globalização
tem provocado efeitos nefastos, dentre eles a concentração
de renda e riqueza, a exclusão impiedosa de grandes
parcelas sociais e o aumento acentuado da miséria.
E no campo da ciência, quais as influências
desse fenômeno? Ou será que este setor, dado
seu ar de nobreza, permanece a ele imune e ileso? Bem, como
a ciência é uma atividade inerente ao ser humano,
um "meme" cultural e replicável que permeia
todas as mentes, é possível afirmar que não.
Ou seja, a ciência também está sujeita
às suas implicações e mazelas. Mas
daí vem outra questão: - Por que os reflexos
da globalização sobre a ciência geralmente
não tido a devida repercussão? Isso é
estranho, porque a busca, reflexão e análise
crítica são a essência, matéria
prima e ferramenta do cientista e é paradoxal que
este, como intelectual analítico, não tenha
percebido com a devida atenção ou manifestado
a tempo sobre este aspecto que tão de perto lhe diz
respeito.
Não vou discutir
aqui as causas ou razões dessa situação,
mas para não tocar o tema adiante, deixando de lado
um aspecto tão relevante, levanto a hipótese
de que isso talvez se deva ao fato de que a ciência
seja produto de uma classe privilegiada, denominada por
alguns de meritocrática e portanto, colocada num
patamar deslocado da realidade trivial, distante daquilo
que se passa no mundo comum. Além disso, por sua
natureza altamente positiva de procurar entender o mundo
de maneira racional, ela tem sido detentora dum fetiche
inexplicável, misto de profano e sagrado, bestial
veneração. Talvez este tipo de conjectura
seja por demais provocativa e também não muito
aplicável a um sem número de cientistas, muitos
deles altamente sensíveis, pessoas cordiais e humildes,
mas parece não haver dúvidas que no mundo
capitalista, onde tudo é subjugado aos interesses
econômicos, a ciência também é
alvo (ou vítima?!) do processo vil da globalização.
Não somente a ciência,
como instituição do saber, está subordinada
à influência econômica. Também
a prática científica tem mudado bastante.
Ao contrário do que acontecia até cerca de
trinta anos atrás, quando o cientista era bancado
unicamente pelo erário, tinha tempo à vontade
e liberdade total para escolha de seus temas, hoje ele é
induzido ou mesmo forçado a participar de um esquema
de complexas atividades, envolvendo concorrência com
seus pares por promoções, editais de projeto
e programas, gerenciamento de pessoal e recursos. Num contexto
de tal natureza, há alguma diferença de atuação
ou estilo entre o pesquisador, gestor, administrador ou
qualquer outro profissional de gabarito? Trata-se aqui de
uma qualidade polivalente do cientista ou de sua transfiguração
em outros tipos de agentes? Em alguns casos, o cientista
é exaltado como salvador da pátria, em outros,
é execrado como estudioso de sexo angelical ou de
temas de pouca relevância. Onde está o limite
da diferença e da tolerância? Por que alguns
estudos, altamente originais e enriquecedores em termos
de informação, ficam restritos à comunidade
científica, enquanto outros, às vezes da mesma
natureza ou até mais simplórios, fazem tanto
sucesso, tem tanto impacto na mídia?
Tem-se a impressão
que hoje os ramos da ciência com maior peso ou valência
não são aqueles geradores do conhecimento
básico, mas os feitos para atender demandas. Assim
sendo, é natural que a preferência para o maior
aporte de capital vá recair naquelas que sejam mais
promissoras para os mercados emergentes, se constituam em
atestado para tecnologias mercadológicas ou que dêem
dividendos políticos, de marketing e propaganda.
Diante do massacre globalizante,
parece que até mesmo os tradicionais critérios
de valores e ordenamento da atividade científica
foram subvertidos. Prioritariamente, não mais se
busca dinheiro para financiar
projetos de pesquisa; projeta-se em função
do dinheiro disponível ou às vezes simplesmente
prometido e o clamor geral é a busca de novos recursos...
verdadeira ciranda!
Talvez para justificar,
dar racionalidade ou mesmo legitimar esse processo incongruente,
criou-se no imaginário coletivo (mesmo quando se
trata de intelectuais da mais alta patente acadêmica)
a noção de que ciência deva também
fazer parte desse jogo, ou melhor, do modelo globalizante
e portanto estar sujeita ao seu caráter pragmático,
altamente competitivo e nada diletante.
Claro que não se
advoga o exercício da pesquisa como algo hermético
e inconseqüente, desvinculado da realidade do mundo
ou das necessidades sociais, mas daí torná-la
numa atividade de negociação financeira,
verdadeiro exercício de oferta-e-procura, há
uma enorme distância.
Os governantes e as autoridades
científicas deveriam estar atentos a esses perigosos
percalços e deixar definitivamente ao Estado a responsabilidade
da majoritária participação no financiamento
à investigação científica. Isso
parece fundamental não somente para o conhecimento
da natureza e das potencialidades do país, mas também
para a formação responsável dos jovens,
a conquista da cidadania e a defesa da pátria.
Apesar do grau de conhecimento que detém em sua área
específica, o cientista é um cidadão
comum, elemento coletivo e ativo agente da sociedade e por
isso jamais deve colocar sua carreira a serviço deste
tipo de mercantilismo nem sujeitar-se aos caprichos de certas
agências de fomento que dizem estar fazendo doação
à ciência, quando na verdade estão tentando
aliciar pessoas e amortizar dívidas. No mesmo ideário,
na busca de investimentos financeiros e na formação
de parcerias, o cientista deve ser mais criterioso, responsável
e prudente, não se deixando levar pelos subterfúgios
das recompensas transitórias, nem pelas vanglórias
pessoais, engodos óbvios e facetas perniciosas do
capitalismo selvagem, do processo globalizante.
|