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Geraldo Mendes dos Santos*
Dentre
as miríades de frases latinas que aprendi enquanto
estudante secundarista, quase todas foram perdidas ao longo
do tempo, mas uma ficou latente na minha memória:
"se vis pacem para bellum". Se não me engano,
ela é uma citação de Aníbal,
general cartaginês que lutou contra o império
romano. Traduzida para a língua portuguesa, última
flor do Lácio, inculta e bela, significa: "se
queres a paz, prepara a guerra".
Nesse momento de pânico e perplexidade geral por causa
da onda dos violentos atentados terroristas contra os Estados
Unidos, nada mais apropriado que analisar estes episódios
à luz daquela famosa frase.
"Se queres a paz...". Paz é a vivência
em sintonia, objeto perfeito da utopia, reflexo cintilante
da celestialidade. Paz é o ideal de vida, objetivo
maior das nações, máxima benesse buscada
por todos nós.
"Prepara a guerra..." Este é o ponto central,
razão crucial da sentença!
Se parece simplória na aparência ou parcimoniosa
na sintaxe, o ato de preparar guerra é uma missão
hercúlea, para não dizer paranóia ou
insanidade da humanidade. Quanto dinheiro, energia e recurso
são envolvidos em sua prática! As cifras investidas
no preparo da guerra são realmente astronômicas
e inimagináveis, mas para quem gosta de números,
talvez fosse ilustrativo informar que há dados dando
conta que isso corresponde a alguns milhões de dólares
por segundo.
No longínquo período romano, cujo ápice
coincidiu com a chegada do grande mestre Jesus, a toga já
existia, mas a lei magna era tocada a ferro e fogo.
De lá para cá, ao longo de aproximadamente
dois mil anos, as civilizações se desenvolveram,
a criatura humana conquistou e desenvolveu tecnologias fantásticas
e fantasiosas e houve evolução em largo sentido,
mas a noção de grandeza e poder de países
ou facções continuam sendo medidas pelo poderio
militar e capacidade guerreira.
A panacéia da guerra parece estar vinculada a uma
atração mórbida pelo cheiro de pólvora,
uma vibração atávica e uma ação
deletéria do homem perpetradas contra si mesmo. Seguramente,
trata-se de um caso raro de autofagia verificado neste imenso
e complexo universo sobre nossas cabeças.
Provavelmente não se trata de puro canibalismo, no
senso clássico de um indivíduo comer outro
da mesma espécie, geralmente na luta esfomeada por
recursos da natureza, mas a prática maluca da auto-destruição,
ou melhor, o culto macabro à morte premeditada, geralmente
motivado pela ira e desejo de
vingança.
Carece de lógica e fundamento a idéia da busca
da paz com a preparação da guerra. Assim sendo,
deve ser questionada a essência da frase daquele eminente
general, ainda hoje seguida à risca pelos países
de todo o mundo.
Desculpe, mestre Aníbal, mas na atual conjuntura
de um mundo totalmente integrado e na iminência de
outra guerra mundial, precisamos declarar morte à
sua sentença. Talvez sua célebre frase não
deva morrer, uma vez que já faz parte da história
e está na memória de muita gente, mas é
hora de ser
substituída ou talvez aprimorada. Aproveitando o
estilo forte e a elegância acentuada de seu texto,
talvez pudesse ser transformada para algo do tipo "Se
queres a paz, desprepare a guerra".
Num mundo globalizado, tocado pela ganância dos mais
fortes e pelo poderio das bombas e do dinheiro, é
difícil imaginar uma economia sem produção
ou gastos com material bélico, mas a supressão
dos preparativos para a guerra implicaria na disponibilidade
de uma gigantesca montanha de recursos,
suficientes para atender aos velhos, aos moços e
às crianças, com sobra de outras tantas montanhas
de dinheiro. A guerra justa (ou guerra santa, como nos ensina
a santa madre igreja!) deveria ser contra o preconceito,
a pobreza, a miséria e a fome. Se não é
essa a idéia original contida na frase do velho Anibal,
que seja então a sentença dos atuais dirigentes
do mundo, o objetivo real das nações e o lema
de todas as nossas bandeiras.
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