Samaúma
 

 

 

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( * ) Dr.Geraldo Mendes dos Santos, pesquisador
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia -INPA
Coordenação de Pesquisas em Biologia Aquática-CPBA
Av.André Araújo, 2936, Cx.P.478, Bairro Petrópolis Manaus- AM 69060-001
Tel.(092) 643.3235/324o/3244
ou 6442051
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Decorebas ou Pensadores?


Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( * )



O ritmo acelerado das descobertas e da difusão do conhecimento, principalmente na forma de estratégias, métodos, técnicas, processos e procedimentos, tem sido uma constante na trajetória humana, sobretudo nas últimas décadas. Em função disso, muitas empresas, instituições, setores e atividades têm passado por profundas modificações para se adaptar às novas situações, demandas e exigências. Curiosamente, apesar da formação intelectual e dos bons propósitos dos mestres e gestores, é no setor educacional, em especial nos níveis escolares mais baixos, que esse fenômeno parece se dar de modo mais acanhado e lento. Trata-se, portanto, de um tremendo paradoxo e incongruência, pois ao invés dele se afigurar como um elemento inovador e de vanguarda, descortinador de novos modelos e tendências, percebe-se que o processo educacional se fixa receoso nas últimas fileiras, estando portando à reboque das formalidades, da burocracia, do modismos e outras perniciosas pendências.

Menos como educador formal e mais como pai de infante e adolescente, tenho observado um severo anacronismo e uma incompreensível paralisia no conteúdo programático do ensino, sendo que alguns temas se constituem em verdadeira afronta à inteligência, à coerência e ao bom senso. Um dos fatos mais evidentes é o ciclo vicioso das exigências das respostas ao pé da letra, a simples decoração de datas e nomes, os conceitos emitidos sem a clara ou mínima noção dos princípios ou mesmo das palavras que lhes dizem respeito.

Como exemplo concreto dessa assertiva, cito a exigência de memorização do dia e ano das festas tradicionais dos municípios amazonenses (mesmo quando estas mudam de ano para ano por causa dos entraves econômicos, burocráticos e políticos!) ou da data da proclamação da república para alunos recém alfabetizados, com 6 a 7 anos, e para os quais nunca foi ensinado o significado do verbo Proclamar e muito menos a exata noção de República. Para completar este quadro, menciono também que normalmente são exigidos das pobres crianças a memorização do dia do índio e do professor, o nome da autora de uma tal lei áurea e do patriarca da independência e um monte de outras sandices do gênero.

Que esse tipo de colocação não seja interpretado como desabono ou desmerecimento à capacidade dos técnicos e mestres que lidam com tal ciência. Não, absolutamente! O propósito é tão somente enfatizar o dilema enfrentado por alunos, pais e educadores e chamar a atenção para a premência de se buscar meios mais apropriados para o aprimoramento das técnicas de ensino, a melhoria do nível de conhecimento aplicado e a própria educação. As leis do ensino e o conteúdo dos currículos são necessários, mas estes devem se adequar à praticidade, à racionalidade, á criatividade e ao bom senso. É preciso que o tradicionalismo e a repetitividade, ainda tão em voga, dêem espaço ou ceda a vez à algo mais essencial, estimulante, útil e construtivo para formação da criança e à construção da sociedade. Assunto importante para ser ensinado é o que não falta; o mundo atual está repleto de informação e a humanidade carente de valores, sobretudo aqueles vinculados à justiça, cidadania, dignidade e à ética .

Na qualidade de alma pura, gestada pela energia cósmica e incubada num oceano de vicissitudes e dúvidas, a criança precisa de liberdade para, a seu modo, observar, inventar, descobrir e perscrutar. Para contrapor às aproximadamente 100.000 vezes que uma criança até aproximadamente aos 7 anos ouve a sentença Não, ela deveria ter o direito de ouvir neste mesmo tempo outros tanto ou mais ainda milhões de SIM. À criança deve ser dada ampla liberdade para a imaginação e muito incentivo para a aprendizagem através de tentativas de acertos e erros. A descoberta e a experimentação são coisas prazerosas e edificantes, não somente para o intelectual e estudante de meia-idade, mas para todo o ser humano e isso parece singularmente aplicável a criança que tem uma tendência inata para a curiosidade. Para ela, a interpretação deve ser mais valiosa que o ato, a elucubração tão importante que o fato e a análise da complexidade, mais pertinente que a simples repetição da informação dada. Assim sendo, trata-se de uma tremenda deformação pedagógica a aplicação ilimitada da decoração de dados ou a definição imprecisa ou deturpada conceitos e fatos. Mais que transmitir conhecimento, é fundamental ensinar à criança a aprender.

Como ser puro de incomensurável grandeza, a criança jamais deve ser cerceada na sua busca do abstrato e da sua irresistível vocação para o lúdico. Neste sentido, a educação não pode ser ancorada basicamente em atividades formais, sem sentido, sem graça. Ao contrário, ela deve ser alicerçada no processo criativo, norteador de potencialidades e desencadeador de oportunidades não somente na sala de aula ou na vivência acadêmica, mas em toda a vida. Talvez já esteja passando da hora de uma verdadeira revolução nos conteúdos programáticos, nas práticas de ensino e sobretudo nas mentalidades reinantes em muitas de nossas escolas. É necessário o resgate da educação como meio de aquisição do conhecimento, formação do caráter e instrumento do saber. Para isso, a indução à criatividade e o incentivo à reflexão devem contrapor à essa pobreza generalizada de apelo rasteiro e obsessivo à memorização, sobretudo de nomes e de datas. A sociedade moderna, já tendo á disposição tantos computadores e vários outros tipos de máquinas, precisa muito menos de decorebas e muito mais de pensadores.

PS.: Chequei de viagem há pouco;
prazer estar aqui novamente convosco.
Cordiais saudações.

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