Samaúma

 

 

 

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( * ) Dr.Geraldo Mendes dos Santos, pesquisador
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia -INPA
Coordenação de Pesquisas em Biologia Aquática-CPBA
Av.André Araújo, 2936, Cx.P.478, Bairro Petrópolis Manaus- AM 69060-001
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O MITO E A PRESERVAÇÃO DOS BOTOS


Dr.Geraldo Mendes dos Santos*

Antes da estruturação da ciência, os fenômenos da natureza, a origem dos deuses e das coisas e até as orquestrações mentais e psíquicas do homem eram explicados ou atribuído aos Mitos. Era por intermédio deles que os povos, as civilizações e os indivíduos entendiam e interpretavam o mundo, a existência e a realidade do meio. É por isso que os mitos se fundem com as próprias narrativas de conteúdo histórico, filosófico, moral e religioso, unindo assim a natureza e as tendências humanas com a vontade e os planos de Deus. A vinculação que o mito faz entre o profano e o sagrado mostra que ele conjuga temas e interesses que se situam além das coisas concretas e imediatas, permeando o senso comum, a experiência e a lógica. O mito é profundo, dispensa explicação e para ele basta a fé, mesmo sem nenhuma religião. Essa é a grande diferença que ele apresenta em relação à ciência, que é descrente por natureza e exige sempre demonstração. Por esta característica singular, o mito se converte em fábula ou ficção quando sente rejeitada a verdade que prega, enquanto para a ciência a verdade é a meta maior, desde que submetida à experimentação constante. Enquanto naquele impera a crença, nesta tudo é verdade falseável, isto é, para uma verdade rompida, sempre surgem novas verdades que devem ser sempre testadas.

A grande vantagem do mito é que ele oferece resposta elegante, pronta e acabada para perguntas básicas que a ciência, com todo seu poderio conceitual e instrumental, nunca conseguiu responder ou refutar. Por exemplo, o que é e de onde veio a vida? Como o universo surgiu, qual seu tamanho e qual o destino da consciência depois da morte? O mito é eclético e tem uma linguagem plástica de fazer inveja. Expressão simbólica dos sentimentos contidos de um povo, como diz Freud, ou manifestação dos arquétipos que surgem do inconsciente coletivo da humanidade, como assinala Jung, o mito é também uma expressão artística e agente da ecologia, da religião e da arte. Leonardo Boff assinala com muita propriedade que os mitos são portadores de conhecimento aderido à emoção e por isso são formas de linguagem extraordinária, capaz de traduzir fenômenos profundos, indescritíveis pela razão analítica. Para ele, é difícil ou mesmo impossível retratar os seres e os fenômenos desconsiderando as dimensões genuinamente humanas como emoção, medo, alegria, amor e entusiasmo, entre outros sentimentos, pois os conceitos abstratos e frios do racionalismo puro não conseguem traduzir as cores da realidade.

Observa-se no meio acadêmico, sobretudo na área das ciências ditas exatas e da terra, uma forte resistência para aceitar os ensinamentos contidos nos mitos. Isso se nota até mesmo na maneira de grafar a palavra, pois enquanto se recomenda escrever Ciência e Tecnologia com maiúsculas, mito é escrito com todas as letras miudinhas. Alguns intelectuais asseguram que o mito é totalmente contrário ao princípio científico e por isso não lhe dão crédito Outros mais esnobes tentam desmerecê-lo ou aniquilá-lo, tal qual uma guerra santa em nome da ciência, qual santa inquisição ou tantas outras santas guerras. Por que isso? Talvez por que os mitos sejam auto-explicativos e concentrem conhecimentos óbvios demais, o que deve ser uma afronta para os profissionais do saber e que às vezes sabem pouco demais.

Simplório na aparência, o conhecimento mitológico é repleto de complexidade em seu íntimo e isso é muito desafiador para a racionalidade. Assim sendo, se forem analisados criticamente, eles perdem o encanto e passam a se constituir mera ficção. Por outro lado, se forem aceitos como verdadeiros, tornam-se valores supremos, passando a dogma de seitas e religiões e nenhum destes extremos lhe interessam ou dizem respeito. Então, além de insignificantes ou confusos para a grande maioria dos intelectuais, a quem interessa e para que servem os mitos no mundo moderno? Ah! que pergunta consumista, racional e maquiavélica! Confesso não saber, mas para não deixá-la sem resposta, digo que eles devem interessar a todos os pensadores e têm uma utilidade fantástica! Além das influências altamente positivas na educação, literatura, escultura, poesia e em vários outros ramos da atividade humana, os mitos têm desempenhado uma função extraordinária na conservação da biodiversidade, inclusive na Amazônia. Duvidam? - Pois então observem, por exemplo, a situação dos botos em nossos rios. Nunca vi ou soube que caçadores ou pescadores tenham matado intencionalmente um desses animais e por isso, em relação a outros vertebrados de grande porte, eles têm populações altamente estáveis e bem preservadas. Ou acham que essa situação invejável se deve unicamente ao conhecimento científico adquirido sobre eles, à ajuda dos espíritos ou à alguma mãe-fada? Se não sabem, recorram aos mitos lendários dos índios e caboclos, nossos sábios professores preservacionistas. Se sabem, saibam mais. Quem mais sabe mais quer saber, e os mitos, ecléticos e eternos, têm sempre muito a ensinar, algo novo a oferecer.

A ciência é maravilhosa, mas não deixa de trazer uma certa frustração ou mesmo insulo à alma porque na utilização de seus instrumentos de análise temos que desconsiderar certas formas prodigiosas de energias sapientes que habitam as profundezas do ser humano, ou melhor, que fazem parte de sua essência e de sua totalidade. Como Boff e vários outros filósofos, estou certo de que para buscar o conhecimento integral dos seus objetos de estudo e de si mesmo, o cientista deve ser capaz de combinar inteligência racional-instrumental, de onde vem o rigor científico, com a inteligência emocional-intuitiva, donde derivam os mitos e com eles as imagens, as utopias e os sonhos.