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Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( * )
O ritmo
acelerado das descobertas e da difusão do conhecimento,
principalmente na forma de estratégias, métodos,
técnicas, processos e procedimentos, tem sido uma
constante na trajetória humana, sobretudo nas últimas
décadas. Em função disso, muitas empresas,
instituições, setores e atividades têm
passado por profundas modificações para se
adaptar às novas situações, demandas
e exigências. Curiosamente, apesar da formação
intelectual e dos bons propósitos dos mestres e gestores,
é no setor educacional, em especial nos níveis
escolares mais baixos, que esse fenômeno parece se
dar de modo mais acanhado e lento. Trata-se, portanto, de
um tremendo paradoxo e incongruência, pois ao invés
dele se afigurar como um elemento inovador e de vanguarda,
descortinador de novos modelos e tendências, percebe-se
que o processo educacional se fixa receoso nas últimas
fileiras, estando portando à reboque das formalidades,
da burocracia, do modismos e outras perniciosas pendências.
Menos
como educador formal e mais como pai de infante e adolescente,
tenho observado um severo anacronismo e uma incompreensível
paralisia no conteúdo programático do ensino,
sendo que alguns temas se constituem em verdadeira afronta
à inteligência, à coerência e
ao bom senso. Um dos fatos mais evidentes é o ciclo
vicioso das exigências das respostas ao pé
da letra, a simples decoração de datas e nomes,
os conceitos emitidos sem a clara ou mínima noção
dos princípios ou mesmo das palavras que lhes dizem
respeito.
Como
exemplo concreto dessa assertiva, cito a exigência
de memorização do dia e ano das festas tradicionais
dos municípios amazonenses (mesmo quando estas mudam
de ano para ano por causa dos entraves econômicos,
burocráticos e políticos!) ou da data da proclamação
da república para alunos recém alfabetizados,
com 6 a 7 anos, e para os quais nunca foi ensinado o significado
do verbo Proclamar e muito menos a exata noção
de República. Para completar este quadro, menciono
também que normalmente são exigidos das pobres
crianças a memorização do dia do índio
e do professor, o nome da autora de uma tal lei áurea
e do patriarca da independência e um monte de outras
sandices do gênero.
Que
esse tipo de colocação não seja interpretado
como desabono ou desmerecimento à capacidade dos
técnicos e mestres que lidam com tal ciência.
Não, absolutamente! O propósito é tão
somente enfatizar o dilema enfrentado por alunos, pais e
educadores e chamar a atenção para a premência
de se buscar meios mais apropriados para o aprimoramento
das técnicas de ensino, a melhoria do nível
de conhecimento aplicado e a própria educação.
As leis do ensino e o conteúdo dos currículos
são necessários, mas estes devem se adequar
à praticidade, à racionalidade, á criatividade
e ao bom senso. É preciso que o tradicionalismo e
a repetitividade, ainda tão em voga, dêem espaço
ou ceda a vez à algo mais essencial, estimulante,
útil e construtivo para formação da
criança e à construção da sociedade.
Assunto importante para ser ensinado é o que não
falta; o mundo atual está repleto de informação
e a humanidade carente de valores, sobretudo aqueles vinculados
à justiça, cidadania, dignidade e à
ética .
Na
qualidade de alma pura, gestada pela energia cósmica
e incubada num oceano de vicissitudes e dúvidas,
a criança precisa de liberdade para, a seu modo,
observar, inventar, descobrir e perscrutar. Para contrapor
às aproximadamente 100.000 vezes que uma criança
até aproximadamente aos 7 anos ouve a sentença
Não, ela deveria ter o direito de ouvir neste mesmo
tempo outros tanto ou mais ainda milhões de SIM.
À criança deve ser dada ampla liberdade para
a imaginação e muito incentivo para a aprendizagem
através de tentativas de acertos e erros. A descoberta
e a experimentação são coisas prazerosas
e edificantes, não somente para o intelectual e estudante
de meia-idade, mas para todo o ser humano e isso parece
singularmente aplicável a criança que tem
uma tendência inata para a curiosidade. Para ela,
a interpretação deve ser mais valiosa que
o ato, a elucubração tão importante
que o fato e a análise da complexidade, mais pertinente
que a simples repetição da informação
dada. Assim sendo, trata-se de uma tremenda deformação
pedagógica a aplicação ilimitada da
decoração de dados ou a definição
imprecisa ou deturpada conceitos e fatos. Mais que transmitir
conhecimento, é fundamental ensinar à criança
a aprender.
Como
ser puro de incomensurável grandeza, a criança
jamais deve ser cerceada na sua busca do abstrato e da sua
irresistível vocação para o lúdico.
Neste sentido, a educação não pode
ser ancorada basicamente em atividades formais, sem sentido,
sem graça. Ao contrário, ela deve ser alicerçada
no processo criativo, norteador de potencialidades e desencadeador
de oportunidades não somente na sala de aula ou na
vivência acadêmica, mas em toda a vida. Talvez
já esteja passando da hora de uma verdadeira revolução
nos conteúdos programáticos, nas práticas
de ensino e sobretudo nas mentalidades reinantes em muitas
de nossas escolas. É necessário o resgate
da educação como meio de aquisição
do conhecimento, formação do caráter
e instrumento do saber. Para isso, a indução
à criatividade e o incentivo à reflexão
devem contrapor à essa pobreza generalizada de apelo
rasteiro e obsessivo à memorização,
sobretudo de nomes e de datas. A sociedade moderna, já
tendo á disposição tantos computadores
e vários outros tipos de máquinas, precisa
muito menos de decorebas e muito mais de pensadores.
PS.:
Chequei de viagem há pouco;
prazer estar aqui novamente convosco.
Cordiais saudações.
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