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Dr.Geraldo
Mendes dos Santos*
Antes da estruturação da ciência,
os fenômenos da natureza, a origem dos deuses e das
coisas e até as orquestrações mentais
e psíquicas do homem eram explicados ou atribuído
aos Mitos. Era por intermédio deles que os povos,
as civilizações e os indivíduos entendiam
e interpretavam o mundo, a existência e a realidade
do meio. É por isso que os mitos se fundem com as
próprias narrativas de conteúdo histórico,
filosófico, moral e religioso, unindo assim a natureza
e as tendências humanas com a vontade e os planos
de Deus. A vinculação que o mito faz entre
o profano e o sagrado mostra que ele conjuga temas e interesses
que se situam além das coisas concretas e imediatas,
permeando o senso comum, a experiência e a lógica.
O mito é profundo, dispensa explicação
e para ele basta a fé, mesmo sem nenhuma religião.
Essa é a grande diferença que ele apresenta
em relação à ciência, que é
descrente por natureza e exige sempre demonstração.
Por esta característica singular, o mito se converte
em fábula ou ficção quando sente rejeitada
a verdade que prega, enquanto para a ciência a verdade
é a meta maior, desde que submetida à experimentação
constante. Enquanto naquele impera a crença, nesta
tudo é verdade falseável, isto é, para
uma verdade rompida, sempre surgem novas verdades que devem
ser sempre testadas.
A grande vantagem do mito é que ele
oferece resposta elegante, pronta e acabada para perguntas
básicas que a ciência, com todo seu poderio
conceitual e instrumental, nunca conseguiu responder ou
refutar. Por exemplo, o que é e de onde veio a vida?
Como o universo surgiu, qual seu tamanho e qual o destino
da consciência depois da morte? O mito é eclético
e tem uma linguagem plástica de fazer inveja. Expressão
simbólica dos sentimentos contidos de um povo, como
diz Freud, ou manifestação dos arquétipos
que surgem do inconsciente coletivo da humanidade, como
assinala Jung, o mito é também uma expressão
artística e agente da ecologia, da religião
e da arte. Leonardo Boff assinala com muita propriedade
que os mitos são portadores de conhecimento aderido
à emoção e por isso são formas
de linguagem extraordinária, capaz de traduzir fenômenos
profundos, indescritíveis pela razão analítica.
Para ele, é difícil ou mesmo impossível
retratar os seres e os fenômenos desconsiderando as
dimensões genuinamente humanas como emoção,
medo, alegria, amor e entusiasmo, entre outros sentimentos,
pois os conceitos abstratos e frios do racionalismo puro
não conseguem traduzir as cores da realidade.
Observa-se no meio acadêmico, sobretudo
na área das ciências ditas exatas e da terra,
uma forte resistência para aceitar os ensinamentos
contidos nos mitos. Isso se nota até mesmo na maneira
de grafar a palavra, pois enquanto se recomenda escrever
Ciência e Tecnologia com maiúsculas, mito é
escrito com todas as letras miudinhas. Alguns intelectuais
asseguram que o mito é totalmente contrário
ao princípio científico e por isso não
lhe dão crédito Outros mais esnobes tentam
desmerecê-lo ou aniquilá-lo, tal qual uma guerra
santa em nome da ciência, qual santa inquisição
ou tantas outras santas guerras. Por que isso? Talvez por
que os mitos sejam auto-explicativos e concentrem conhecimentos
óbvios demais, o que deve ser uma afronta para os
profissionais do saber e que às vezes sabem pouco
demais.
Simplório na aparência, o conhecimento
mitológico é repleto de complexidade em seu
íntimo e isso é muito desafiador para a racionalidade.
Assim sendo, se forem analisados criticamente, eles perdem
o encanto e passam a se constituir mera ficção.
Por outro lado, se forem aceitos como verdadeiros, tornam-se
valores supremos, passando a dogma de seitas e religiões
e nenhum destes extremos lhe interessam ou dizem respeito.
Então, além de insignificantes ou confusos
para a grande maioria dos intelectuais, a quem interessa
e para que servem os mitos no mundo moderno? Ah! que pergunta
consumista, racional e maquiavélica! Confesso não
saber, mas para não deixá-la sem resposta,
digo que eles devem interessar a todos os pensadores e têm
uma utilidade fantástica! Além das influências
altamente positivas na educação, literatura,
escultura, poesia e em vários outros ramos da atividade
humana, os mitos têm desempenhado uma função
extraordinária na conservação da biodiversidade,
inclusive na Amazônia. Duvidam? - Pois então
observem, por exemplo, a situação dos botos
em nossos rios. Nunca vi ou soube que caçadores ou
pescadores tenham matado intencionalmente um desses animais
e por isso, em relação a outros vertebrados
de grande porte, eles têm populações
altamente estáveis e bem preservadas. Ou acham que
essa situação invejável se deve unicamente
ao conhecimento científico adquirido sobre eles,
à ajuda dos espíritos ou à alguma mãe-fada?
Se não sabem, recorram aos mitos lendários
dos índios e caboclos, nossos sábios professores
preservacionistas. Se sabem, saibam mais. Quem mais sabe
mais quer saber, e os mitos, ecléticos e eternos,
têm sempre muito a ensinar, algo novo a oferecer.
A ciência é maravilhosa, mas
não deixa de trazer uma certa frustração
ou mesmo insulo à alma porque na utilização
de seus instrumentos de análise temos que desconsiderar
certas formas prodigiosas de energias sapientes que habitam
as profundezas do ser humano, ou melhor, que fazem parte
de sua essência e de sua totalidade. Como Boff e vários
outros filósofos, estou certo de que para buscar
o conhecimento integral dos seus objetos de estudo e de
si mesmo, o cientista deve ser capaz de combinar inteligência
racional-instrumental, de onde vem o rigor científico,
com a inteligência emocional-intuitiva, donde derivam
os mitos e com eles as imagens, as utopias e os sonhos. |