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Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( * )
Numa
complexa combinação de desenvolvimento social
pacífico com imperialismo selvagem e beligerante,
a arquitetura do mundo resultou numa grande aldeia, com
a bandeira da globalização. Tudo foi globalizado.
Globalizou-se a economia de tal maneira que os bens de produção
transformaram-se em papéis voláteis, títulos
e bolsa de valores. Os produtos, apesar de ricos por fora,
são extremamente pobres por dentro e
além disso tem a mesma fachada, em todos os cantos
do mundo.
A economia já não é mais vista como
administração das coisas concretas relativas
às finanças e ao interesse comum, mas tão
somente uma panacéia delirante, vinculada a cotas
e índices, verdadeira trama de ficção,
busca frenética e desenfreada em torno de algo ilusório,
abstrato e ululante.
Globalizaram-se implacavelmente os produtos, comércios,
fábricas, mercados, processos e serviços.
Globalizados também ficaram as vias de acesso, os
meios de transporte e a comunicação, quase
instantânea. Também globalizadas se tornaram
a ciência, a tecnologia, as artes e até a religião.
Na aldeia global, nem o terrorismo ficou imune e por ser
globalizado, não tem pátria, não se
restringe a um grupo, país ou facção.
Como ocorre no mundo das corporações capitalistas,
ele também não tem cara, dono ou patrão.
Assim sendo e tal como agente canceroso, penetra na sociedade
em surdina, perpassa ideologias e sistemas políticos,
imiscui-se na tecnologia de ponta, afronta todo esquema
de segurança e provoca mortes,
atentados e chacinas horripilantes.
O terrorismo é um ato extremo e insano de insegurança,
prepotência e fanatismo. Ele pode manifestar-se tanto
de maneira abrupta e chocante, como verificada nos atentados
contra o Pentágono e World Trade Center, como também
de modo contínuo e galante, como se observa no dia-a-dia
e ao longo de séculos, pela intolerância, injustiça
e ganância.
Dependendo do lado em que o analista se encontra, os agentes
destes atos podem ser denominados de malucos ou heróis,
bárbaros ou civilizados, bestas ou salvadores da
pátria, mas todos são fundamentalistas, isto
é, radicais na opção e adesão
a determinados valores. Assim sendo, tanto as guerras declaradas
e as bombas humanas lançadas por camicases contra
prédios, como as decisões políticas
que promovem a desgraça, a miséria e a fome
são atos terroristas. Ambas correntes são
abjetas e aviltantes, pois enxovalha a centelha divina presente
em cada ser, além do que agridem, denigrem e
degradam as condições desejáveis dos
povos e sobretudo, a dignidade humana.
O medo real ou sarcástico da guerra, aliado à
lavagem cerebral perpetrada pelos estrategistas de opinião
pública e pela mídia tendenciosa, normalmente
desloca o foco da verdade e anuvia a consciência.
Além disso, acabam também gerando maniqueísmo
inconseqüente e dicotomias aberrantes e provocativas,
remetendo para um lado heróis (às vezes verdadeiros,
quase sempre falsos) e para outro os bandidos de todos as
classes e matizes.
Nesse cenário, é natural que as grandes questões
da humanidade acabam sendo negligenciadas ou distorcidas,
o que é um fator decisivo para florescimento dos
velhos problemas e raiz para futuras crises.
Diante dos fatos recentes mostrados em exaustão pela
mídia e do estratagema da guerra que ora se inicia
entre Estados Unidos e "não se sabe quem",
é preciso ter compaixão das inocentes vítimas
mas também é necessário ter discernimento
para separar o joio do trigo. Mais que isso, é preciso
entender que o terrorismo é um bicho de sete-cabeças,
podendo parecer tanto uma majestosa sereia como um tenebroso
bicho papão. É preciso ter muito juízo.
Ou talvez, pouco ou mesmo nenhum. Afinal, é quase
sempre em nome dessa virtude que o homem tem provocado tanta
violência, vingança e mentira e tantos outros
ingredientes próprios do terrorismo.
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