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Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( * )
Em 1669 (exatos 332 anos atrás),
na parte central da Amazônia, próxima à
confluência do rio Negro com o Solimões, os
portugueses construíram um forte, denominado São
José do Rio Negro, com a missão de combater
os invasores, sobretudo, espanhóis e holandeses.
De acordo com os relatos históricos, ao redor deste
forte desenvolveu-se um vilarejo de índios, missionários
e aventureiros, denominado Lugar e mais tarde, Barra do
Rio Negro. Cerca de dois séculos depois, o lugar
passou à categoria de Vila e daí à
capital da província do Amazonas, recebendo o nome
de Manaus, uma homenagem aos índios Manáos,
que habitavam a região e cujo nome tem o significado
de "lugar da mãe dos deuses". Deixemos
a história de lado e voltemos ao presente, para uma
reflexão sobre este lugar e sua gente.
Primeiro fato, a ser destacado
em letras garrafais: Manaus é linda! Espraiando-se
nos baixios, nas bordas de igarapés (infelizmente,
muitos deles já transformados em esgotos) ou nos
platôs argilosos e emoldurada pela floresta de um
lado e de outro, pelos rios Negro e Solimões, a cidade
é realmente maravilhosa e nos faz lembrar as divindades,
como nos lembram os índios.
Segundo fato: Manaus possui
o povo mais hospitaleiro do mundo! Talvez aculturados sob
a prodigalidade da natureza e sob pressão do isolamento
geográfico, o caboclo aprendeu desde cedo que cooperar
é melhor que competir e por isso seu senso de fraternidade
e benquerença foi aquilatado ao máximo, ao
longo do tempo.
Terceiro fato: Manaus é
uma cidade-estado! Ela possui uma área de 143.337Km2,
aproximadamente o tamanho do Pantanal mato-grossense e detém
cerca de 90% da arrecadação e 50% da população
do Amazonas. Fruto de um desenvolvimento acelerado, primeiramente
por causa da borracha, entre 1870 e 1913 e depois por causa
da Zona Franca, a partir da década de 60, a cidade
adquiriu os piores vícios das metrópoles e
já conta com uma população imensa,
aproximadamente um milhão e seiscentas pessoas. A
conseqüência mais imediata e drástica
é aquilo que todos conhecem nas grandes cidades brasileiras:
muita poluição ambiental, uma pequena casta
burguesa boiando na ostentação e um imenso
contingente de miseráveis imersos na mais absoluta
pobreza. Para qualquer cidadão minimamente civilizado
e sob orientação de elementares princípios
éticos, essa situação produz um quadro
tenebroso e desumano, com níveis econômicos
desequilibrados e discriminantes. Ainda como causa ou conseqüência
(ou talvez, as duas juntas), observa-se um certo abuso e
descuido com as coisas públicas e os recursos da
natureza: o lixo e a sujeira se acumulam por todos os cantos.
No caso de Manaus, as balsas e os portos fluviais que ligam
esta cidade à mesopotâmia e onde se encontram
os melhores pontos turísticos, abrangendo os municípios
de Iranduba, Manacapuru e Nova Ayrão, a imundície
campeia: copos, garrafas e sacos plásticos se espalham
por todos os lados. É uma vergonha!
Quarto fato: Manaus, como
qualquer outra cidade do mundo, é produto da vivência,
das atitudes, das ações e dos valores de seus
cidadãos! Nós construímos as cidades
e somos por ela construídos. Portanto, suas mazelas
não podem ser atribuídas unicamente aos políticos.
Todos somos responsáveis pelo quadro de nossas cidades
e, portanto, para melhorar a situação é
preciso um esforço conjunto, um ajuri, na linguagem
do caboclo. É preciso um trabalho constante para
a mudança de mentalidade, ainda muito vinculada ao
desperdício e ao descuido com o meio ambiente. Precisamos
cuidar dos nossos carros, nossos quintais, nossas ruas.
Cada um fazendo sua parte de modo consciente, chega-se ao
todo, mais saudável e harmônico. Em escala
maior e numa visão holística, precisamos trabalhar
para um equilíbrio responsável e inteligente,
compatibilizando as realizações humanas, muito
espalhafatosas e afeitas ao lucro com as belezas naturais,
sempre muito discretas e ofertadas gratuitamente. Manaus
merece ser agraciada no seu natalício. Esse é
o presente que lhe damos.
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