Samaúma
 

 

 

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( * ) Dr.Geraldo Mendes dos Santos, pesquisador
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia -INPA
Coordenação de Pesquisas em Biologia Aquática-CPBA
Av.André Araújo, 2936, Cx.P.478, Bairro Petrópolis Manaus- AM 69060-001
Tel.(092) 643.3235/324o/3244
ou 6442051
e-mail:gsantos@inpa.gov.br

Bandeira de Paz


Geraldo Mendes dos Santos*



Dentre as miríades de frases latinas que aprendi enquanto estudante secundarista, quase todas foram perdidas ao longo do tempo, mas uma ficou latente na minha memória: "se vis pacem para bellum". Se não me engano, ela é uma citação de Aníbal, general cartaginês que lutou contra o império romano. Traduzida para a língua portuguesa, última flor do Lácio, inculta e bela, significa: "se queres a paz, prepara a guerra".
Nesse momento de pânico e perplexidade geral por causa da onda dos violentos atentados terroristas contra os Estados Unidos, nada mais apropriado que analisar estes episódios à luz daquela famosa frase.

"Se queres a paz...". Paz é a vivência em sintonia, objeto perfeito da utopia, reflexo cintilante da celestialidade. Paz é o ideal de vida, objetivo maior das nações, máxima benesse buscada por todos nós.
"Prepara a guerra..." Este é o ponto central, razão crucial da sentença!

Se parece simplória na aparência ou parcimoniosa na sintaxe, o ato de preparar guerra é uma missão hercúlea, para não dizer paranóia ou insanidade da humanidade. Quanto dinheiro, energia e recurso são envolvidos em sua prática! As cifras investidas no preparo da guerra são realmente astronômicas e inimagináveis, mas para quem gosta de números, talvez fosse ilustrativo informar que há dados dando conta que isso corresponde a alguns milhões de dólares por segundo.

No longínquo período romano, cujo ápice coincidiu com a chegada do grande mestre Jesus, a toga já existia, mas a lei magna era tocada a ferro e fogo.

De lá para cá, ao longo de aproximadamente dois mil anos, as civilizações se desenvolveram, a criatura humana conquistou e desenvolveu tecnologias fantásticas e fantasiosas e houve evolução em largo sentido, mas a noção de grandeza e poder de países ou facções continuam sendo medidas pelo poderio
militar e capacidade guerreira.

A panacéia da guerra parece estar vinculada a uma atração mórbida pelo cheiro de pólvora, uma vibração atávica e uma ação deletéria do homem perpetradas contra si mesmo. Seguramente, trata-se de um caso raro de autofagia verificado neste imenso e complexo universo sobre nossas cabeças.

Provavelmente não se trata de puro canibalismo, no senso clássico de um indivíduo comer outro da mesma espécie, geralmente na luta esfomeada por recursos da natureza, mas a prática maluca da auto-destruição, ou melhor, o culto macabro à morte premeditada, geralmente motivado pela ira e desejo de
vingança.

Carece de lógica e fundamento a idéia da busca da paz com a preparação da guerra. Assim sendo, deve ser questionada a essência da frase daquele eminente general, ainda hoje seguida à risca pelos países de todo o mundo.

Desculpe, mestre Aníbal, mas na atual conjuntura de um mundo totalmente integrado e na iminência de outra guerra mundial, precisamos declarar morte à sua sentença. Talvez sua célebre frase não deva morrer, uma vez que já faz parte da história e está na memória de muita gente, mas é hora de ser
substituída ou talvez aprimorada. Aproveitando o estilo forte e a elegância acentuada de seu texto, talvez pudesse ser transformada para algo do tipo "Se queres a paz, desprepare a guerra".

Num mundo globalizado, tocado pela ganância dos mais fortes e pelo poderio das bombas e do dinheiro, é difícil imaginar uma economia sem produção ou gastos com material bélico, mas a supressão dos preparativos para a guerra implicaria na disponibilidade de uma gigantesca montanha de recursos,
suficientes para atender aos velhos, aos moços e às crianças, com sobra de outras tantas montanhas de dinheiro. A guerra justa (ou guerra santa, como nos ensina a santa madre igreja!) deveria ser contra o preconceito, a pobreza, a miséria e a fome. Se não é essa a idéia original contida na frase do velho Anibal, que seja então a sentença dos atuais dirigentes do mundo, o objetivo real das nações e o lema de todas as nossas bandeiras.