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( * ) Irm. Geraldo Mendes dos Santos, pesquisador
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e-mail:gsantos@inpa.gov.br

O MITO DA MANDIOCA


Irm. Geraldo Mendes dos Santos ( * )

 

As sociedades modernas, em especial aquelas dominadas pelo ideário técnico-científico, parecem desprezar os mitos e seus ensinamentos. Nelas, tudo gira ao redor das invenções materialistas, como se isso fosse a fiel demonstração da verdade ou a única expressão da realidade conhecida.

É claro que a ciência é algo formidável, pois só ela é capaz de combater a tirania da superstição e ignorância, entretanto, ela não explica tudo. Há elementos essenciais da vida que escapam à sua visão ou controle.Como nos ensina o teólogo e filósofo Leonardo Boff (1999), não é seguro que com a inteligência instrumental, com toda a tradição de pesquisa empírica, capacidade crítica e acumulação de saberes sobre praticamente tudo, o intelectual ou especialista moderno venha conhecer mais a natureza integral do ser humano que os antigos formuladores de mitos.

Que são mitos? Por mais que varie as formas de conceito, eles são simplesmente as linguagens referenciais para traduzir fenômenos profundos do ser humano e indescritíveis pela razão analítica.

Normalmente, eles encerram elementos importantes da história, lições maravilhosas de moral e ética e uma capacidade extraordinária para a abstração. Vale a pena conhecer a narrativa de alguns mitos. Ao invés de distanciar da verdade, dela mais nos aproxima, ao tornar-nos mais abertos e conhecedores de outras dimensões humanas. Acreditando nisso, narro aqui o mito tupi da mandioca, alimento básico de várias culturas indígenas, do caboclo amazonense e da maior parte da sociedade brasileira.

"Conta-se que um dia certo cacique ganhou uma linda netinha chamada Mandi. Por causa da cor de sua pele, extremamente branca, todos na tribo olhavam para ela com ares de medo, intriga e revolta, acreditando tratar-se de terrível presságio. Um dia, reuniram-se e, sem rodeios, pediram ao cacique que desse fim à menina.

O avô, tomado de compaixão, protelou até onde pôde aquela crueldade. Numa madrugada, foi até o rio com a neta e a lavou cuidadosamente; na volta, reuniu com a tribo e sentenciou: - os espíritos recomendaram que essa menina fique entre nós e que seja bem tratada! Mesmo a contragosto, os índios acataram resignados à decisão do grande chefe. Mandi foi crescendo com tanta graça e beleza que todos ficaram cativados por ela.

Após alguns anos veio a falecer e seus pais, sabendo de quanto o velho avô a amava, acabaram decidindo enterrá-la em sua maloca. Ele, inconsolável, chorava dia e noite sobre a tumba da neta e tantas foram as lágrimas que do chão brotou uma plantinha.

Conta o mito que um dia a terra se abriu para deixar à mostra, as raízes belas e majestosas daquela planta. Os índios, respeitosos, as colheram e comeram para incorporar em seus corpos os elementos do corpo de Mandi. A essas lindas e saborosas raízes deram o nome de Mandi-oca. Oca significa casa, portanto, mandioca é a casa de Mandi.

A ciência tradicional sabe que a mandioca, Manihot dulcis e M. utilissima pertence á família das euforbiáceas, é originária das regiões nordeste e centro-oeste brasileiras, foi introduzida na África pelos portugueses e hoje se espalha pelos países da América Central e Ásia. Também sabe que ela contém muito amido nos tubérculos e cerca de 18% de proteína, além de muita vitamina B1, fósforo e ferro nas folhas.

O mito não trata disso, mas talvez seja por causa dele que esta planta tenha acompanhado tão de perto a vida do homem e sendo responsável
pelo milagre de saciar a fome de tanta gente, mundo afora.

Se acham que a importância do mito não pode ir tão longe, que ele possa servir de exemplo para a leveza e graça das figuras míticas. Por outro lado, que estas possam substituir ou amenizar as influências violentas e beligerantes que os brinquedos tecnológicos da sociedade globalizada e consumista exercem sobre a mente de nossas crianças.

A benção, mandi!

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