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( * ) Irm. Geraldo Mendes dos Santos, pesquisador
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e-mail:gsantos@inpa.gov.br

Um fato maravilhoso.


Irm. Geraldo Mendes dos Santos ( * )


No último final de semana assisti em Manaus a um fato maravilhoso e surpreendente: a liquidação promovida por uma livraria de renome e a súbita corrida da população para a compra de livros. Não se tratou daquela conhecida e obrigatória busca de material didático, exigida pelas escolas, nem da incitação mercadológica das listas dos "mais vendidos" ou mesmo de obras raras tão a gosto de amealhados pela sorte, meio-nobres, pobres-ricos.

Tratou-se, sim, da disponibilidade de todo um estoque,
material precioso e diverso de uma eclética loja. Nunca havia presenciado um fato daquele tipo: uma multidão enorme de compradores, num só local, ao mesmo tempo, com um só propósito: escolher e comprar livros. Perambulava no recinto, num entra-e-sai interminável, gente atenta e simpática, pessoas de todas as idades e classes.

Por causa do calor sufocante, o suor não se limitava à face, banhava todo o corpo e suas marcas se espalhavam sobre todos os objetos, por todos os lados. Tendo passado cerca de três horas naquele ambiente animado, parando entre uma e outra estante à procura de livros interessantes, pude obter elementos valiosos para uma boa reflexão, uma autêntica lição de vida, que gostaria de deixar registrada na presente crônica:

Primeiro: a idéia generalizada de que o povo brasileiro não lê ou não é dado à leitura ou escrita é fato ilusório, pobre mentira. Há, de fato, uma verdadeira fome intelectual, uma ânsia incontida pelo saber. O baixo nível de compra, uso ou consumo de livros (ou qualquer outro elemento da fria
estatística) provavelmente se deve ao seu elevadíssimo custo, tornando-o assim, inacessível à maioria dos assalariados e autônomos de poucos recursos. Entre tantas necessidades vitais do indivíduo, é evidente que em situação de impasse, o mais importante fica por conta do estômago. Como corolário dessa premissa, fica claro que há uma grande demanda reprimida pela aquisição do livro; o acesso das pessoas a esse bem acaba sendo inviabilizado.

Segundo, a chegada impetuosa do computador e a disseminação triunfante da internet não foram nem serão capazes de contrapor à importância fundamental e ao largo alcance do livro. Parece mesmo que esse se torna a mais e mais importante.

O Brasil, comparado com as nações desenvolvidas, como Estados Unidos e mesmo em desenvolvimento, como a Argentina, é paupérrimo em número de livrarias e isso é sintomático do quadro acima esboçado. Diante dessa situação, os cidadãos mais conscientes de nosso país, destacando-se entre eles os intelectuais, empresários, políticos e ativistas e todos os tipos não podem se calar; ao contrário, devem formar uma corrente impiedosa em favor do incentivo governamental e empresarial à produção e disseminação de livros. Não somente aqueles destinados às atividades acadêmicas, mas de todas as obras conhecidas e em vias de se tornarem realidade.

A exemplo das políticas públicas criadas em nome da soja, do franco, da cana e da mandioca, tão importantes para o sustento do corpo e das contas, o administrador competente deve conceder o mesmo tipo de apoio ao livro, alimento básico do intelecto, da cultura, lazer e da consciência cívica.

Para os defensores de princípios econômicos absurdos e tão atentos aos índices produtivos do sistema capitalista não é demais lembrar que eventuais despesas com edição de livros deve constituir-se numa estratégia de governo e de desenvolvimento social sustentável.

Trata-se, portanto, de um elemento contábil que não deve ser incluído nas rubricas de dívidas ou gastos, mas em investimento, em bem público. Em outras palavras, trata-se de uma equação de pura lógica e bom senso, uma obviedade clara da relação custo/benefício e portanto uma ação meritória e desejável por toda a sociedade, seja ela velha ou nova, rica ou pobre, culta ou inculta.

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