|
Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( * )
No seu discurso
de renúncia, o senador Antônio Carlos Magalhães
fez duas severas e contundentes críticas ao governo
do presidente Fernando Henrique Cardoso: uma por causa do
"apagão energético", referente ao
colapso na produção e fornecimento de eletricidade,
o que tem levado o setor produtivo e a sociedade em geral
a uma situação de perplexidade, conturbação
e impasse. Outra, que ele denominou "apagão
moral", ocasionado pela onda de irresponsabilidade,
improbidade administrativa e roubo do erário, que
vem ocorrendo em vários setores do governo.
Curioso é
que a pessoa que fez essas afirmações é
um dos maiores caciques da política brasileira, membro
irmanado e inveterado do poder palaciano. Mais curioso ainda
é o fato de que estas declarações se
deram no momento em que ele se despedia do cenário
político, uma estratégia para escapar do processo
de cassação em curso, motivado pelo seu envolvimento
na violação do painel do Senado. Nesse imbróglio
político, as denúncias foram múltiplas,
vários fatos ficaram escamoteados ou sem explicação
(por exemplo, quem solicitou e quem guardou a famosa lista
de votação) e a maioria das justificativas
dos atores envolvidos no caso foram contraditórias,
resultando na constituição de um terceiro
fenômeno, que poderia denominar-se "apagão
ético".
Se, como bem
disse o senador baiano, o segundo caso é mais grave
que o primeiro, talvez não fosse falso ou apressado
também afirmar que o terceiro é o mais grave
de todos. Eletricidade é um bem essencial, instrumento
tecnológico imprescindível para o trabalho
e conforto nos dias atuais. Embora os prejuízos ocasionados
por sua falta ou escassez possam ser enormes, certamente
a crise energética será passageira, desde
que para isso contribuam a criatividade, a mudança
de hábitos, o planejamento responsável e a
disponibilidade de mais geradores.
Moral é
um bem psíquico e sócio-cultural de fundamental
importância para o ordenamento das sociedades e das
relações interpessoais e costuma ser implacavelmente
vigiada por todos. A tradição recomenda que
nos casos de indecoro ou afronta aos valores em voga, os
infratores devem ser punidos com os rigores da lei e nesse
país, convenhamos, lei é o que não
falta.
Ética
é um bem especial, intransferível e imponderável.
Tanto pode manifestar-se ostensivamente em atitudes e atos,
como passar despercebida, sem nenhuma notoriedade. Em qualquer
caso, no entanto, é sempre exemplar e excelsa. Sua
violação, além de prejudicar ao próximo,
gera conflitos íntimos de toda ordem, induz ao mau
caminho, alicia os jovens. Talvez seja por causa dessa multiplicidade
de fatores que a quantificação da culpa e
imposição dos limites das penas para quem
peca contra a ética seja tão complicado. Também,
talvez seja por isso que ao invés das penalidades
externas, alguns infratores preferem a renúncia,
em nome da "mea culpa". É uma pena que
estejamos sendo vítima de penúrias em três
vertentes tão importantes para a estruturação
da sociedade, como a eletricidade, a moralidade e a ética.
Isso é profundamente lastimável, mas certamente
não será a perdição do país
ou a conspurcação da pátria. Talvez
seja até mesmo um momento precioso para a conscientização
coletiva, a tomada de posição e a busca de
novos rumos. A história é mestra e o povo,
sábio. Apesar de sofrido e oprimido, o brasileiro
tem uma capacidade de discernimento e aprendizado extraordinária.
Por hora, é
preciso paciência e busca de soluções
criativas para superação da crise energética.
Eletricidade é um problema de tecnologia, administração
e vontade política. Dá para superar, tranqüilamente.
A moralidade se conquista com o acompanhamento e fiscalização
das ações governamentais pela sociedade organizada.
Com cidadania, chega-se lá. Quanto à ética,
a coisa é mais trabalhosa e demorada. Não
existe receituário, cada um tem a sua, conforme o
estágio da consciência, o grau de desenvolvimento
espiritual e a luz que irradia a alma. Por isso mesmo, todos
têm que estar atentos. Se realmente queremos um mundo
mais justo, digno e feliz, não podemos abrir mão
dela. Como síntese de toda essa reflexão,
não reluto em afirmar que, além de eletricidade
e consciência política, precisamos de luz.
Luz! Mais luz!, como dizia o poeta. Pai, Fiat Lux!
|