Samaúma
 

 

 

 

Voltar para página principal.

 

( * ) Dr.Geraldo Mendes dos Santos, pesquisador
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia -INPA
Coordenação de Pesquisas em Biologia Aquática-CPBA
Av.André Araújo, 2936, Cx.P.478, Bairro Petrópolis Manaus- AM 69060-001
Tel.(092) 643.3235/324o/3244
ou 6442051
e-mail:gsantos@inpa.gov.br

PALAVRAS, PALAVRAS


Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( * )

 

A palavra se constitui na mais grandiosa obra e conquista do ser humano.

Foi por intermédio dela que se conseguiu dar nome e sentido aos objetos e acontecimentos. As palavras são o retrato do pensamento e do sentimento e é por elas que conseguimos entender, interpretar e divulgar todos os fenômenos que ocorrem ou imaginamos, quer sejam concretos ou abstratos, quer estejam situados fora ou dentro da gente. Exatamente como as pessoas e demais seres vivos, as palavras têm cara própria, vida independente e cada uma delas é única, mesmo variando com o tempo. Isto significa também, que elas contém alto grau de diversidade e também evoluem, talvez co-evoluindo com o homem. Aprecio a forma, o sentido e a sonoridade das palavras e as admiro da mesma forma que admiro os minerais, os bichos, as nuvens e as plantas. Como tudo mais que existe, há palavras bonitas e feias, agradáveis e desagradáveis e isso é natural, afinal, elas representam os desejos e as sensações humanas. Há todo tipo de gosto e provavelmente há pessoas que gostam de palavras cabalísticas, como vampiro, macabro e triste, mas certamente muito mais gente aprecia palavras do tipo luz, graça, obrigado, harmonia. Talvez a palavra que mais nos diz respeito ou seja mais significativa seja nosso próprio nome. Curiosa e lastimavelmente, esta não é uma escolha da própria pessoa, mas uma lembrança herdada. Os progenitores ou os responsáveis por esta importante e decisiva tarefa de dar nome, certamente o fazem na melhor das intenções, mas há exceções à regra. Se assim não fora, como batizar alguém de 1,2,3 de Oliveira e Silva, Dolores do Calvário, Brasileiro da Gema ou DoReMi dos Cânticos?

Também curiosamente, a concepção ou o senso das palavras e dos nomes próprios mudam com o tempo. Talvez na infância João detestava seu nome, mas na idade mais avançada passou a amá-lo e vice-versa. O mesmo se pode dizer das variações intrínsecas. Num determinado tempo, talvez Paulo preferisse exatamente Paulo e noutro, Paulão ou Paulinho. Eu, por exemplo, não gostava de Geraldo, preferia Geraldinho. Hoje, detesto essa forma de tratamento (mesmo que denote carinho ou algo do gênero), preferindo mil vezes o Geraldo, especialmente quando seguido de Mendes. As palavras têm vida e quando não têm, a damos. Além disso, fazem milagres e por isso podem levar à alegria ou raiva, esperança ou descrença. As palavras são encantadoras e é interessante quando a gente pára para ouvi-las e apreciá-las. Há maneiras engenhosas de dotar uma mesma palavra de sentidos ou sensações diversas.

Vejam os exemplos: Gol/Gollllllllll. Maravilhosa/Ma-ra-vi-lho-sa! É bom poder trabalhar as palavras, fazer delas objetos manipuláveis, maleáveis, sobretudo objetos preciosos. É como montar brinquedos com as peças da Leco ou como tomar tijolos e fazer deles uma bela casa. Afinal, que é a poesia, senão a combinação harmoniosa de palavras soltas ou então a monografia senão uma ordenação criteriosa de idéias e fatos, pela palavra? Por seu significado real e transcendente e, sobretudo, por ter vida própria, a palavra merece respeito. Respeitar a palavra é uma forma de respeitar aos outros, ao mundo e a nós mesmos. Antes de terminar, gostaria de escolher dentre o universo de palavras que pululam em minha mente, uma que pudesse dar a vocês de presente nesse final de semana.

Tenho medo de errar ou cometer injustiça na imensa possibilidade de escolha que tenho e talvez por isso não seja prudente tomar essa iniciativa. Bem, já insinuei e certamente vocês criaram expectativas. Se não fizer isso, posso correr o risco de que tomem a última palavra deixada no texto, como sendo exatamente aquela que havia prometido escolher. Vejam que responsabilidade tremenda temos com as palavras. Bem, que palavra, finalmente, vou terminar neste texto? Estou confuso, perdido. E agora? Meu Deus!...

.