Samaúma
 

 

 

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( * ) Dr.Geraldo Mendes dos Santos, pesquisador
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia -INPA
Coordenação de Pesquisas em Biologia Aquática-CPBA
Av.André Araújo, 2936, Cx.P.478, Bairro Petrópolis Manaus- AM 69060-001
Tel.(092) 643.3235/324o/3244
ou 6442051
e-mail:gsantos@inpa.gov.br

Fiat Lux!


Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( * )

 

No seu discurso de renúncia, o senador Antônio Carlos Magalhães fez duas severas e contundentes críticas ao governo do presidente Fernando Henrique Cardoso: uma por causa do "apagão energético", referente ao colapso na produção e fornecimento de eletricidade, o que tem levado o setor produtivo e a sociedade em geral a uma situação de perplexidade, conturbação e impasse. Outra, que ele denominou "apagão moral", ocasionado pela onda de irresponsabilidade, improbidade administrativa e roubo do erário, que vem ocorrendo em vários setores do governo.

Curioso é que a pessoa que fez essas afirmações é um dos maiores caciques da política brasileira, membro irmanado e inveterado do poder palaciano. Mais curioso ainda é o fato de que estas declarações se deram no momento em que ele se despedia do cenário político, uma estratégia para escapar do processo de cassação em curso, motivado pelo seu envolvimento na violação do painel do Senado. Nesse imbróglio político, as denúncias foram múltiplas, vários fatos ficaram escamoteados ou sem explicação (por exemplo, quem solicitou e quem guardou a famosa lista de votação) e a maioria das justificativas dos atores envolvidos no caso foram contraditórias, resultando na constituição de um terceiro fenômeno, que poderia denominar-se "apagão ético".

Se, como bem disse o senador baiano, o segundo caso é mais grave que o primeiro, talvez não fosse falso ou apressado também afirmar que o terceiro é o mais grave de todos. Eletricidade é um bem essencial, instrumento tecnológico imprescindível para o trabalho e conforto nos dias atuais. Embora os prejuízos ocasionados por sua falta ou escassez possam ser enormes, certamente a crise energética será passageira, desde que para isso contribuam a criatividade, a mudança de hábitos, o planejamento responsável e a disponibilidade de mais geradores.

Moral é um bem psíquico e sócio-cultural de fundamental importância para o ordenamento das sociedades e das relações interpessoais e costuma ser implacavelmente vigiada por todos. A tradição recomenda que nos casos de indecoro ou afronta aos valores em voga, os infratores devem ser punidos com os rigores da lei e nesse país, convenhamos, lei é o que não falta.

Ética é um bem especial, intransferível e imponderável. Tanto pode manifestar-se ostensivamente em atitudes e atos, como passar despercebida, sem nenhuma notoriedade. Em qualquer caso, no entanto, é sempre exemplar e excelsa. Sua violação, além de prejudicar ao próximo, gera conflitos íntimos de toda ordem, induz ao mau caminho, alicia os jovens. Talvez seja por causa dessa multiplicidade de fatores que a quantificação da culpa e imposição dos limites das penas para quem peca contra a ética seja tão complicado. Também, talvez seja por isso que ao invés das penalidades externas, alguns infratores preferem a renúncia, em nome da "mea culpa". É uma pena que estejamos sendo vítima de penúrias em três vertentes tão importantes para a estruturação da sociedade, como a eletricidade, a moralidade e a ética. Isso é profundamente lastimável, mas certamente não será a perdição do país ou a conspurcação da pátria. Talvez seja até mesmo um momento precioso para a conscientização coletiva, a tomada de posição e a busca de novos rumos. A história é mestra e o povo, sábio. Apesar de sofrido e oprimido, o brasileiro tem uma capacidade de discernimento e aprendizado extraordinária.

Por hora, é preciso paciência e busca de soluções criativas para superação da crise energética. Eletricidade é um problema de tecnologia, administração e vontade política. Dá para superar, tranqüilamente. A moralidade se conquista com o acompanhamento e fiscalização das ações governamentais pela sociedade organizada. Com cidadania, chega-se lá. Quanto à ética, a coisa é mais trabalhosa e demorada. Não existe receituário, cada um tem a sua, conforme o estágio da consciência, o grau de desenvolvimento espiritual e a luz que irradia a alma. Por isso mesmo, todos têm que estar atentos. Se realmente queremos um mundo mais justo, digno e feliz, não podemos abrir mão dela. Como síntese de toda essa reflexão, não reluto em afirmar que, além de eletricidade e consciência política, precisamos de luz. Luz! Mais luz!, como dizia o poeta. Pai, Fiat Lux!

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