Samaúma
 

 

 

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( * ) Dr.Geraldo Mendes dos Santos, pesquisador
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia -INPA
Coordenação de Pesquisas em Biologia Aquática-CPBA
Av.André Araújo, 2936, Cx.P.478, Bairro Petrópolis Manaus- AM 69060-001
Tel.(092) 643.3235/324o/3244
ou 6442051
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AS ESTATÍSTICAS E AS ESSÊNCIAS


Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( * )


No universo fenomenal de dados estatísticos em que a sociedade moderna se vê atolada, talvez seja insignificante ou mesmo desprezível saber-se, por exemplo, que os países ricos e desenvolvidos possuem 20% da população e consomem 80% da energia disponível no mundo ou que eles lançam na atmosfera, a cada ano, cerca de 5,5 bilhões de toneladas de gases. De igual modo, que existem no Brasil cerca de oito milhões de pessoas acometidas do mal de chagas, trezentos mil casos de malária, metade das crianças com anemia ou uma vítima da violência a cada instante. Afinal, qual o real significado e alcance dessas estatísticas e que tipo de sensação íntima, motivação psíquica, esses números dão conta? - Convenhamos: - pouco, talvez coisa nenhuma! As estatísticas, embora úteis na pesquisa social, na gestão administrativa e nas colunas de jornais, são frias e passivas, desprovidas de essência, sem nenhum sentimento ou energia verdadeiramente humana. Infelizmente, as circunstâncias exageradamente competitivas e adversas do mundo moderno parecem ter transformado os dilemas, as tragédias e os dramas em algo absolutamente comum.

A humanidade parece estar-se acostumando à impessoalidade e ao anonimato. Tudo é transformado em número. O nome das pessoas pouco importa, já que elas estão sendo irremediavelmente transformadas em letras e algarismos, não importando aqui tratar-se de arábicos, barras ou genômicos.

Parece haver uma tendência mórbida, degenerativa e inconseqüente, visando sempre a negação do sujeito e a identidade do indivíduo. O objeto é o que importa e parece importar ainda mais quando se trata de dinheiro, poder e fama. As realidades pessoais e subjetivas são brutal e imbecilmente transformadas em gráficos, cifras e citações Até a desgraça humana e a degradação ambiental parecem estar perdendo a cara e o nome e sendo transformadas em códigos e números. Tudo é quantificado e transformado em cifras, como se isso fosse retrato da verdade, protocolo da mudança desejável, solução do problema ou simples atestado da suprema sapiência humana. Como alimentar a esperança num futuro diferente se a manipulação dos genes, artefato da tecnologia de ponta e apanágio da excelência científica, já está sendo utilizada como fator de coação, peça de cata-níqueis ou mesmo instrumento de discriminação?!

É verdade que o mundo é grande e está coalhado de gente e que o processo tecnológico é irreversível, mas isso não é justificativa para essas mórbidas tendências. Essencialmente, é preciso resgatar os reais valores humanos, situados fora da raia dos números. É perfeitamente compreensível a tentativa de quantificar os valores do progresso, do sucesso e até do sofrimento, mas com empenho igual ou ainda maior, é preciso estar atento às essências. É preciso uma revalorização dos sentimentos, uma das mais belas e pujantes prerrogativas do ser humano. É preciso uma sintonia mais afinada com as verdades transcendentais, preconizadas pelas profecias dos santos ao longo dos tempos, quais sejam, a fraternidade, o amor e a justiça. A conquista do progresso, do desenvolvimento ou da sustentabilidade (ou qualquer nome que se queira dar à aventura humana na terra) deve passar obrigatoriamente por essa ética. A quantificação das coisas, fatos e pessoas é necessária à gestão, administração e pesquisa, mas seguramente ela contribui com ninharias para a melhoria das condições ambientais ou a redenção humana. Importante mesmo é cuidar da essência dos seres, da qualidade das coisas, da origem dos fatos, enfim, da natureza intrínseca do mundo.

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