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Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( * )
Cada
idioma tem um léxico, vocabulário próprio
que representa o mundo físico e biológico
e sintetiza as coisas da mente, da alma e do espírito.Sujeito
às mesmas leis naturais que atuam sobre a totalidade
do ser humano, o senso das palavras, tal qual a moda, os
hábitos e costumes, muda continuamente, transfigura-se,
muda de sentido com o passar do tempo.
Isso se aplica não somente ao meio social, muito
sujeito às influências da mídia e às
novidades do momento, mas também ao meio acadêmico,
administrativo, tecnológico e científico.
Nos últimos tempos, talvez por causa do processo
globalizante que provoca rupturas de fronteiras e valores
e um amálgama curioso das diversas culturas, o léxico
tem sofrido mudanças profundas, em todos os cantos
do mundo. No caso do Brasil, berço do mais rico e
elegante português, este fenômeno tem-se manifestado
de forma vertiginosa. Já não se usa mais,
ou talvez com menos freqüência que antes, palavras
comuns, como por exemplo, macambúzio e sorumbático
ou, ainda as mais simples, como mamãe e papai.
Tristonho e abatido substituíram as primeiras; pai
e mãe (ou simplesmente o nome próprio dos
progenitores), as segundas. Fenômeno idêntico
se observa num infindável número de casos.
Apesar de toda erudição e precisão
de seus termos, o universo considerado intelectual também
tem sofrido intensas mudanças. Neste caso, um fato
interessante que se observa é o uso enfático
de certos jargões que se firmam como verdadeiros
padrões de linguagem nos setores da administração
e da gestão científica. Não é
à toa que escolas, cursos e especializações
profissionais ganham novas roupagens nos nomes a cada ano
que passa e sempre com mais intensidade. Afinal, qual o
administrador de negócios que não sonha com
título de MBA, o gerente de CPD que não se
encanta com o título de Web-master ou o desenhista
que não queira ser tratado por Designer?
No campo científico, não se fala mais com
tanta ênfase em estudos, pesquisas, projetos ou programas,
mas em algo mais sofisticado e versátil, como plataformas,
núcleos e redes.
É interessante observar que tão logo são
lançados - geralmente por tecnocratas do governo
- estes termos não têm um sentido muito claro,
mas são imediatamente absorvidos pela clientela de
usuários, sempre atentos e cuidadosos para não
parecerem desatualizados, sempre obedientes às tendências
do mercado, sempre ávidos por novas fontes de financiamento.
Neologismos que nascem e desenvolvem espontaneamente no
seio da sociedade é algo comum, mas como definir
ou caracterizar os jargões técnico-administrativos
na área de ponta do conhecimento? Qual a causa ou
razão desse fenômeno? Não tenho explicações.
Talvez são formas subliminares ou mesmo códigos
de linguagem que levam ao hermetismo da ciência, uma
forma egoísta de manter privilégio de castas
e manter à distância o cidadão comum,
verdadeiro alvo das conquistas e paciente pagador das contas
públicas. Ou ainda, instrumentos fantasmagóricas
de afirmação profissional, identidade vernacular
para a comunicação reservada dos pares, garantia
de aval das autoridades, bandeira da modernidade e maneira
mais fácil de se obter a aceitação
social - Paradigma ou paradoxo?!
Mesmo fazendo parte de uma elite, a que podemos denominar
cultural, o acadêmico, gestor ou cientista é
antes e acima de tudo, uma pessoa e portanto, possuidora
de verdades e incertezas, objetivos e utopias, vícios
e virtudes. É natural, portanto, que ela seja ao
mesmo tempo agente e vítima deste tipo de modismos
e tendências. Somos todos seres humanos e passíveis
dos caprichos das estruturas inteligentes, que parecem detestar
a paralisia, o comodismo e a mesmice, sempre em busca de
novos caminhos, sempre propugnando por novas mudanças.
Assim sendo, não há como escapar da mania
dos neologismos e seus usuários não devem
ser discriminados por mérito ou culpa, entretanto,
deve haver um esforço coletivo para que o desenvolvimento
da ciência seja um processo facilitador, democrático
e transparente e portanto, ao invés dos jargões
serem usados pelos gestores à revelia, como objeto
de moda, deveriam ser mais parcimoniosos e diligentes.
De igual modo, ao invés de serem aceitos passivamente
pelos cientistas ou usuários do conhecimento, como
se tratasse de ícones de capacidade, eles devem ser
encarados com mais cautela, discernimento e cuidado.
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