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Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( * )
No universo fantástico das idéias
e das palavras, humildade ocupa um lugar de destaque. Ela
tem vários sentidos, alguns deles díspares,
outros opostos, mas todos belos. Exatamente por causa da
profusão de significados que possui, humildade pressupõe
riqueza e diversidade.
Humildade representa as coisas mais simples e ingênuas,
mas também as maiores complexidades. Para alguns
é sinal das fraquezas humanas, para outros, a mais
sublime das virtudes. Etimologicamente, humildade vem do
latim Humus, de onde também deriva Homem (Homo sapiens)
e Humanidade. O fato dessas palavras estarem vinculadas
à húmus, é certamente uma sábia
exortação de que mantemos com a terra um vínculo
eterno e embrionário. Reconhecer e aceitar essa verdade
é não somente um princípio elementar
de ecologia profunda, mas uma apologia ao valor e
à lição da humildade.
Se a humildade está relacionada com solo fértil
e produtivo, talvez a ostentação, a luxúria
e o esnobismo representem o oposto disso e portanto, não
passem de terra desgastada e empobrecida, talvez simples
cascalho.
É bem provável que o senso original da palavra
humildade tenha sido modificado intencionalmente ao longo
do tempo e sob influência do capitalismo. Talvez isso
contrariasse os interesse dos ricos de matéria ou
então dos pobres de espírito. Não é
à toa que convencionou-se associar humildade à
pobreza, sendo quase inconcebível a idéia
de um rico humilde ou de um humilde rico. Que desvirtuamento!
Não gosto de apelos religiosos ou místicos
no que escrevo, mas talvez seja por isso que o grande mestre
Jesus tenha dito "quem se humilha será exaltado
e quem se exalta será humilhado".
Humildade é simples por natureza e por isso não
comporta a bazófia, a prepotência e mentira.
Ela é como a água, de valor extremo no ato
consciente do apreço ou diante da força irresistível
da necessidade.
Compete a cada um de nós dar ou reconhecer a importância
intrínseca da humildade nas circunstâncias
em que vivemos.
Humildade não é submissão ou medo,
nem a falta de dinheiro, mas consideração
ao próximo, a Deus e à vida. Também,
ela não é covardia diante do inusitado ou
do forasteiro, mas uma reverência condigna e uma demonstração
de modéstia e respeito.
Infelizmente, no mundo atual, dominado pela propaganda e
pela postura excessivamente iconoclasta, a humildade parece
anacrônica e às vezes serve de pecha. No frenesi
da competição e num meio social dominado pela
aparência, auto-promoção e farsa, às
vezes é arriscado assumir a humildade. Isso faz parte
da evolução das sociedades e é bom
que sejamos adaptativos, mas é indispensável
não perder a real dimensão da humildade. Nesse
meio tão hostil da sociedade consumista, talvez seja
prudente mantê-la dissimulada, guardada na alma com
muito zelo e cuidado.
Não me recordo das predicações verbais
e discordo de certas regras gramaticais sem sentido ou propósito
e por isso não concebo o verbo humilhar como sinônimo
de ser humilhado. Dependendo do contexto ou da interpretação,
estas duas formas indicam ações antagônicas,
uma denotando rebaixamento e opressão, outra crescimento
e mérito.
Devo fazer uma última observação sobre
a etimologia de Humildade: Além de húmus,
como vimos, provavelmente esta palavra também esteja
relacionada ao termo grego Homo, com o sentido de unidade
e integridade. Essa é uma clara evidência de
que, além de sermos únicos, somos semelhante
ao próximo, temos a mesma origem e um destino comum,
somos irmãos, porque filhos de um mesmo Pai.
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